Publicado em: 19/06/2017 às 14h48

Por que escolher a Ortodontia Lingual?

Em entrevista, o italiano Paolo Manzo e o brasileiro Celestino Nóbrega trocam conhecimentos sobre o tema.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo
Ortodontia Lingual foi o principal assunto abordado na entrevista concedida por Paolo Manzo e coordenada por Celestino Nóbrega. (Foto: Jaime Oide)

 

 
Partilhando da mesma paixão pela Ortodontia e pela docência, o italiano Paolo Manzo, professor na Universidade de Nápoles “Federico II” (Itália), e o brasileiro Celestino Nóbrega, program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos), dão sequência à proposta de troca de conhecimento entre ortodontistas brasileiros e estrangeiros. Na conversa conduzida por Nóbrega, o tema principal foi Ortodontia Lingual, técnica que Manzo costuma adotar para a maioria dos seus casos clínicos e a qual tem se dedicado a estudar ao longo dos anos.
 
Celestino Nóbrega – Quanto tempo é preciso para se tornar um ortodontista na Itália?
Paolo Manzo – Na Itália, basicamente, pode-se praticar Ortodontia mesmo sem ser um especialista, funcionando como se fosse uma pós-graduação. Então, primeiro é preciso cursar seis anos de graduação de Medicina e, se você quiser ser um especialista, precisará fazer um programa de pós-graduação que leva cerca de quatro anos, pois é necessário realizar uma série de casos e tratamentos em pacientes. Temos alguns requisitos básicos para ser aprovado e assim se tornar um especialista em Ortodontia.
 
Nóbrega – Então, basicamente, leva-se dez anos para se tornar um ortodontista?
Manzo – Sim, e essa é uma boa pergunta. Quando escolhi a área de Saúde, foi porque gostava de Medicina. Mas, falei para mim mesmo: “quero fazer Medicina, mas não quero estudar tanto tempo, porque são seis anos de graduação e, normalmente, mais quatro de especialização, somando dez anos ou mais, dependendo da área”. Porém, depois da minha graduação, entrei na pós-graduação, veio o doutorado e, por fim, acabei estudando por mais de 11 anos. Então, quando você gosta de algo, como eu gosto de Odontologia e adoro Ortodontia, você não quer parar de estudar.
 
Nóbrega – Qual a sua opinião sobre braquetes autoligáveis e casos de extração ou de não extração?
Manzo – Uma das coisas mais importantes que tento compartilhar, inclusive com os jovens e com os dentistas que me seguem – porque gosto de dividir a vida privada e a prática diária –, é que a verdadeira ferramenta que temos é a nossa cabeça. Não temos nenhuma ferramenta que possa tratar o paciente por nós, não temos um aparelho inteligente. Sei que existe uma tendência em muitos países de fazer marketing direto para os pacientes, pensando que isso pode ser bom por algumas razões, mas também pode não ser tão simples de gerenciar, por outras razões. Hoje, o paciente absorve bastante informação da internet e do web marketing, e, muitas vezes, parece que a internet é mais importante do que o nosso diploma, e eu não concordo com isso. Acho que os braquetes autoligáveis são um tipo de sistema, mas também um tipo de filosofia. Então, quando falamos de nenhum atrito, estamos falando do que podemos usar para dar ao tratamento algo mais eficiente, mas podemos fazer exatamente a mesma coisa com qualquer tipo de braquete. Se você olhar para meu aparelho com braquetes autoligáveis e me perguntar: “Paolo, você consegue fazer exatamente a mesma coisa com outro aparelho?”, eu digo: “Com certeza, mas pode levar mais tempo”. Fazendo uma comparação: se eu optar por voltar para a Itália de navio, seria bonito porque é um passeio, mas eu preciso ficar quatro semanas fora da clínica, então prefiro voltar de avião. Isso tem a ver com a eficiência, então ela pode mudar, mas o plano de tratamento não. Quanto aos casos de extração, se havia esta indicação há 20 anos, atualmente a indicação continua a mesma. Isso não muda.
 
Nóbrega – Qual o percentual de pacientes que você tem com aparelhos linguais e labiais?
Manzo – Em primeiro lugar, eu sei exatamente o quanto a estética é importante no Brasil. É claro, é visível. Na Itália, também prestamos muita atenção à estética. Eu gosto de trabalhar com aparelhos linguais, embora muitos profissionais sejam resistentes a ele – e sempre digo que essas pessoas estão perdendo metade do trabalho. Eu costumo usar um exemplo: se você quer viajar pelo mundo e decide que não quer visitar países do hemisfério norte, só os do sul, na verdade você está reduzindo suas possibilidades. E, hoje, o paciente pede determinados tratamentos.
 
