Publicado em: 26/04/2017 às 11h47

Celestino Nóbrega: Kiss

Em sua coluna, o ortodontista traz valioso conselho aos colegas de profissão.

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O que veio à sua mente imediatamente após ler o título desta coluna? Beijo? Banda de rock and roll?

Quem poderia descrever melhor o beijo do que o artista austríaco Gustav Klimt, que assim o fez de uma maneira incrível, conseguindo expressá-lo através de uma figura truncada por pequenos fragmentos dourados e bem delineados (imagem acima), assim como o amor? Fragmentos estes que se completam, formando uma linda imagem ao mesmo tempo suave e explosiva.

O ato de beijar, que deveria expressar tão somente o amor, na verdade traduz de modo incontestável as antíteses que povoam os recônditos do intrincado comportamento humano. Até mesmo pessoas que não se amam se beijam! Judas beijou Cristo no Monte das Oliveiras. Capitu beijou Bentinho.

Em 1979, Berlim Oriental celebrou as festividades pela passagem do 30º aniversário da Alemanha Oriental. As celebrações tinham como convidado de honra o líder soviético Leonid Brezhnev. Quando Brezhnev terminou seu discurso, o presidente da Alemanha Oriental, Erich Honecker, abriu os braços para cumprimentá-lo com um grande beijo (um ritual normal entre dirigentes russos), mas ambos, Honecker e Brezhnev, foram um pouco mais entusiasmados.

Muitas revistas publicaram imediatamente a foto, e Paris Match dedicou uma página dupla com uma legenda “O Beijo”. A imagem foi utilizada em camisetas, toalhas e outras recordações, em logotipo de hotel e pintada em várias partes do Muro de Berlim (foto abaixo).

 

Também tem a Kiss – a megabanda de rock que surgiu em 1973 graças aos devaneios e à persistência de um jovem com talento imenso e com uma língua ainda maior (na foto abaixo, com a formação clássica da banda). Através da simplicidade dos hits de três acordes naturais cuidadosamente distorcidos e dos riffs em escala pentatônica nível Mobral, acompanhados em contraponto pelo baixo e pelas batidas secas da bateria, o quarteto tornou possível aos adolescentes o sonho de tocar na garagem os sucessos que rolavam nas rádios. Desta forma, explodiu no mundo o grupo formado pelo seu mentor e baixista Gene Simmons, acompanhado de Peter Criss na bateria, Ace Frehley na guitarra e Paul Stanley no vocal e na guitarra base.

O quarteto mascarado tornou as coisas simples e descomplicou a vida dos amantes do rock. E os americanos, famosos pelo poder de concisão na organização de ideias, de imediato elaboraram o “Conceito Kiss”: keep it simple, stupid (KISS). Em português: mantenha as coisas simples, idiota. De um lado, a virtuose digna de inveja: Yes, Emerson Lake and Palmer, Pink Floyd, Rick Wakeman; de outro lado, a simplicidade do Kiss e dos Ramones.
 

 

Agora, deixando a cena e a verve colérica do rock and roll em Nova York, Detroit, Londres e Birmingham, transporto-me para uma tarde em Pindamonhangaba (SP), no final dos anos 1970. Sabe como é cidade do interior: quando há um evento social, tem mobilização geral. E assim ocorreu com aquela festa de aniversário de 15 anos que teria um final sem precedentes. Em uma despretensiosa tarde calorenta de sábado, todos os “sociáveis” estavam prestes a vivenciar um dos mais memoráveis momentos da história. Todos passaram a sexta-feira anterior e o sábado de manhã se preparando.

O momento tão esperado chegou. A fila de carros estacionados ia desde o Bosque da Princesa até a Igreja São Joaquim: a cidade jamais havia presenciado uma festa de 15 anos com tanta pompa.

No clube Literário e Recreativo de Pindamonhangaba, os ventiladores estavam funcionando em potência máxima para tentar amenizar o calor que só aumentava. Os convivas chegando, roleta liberada para quem mostrasse o convite, música rolando e a família da aniversariante em estado máximo de excitação.

O protocolo foi seguido à risca, conforme os exaustivos ensaios: as 15 meninas fizeram uma entrada harmônica e muito bem coordenada. As velas foram acesas, dançaram a valsa com os meninos. Primeiramente, a aniversariante dançou a valsa com o pai, e em seguida com a personalidade máxima de Pindamonhangaba na época.

Com a festa no auge, chega o ponto culminante: o pai recitou com altivez um poema que escrevera para aquele momento tão especial. Como pano de fundo a música, ricamente executada ao violino pelo maestro Simplício, divorciado da voluptuosa Risoleta, que após a separação se tornara “extra de vários”. Talvez, por se recordar da amada, ele chamou na vara um tango descompassado com acordes dissonantes, que aumentava ainda mais a sensação de calor e que àquela altura já se tornava nauseante.

A mãe, expoente máximo da família que naquele momento tão especial apresentava a filha à sociedade, preparou uma surpresa que foi cuidadosamente mantida sob sigilo total. Retirou debaixo da mesa uma linda caixa branca em formato de coração, ataviada por uma fita vermelha. Ela então leu entre soluços seu discurso. Uma das mãos tremia de emoção ao segurar o papelzinho com tão singelas e profundas palavras, e a outra mão tremia em um ritmo diferente e muito forte, tentando segurar a tal caixa branca em forma de coração adornada pela fita vermelha. Ela tremia tanto que a caixa quase caiu.

Naquele momento, o tempo parou: todos estavam estáticos aguardando a abertura da caixa que sacolejava e, em um silêncio quase absoluto, todos pararam – menos os ventiladores. De súbito, em um ato que marcaria a vida de todos os convidados dali por diante, a dedicada mãe solta o papelzinho de carta com o discurso, que pareceu levar uns 15 minutos até repousar no chão. Todos atentos, olhares fixos na caixa branca com forma de coração, aguardando o gran finale. Com a mão ainda trêmula agora livre, descerra o laço de fita que simbolicamente libertaria uma desesperada pomba que estava aprisionada na maldita caixa há algumas horas. A ideia de simbolizar a apresentação da filha de 15 anos à sociedade através da liberação de uma pomba ansiosa por liberdade foi de fato surpreendente.

O que não foi surpresa foi o ato desesperado da pomba ao freneticamente voar como um avião de caça supersônico em direção a um dos ventiladores do teto. Eu sinceramente acho até hoje que foi suicídio. Foi pena voando para todo lado, o sangue salpicou o bolo branquinho que até então estava imaculado. O corpo da pomba, mesmo sem a cabeça, tremulava em estertores derradeiros anunciando o final da festa. Todos voltaram para casa.

Em resumo, Kiss: keep it simple, stupid. O princípio que a dedicada mãe não considerou ao tentar inovar. Lembre-se, meu amigo ortodontista, mantenha as coisas simples. Não inventa!

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.