Publicado em: 19/06/2017 às 14h42

Celestino Nóbrega: não pode haver mistérios na Ortodontia

O ortodontista conta que até os fenômenos biológicos que cercam a reparação óssea e a movimentação dentária estão sendo devidamente esclarecidos pela Ciência.

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(Imagens: Shutterstock).

 

Minha infância foi ricamente povoada por mistérios. Tudo era misterioso e acho que minha curiosidade aumentou exponencialmente depois de começar a assistir a série The Twilight Zone, de Rod Serling, que no Brasil se chamava Além da Imaginação. Naquela época, havia apenas dois canais na televisão; as séries não mostravam mais os cowboys, mas sim discos voadores, monstros no fundo do mar, anões convivendo em terra de gigantes, viagens pelo tempo etc.
 
O mais curioso de tudo é que, ao me tornar adulto, alguns mistérios foram desvendados e viraram fatos concretos, o que foi decepcionante. Eles eram, por si só, muito mais divertidos do que os fatos!
 
Meu pai tinha um amigo chamado Mário, que era dono da única tipografia de Pindamonhangaba (SP). Um cara bonachão, de face redonda e dentes curtinhos, com uma habilidade extraordinária na produção de impressos finíssimos. Habilidade esta que o levou às barras da justiça por produzir perfeitas cédulas de um barão. Puxou cana de uns três anos e a tipografia começou a ir por água abaixo.
 
O Chiquinho, irmão do Mário, também trabalhava na tipografia. Para reforçar o orçamento da família, já que o irmão estava “na colônia”, nas horas vagas exercitava a habilidade adquirida de mãos de tipógrafo através de shows de mágica. Na verdade, ele era um cara multimidiático, mas nos anos 1970 havia poucas oportunidades de expressar seu fascínio pela arte ilusionista. Assim, quando o circo Orlando Orfei vinha para a cidade uma vez ao ano, o Chiquinho tinha a grande oportunidade de demonstrar suas qualidades mandrakianas.
 
Mas, o ápice de suas performances acontecia na então pacata cidade de Aparecida do Norte (SP). Havia um pequeno teatro que exibia sessões corridas de segunda-feira a sábado, o fantástico e burlesco show da Monga, a Gorila Assassina. Se você já assistiu a um show da Monga quando criança, sabe bem o que significa a palavra pânico. Como pode um mulherão daqueles, com um corpão roliço revestido por um legítimo maiô Catalina, se transformar em um terrível e enraivecido gorila? Pior: romper facilmente as grades da jaula e sair correndo para atacar a molecada?
 
Na garagem da minha casa tinha uma mesa de bilhar. Os amigos do meu pai, incluindo o mágico Chiquinho, marcavam ponto quase todas as noites. Minha mãe acendia uma espiral para matar os pernilongos e me falava para ir dormir às 20h30. Eu ficava em um canto lutando contra o sono, torcendo por meu pai e escutando os papos que rolavam. Qual foi minha surpresa ao ouvir o Chiquinho desvendando o truque da Monga!
 
Contou tudo, tim-tim por tim-tim, não percebendo que eu estava ali. Caramba, que decepção! Tudo não passava de um jogo de espelhos, o mistério se desfez imediatamente. Ainda, como ele não percebeu que eu estava lá, contou em ardentes detalhes que ele era amante da Monga. Levei um sopapo do meu pai quando não me contive e, de supetão, perguntei se “na hora H” ela ficava com a fantasia de gorila ou não. Até hoje não sei a resposta. Assim foi minha transição da infância para a adolescência. Mistérios que se tornaram cada vez mais profundos.
 

Meu vizinho gostava muito de ir para Ubatuba (SP) nos finais de semana. No feriadão da Páscoa, lá se foi a família toda para a praia do Perequê. A perua Veraneio de cor azul-diamante ficou lotada com o pai, a prestimosa esposa grávida de sete meses, a filha de seis anos de idade, o molequinho de cinco anos e o cachorro pequinês chamado Ponêi. Assim mesmo, Ponêi, pois foi um presente que a família ganhou do Sr. Tanabe – o japonês que consertava eletrodomésticos.
 