Nóbrega – Algumas vezes, o paciente chega ao consultório exigindo determinada técnica, como o aparelho lingual. Porém, há casos em que ele não pergunta. Você oferece?
Manzo – Basicamente, hoje eu ofereço essa opção porque gosto muito dela. O paciente deve saber que existe a chance de tratar de uma maneira opcional e diferente. Eu tenho um grande percentual de pacientes adultos, e grande parte deles, se quiser e concordar comigo, eu trato com aparelho lingual. Não há contraindicações para aplicar esta técnica, o paciente precisará ter apenas um pouco mais de atenção à higiene oral. Eu explico: se ele leva de dois a três minutos na escovação, agora levará um minuto a mais. Enfim, eu trabalho com braquetes autoligáveis e linguais pela eficiência.
 
Nóbrega – Qual sistema de Ortodontia Lingual você usa?
Manzo – Uso o sistema Harmony, da American Orthodontics, e sei que ele vai ser muito popular aqui na América do Sul. Na Itália, estou compartilhando e ensinando sobre ele agora, pois acredito que antes de disseminar eu devo testar. Se eu confiar, testar e trabalhar no meu paciente, eu posso compartilhar depois. Eu amo ensinar e dividir conhecimento, embora seja uma grande responsabilidade. Além disso, quando temos algo eficiente, torna-se também mais fácil compartilhar com os jovens. Percebe-se que jovens trabalhando com sistema lingual padrão têm uma curva de aprendizagem de dois, três, quatro anos. Mas, ao trabalharem com braquetes autoligáveis, eles têm uma curva de aprendizagem de seis meses a um ano. Inclusive, isso foi demonstrado em um artigo publicado pelo Domenico Dalessandri, no European Journal of Orthodontics, em 2012, que relata que a curva de aprendizagem com o aparelho lingual autoligável é muito mais fácil e mais curta do que com a técnica padrão. E a capacidade prática do lingual autoligável afeta menos a gestão clínica.
 
Nóbrega – Você vê limitações ou contraindicações ao comparar a Ortodontia lingual e a labial?
Manzo – Vou ser bem honesto. A Ortodontia Lingual ainda é um pouco mais difícil do que a tradicional. Mas, não é um mistério, apenas mais desafiadora por causa do ponto de vista, por ser um lado invertido. No entanto, eu não vejo limitações e, se houver, são as mesmas de outros planos de tratamentos ortodônticos. Por exemplo, se o paciente tem problemas periodontais e não cuida ou apresenta inflamação, nós não tratamos com Ortodontia fixa ou lingual. Há alguns anos, quando eu ainda não me sentia muito confortável para aplicar o sistema lingual, tentava usá-lo apenas em casos moderados e leves. Agora, trato qualquer paciente, pois eu realmente acho que não há limitações – mesmo em casos de extração, paciente virgem de tratamento ou cirúrgico. Mas, se a pessoa, por algum motivo não quer usar o sistema lingual, eu também aceito. 
 
Nóbrega – Aqui no Brasil, como temos muitos pacientes adultos, é raro quando aparece um paciente virgem de tratamento. Como funciona na Itália, têm muitos retratamentos?
Manzo – Acho que a maior parte dos pacientes adultos de lá é composta por virgens de tratamento. Os retratamentos não são muito frequentes, e mesmo depois de fazer o plano de tratamento eles costumam solicitar um tempo para pensar sobre o assunto. Especialmente nesse ponto, o sistema lingual me ajuda muito porque já fiz retratamento em alguns pacientes em um curto espaço de tempo. Casos difíceis também podem ser resolvidos em um ano e meio. A maioria dos meus outros pacientes é de primeira viagem, provavelmente porque os pais não cuidaram antes ou eles eram mais jovens e não queriam cuidar, e agora têm dinheiro para buscar tratamento.
 
Nóbrega – Você tem alguma experiência e alguma consideração sobre a aceleração da movimentação dentária em adultos?
Manzo – Há alguns anos, comecei a ler artigos sobre os efeitos piezoelétricos na Ortodontia e sobre a frequência que pode ajudar a movimentação ortodôntica. Agora, fala-se muito sobre acelerar a movimentação ortodôntica, tanto que todo congresso tem pelo menos uma sessão sobre esse tema. Na verdade, acredito que a aceleração da movimentação é algo muito importante, pois, se falarmos de eficiência, ela está no centro desta questão. No entanto, tenho receio de enfatizar demais esse ponto. Quando falamos sobre a maneira de fazer isso, precisamos também pensar em uma forma razoável. Se queremos acelerar o tratamento e podemos ganhar um terço do tempo, é importante. Mas, sempre me pergunto: “Eu gostaria de tratar meus filhos com isso?”. A eficiência e a eficácia são muito importantes, no entanto, é essencial ter uma proporção para obter os benefícios.