Hoje sei que o Ponêi era classe III, com deficiência de maxila por hipodesenvolvimento volumétrico endocondral da sincondrose esfeno-occipital. Tinha também algum problema digestivo, pois expelia muitos gases. Está aí outro mistério: acho que os cães pequineses foram abduzidos e voltaram para seu planeta original, pois nunca mais vi outro. Eram muito comuns naquela época.
 
Os filhos dos vizinhos eram crianças muito mimadas. No último Natal, a menina ganhara uma Lú Patinadora, e o menino um autorama da série Fittipaldi. A bola de capotão usada nas peladas de rua era dele, sempre escolhido por último e, mesmo assim, era café com leite. A menina era ainda mais mimada. Ganhou um coelhinho branco que era tratado como se fosse um príncipe. Andava meio nervoso, é verdade – talvez por falta de uma parceira –, mas era nababescamente tratado por sua dona. Pelos branquinhos e sedosos enxaguados com creme rinse Neutrox, olhinhos sempre vivazes e vermelhinhos, parecia realmente um príncipe albino.
 
Achei estranho que o coelhinho não acompanhou a família naquele feriadão de Páscoa. Mas, rapidamente concluí que certamente meu vizinho teria deixado tudo organizado: o bichinho muito bem instalado em uma gaiola limpa, com água e cenouras à vontade. Era sexta-feira da Paixão e a família, com certeza, chegaria no final da tarde do domingo. Eis que, na manhã do domingo de Páscoa, escuto os latidos desesperados do Sigürd, que parecia estar enfrentando um inca venusiano de tanto latir. Não sei por que coloquei esse nome no meu cachorro, mas lhe caía muito bem: era um típico vira-latas de porte médio, com a sagacidade de um fox paulistinha e a falta de noção de um fila brasileiro.
 
Depois de cessados os latidos, aparece o Sigürd com o rabo abanando e feliz da vida com o raio do coelho entre os dentes, mortinho da Silva, todo sujo e os pelos brancos escondidos por uma crosta de barro marrom. Bateu o desespero: e agora? Conto ou não conto aos vizinhos? O que fariam meus heróis em um momento como este? O que faria o Capitão Crane, o Kowalski e o Almirante Nelson do seriado Viagem ao Fundo do Mar? Ou talvez eu devesse agir como o dissimulado Dr. Smith do Perdidos no Espaço?
 
Fiz o que deveria ser feito, lavei o finado coelhinho com água e sabão de coco. Ficou limpinho e cheiroso, porém, estava rijo e frio. Pulei o muro, o coloquei de volta na gaiola e esperei o entardecer já me preparando para, com a cara mais lavada do mundo, oferecer minha ajuda aos vizinhos assim que percebessem a tragédia. Claro que eu já estava esperando uma choradeira. Mas, o desespero demonstrado pelo choro copioso e desesperado de todos os membros da família (menos do pequinês) me chamou a atenção. Imaginem a situação: o coelhinho já estava morto quando a família partiu para Ubatuba na sexta-feira da Paixão. O pequeno roedor já havia sido enterrado com todas as honras e pompa que lhe cabiam. O maldito Sigürd o desenterrou e eu o coloquei de volta na gaiola. Que confusão!
 
A família, provavelmente, fez terapia com o único analista da região, em Taubaté (SP), durante algumas décadas. Possivelmente, continuam sem entender o mistério, a não ser que leiam esta coluna escrita exatamente 44 anos depois do fato. A menina mimada despirocou, virou riponga e vende pulseiras na rua da praia em São Sebastião até hoje. O menino gordinho emagreceu e está fininho até hoje, tornou-se vegano xiita. 
 
No exercício da nossa especialidade, não pode haver mistérios nem dogmas. Fenômenos biológicos que cercam a reparação óssea e a movimentação dentária, por exemplo, estão sendo devidamente esclarecidos pela Ciência, ainda que o sejam através de trabalhos laboratoriais em coelhos.
 

 

 

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.