Publicado em: 04/09/2017 às 10h09

O pesadelo frequente de Celestino Nóbrega

Em sua coluna, o ortodontista ainda relata as vantagens que a flexibilidade trouxe ao seu dia a dia.

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(Imagens: Wikipedia e Shutterstock)

 

Tenho tido pesadelos recorrentes e sempre iguais: um professor longilíneo e calvo trajando um avental comprido e muito branco entra em uma sala também toda branca. Caminhando lentamente, ele parece levar uma eternidade até chegar ao púlpito transparente bem no centro do anfiteatro. Na sala lotada por pessoas vestidas de um maldito branco impecável faz um calor infernal, e o nervosismo toma conta do ambiente. Ouço o palpitar de meu próprio coração, cujo ritmo aumenta gradualmente. 
 
Sobre o púlpito, um reluzente globo giratório prateado contém várias bolinhas brancas numeradas. Um segundo professor, de baixa estatura e aparência desleixada, usa um avental sujo com nódoas marrons. Ele gira convulsivamente a manivela. Sua face conta com um indefectível ar blasé: três giros da manivela no sentido horário e mais três no sentido anti-horário, seguindo a orientação expressa do professor alto, aquele calvo e longilíneo, cuja face revela o desdém de forma perfeita.
 
Começa o sorteio. Cai a primeira bolinha, que corre ruidosamente por um trilho sinuoso até chegar à enrugada mão direita do incólume professor titular. A atenção de todos se fecha em um close-up na boca do sorumbático mestre: um sorriso dissimulado precede a frase: “Número 6”, sussurra baixinho o alvo cramulhão com voz de barítono. O cheiro ocre de enxofre inunda a sala. Meu coração dispara! Eu sou o número 6: Celestino Nóbrega. Logo depois do número 5 (Cácio Bighetti) e antes do número 7 (Celso Paulo). Sim, eu estava revivendo a chamada oral de Bioestatística!
 
Aí eu acordo de súbito, suarento e com os cabelos desgrenhados. Minha esposa pergunta: “Aquele pesadelo de novo? Dorme aí, pô!”. Engraçado que o cheiro de enxofre continua no ar. Que alívio, era um sonho. Pode parecer coisa de escritor de crônicas, mas juro que acordei. E isso aconteceu há poucos dias, quando eu estava no Havaí para uma conferência e aproveitei para levar a esposa e o filho para uns dias de férias.
 

 

O grande desafio na época da graduação era mantermos o foco necessário para que aquelas noites de estudo fossem produtivas. Na verdade, o único objetivo era alcançarmos boas notas, mas vivíamos em uma efervescência mental sem precedentes. Impossível manter o foco. Não havia como fazer a conexão entre ganhar conhecimento básico e a preparação para o futuro.
 
Hoje, tenho plena consciência de que eu não tinha o mínimo de maturidade suficiente para frequentar as aulas de Bioestatística no segundo ano da faculdade, nos idos de 1982, quanto mais para entender os testes de distribuição do Qui-quadrado. Na época, eu e o Vítor Ribeiro (o desgraçado que, por algum motivo sobrenatural, nunca era sorteado para a chamada oral) até escrevemos o “rap quiquiéoqui” ao longo de uma das noites de estudo regadas à poção druída milagrosa composta, entre outros ingredientes secretos, de café solúvel e guaraná em pó. Hoje, talvez o “rap do quiquiéoqui” virasse letra de música sertaneja, do tipo “cucurrucucu, Paloma”.
 
Mais tarde, na praia, tentei decifrar o pesadelo. Esticadão nas areias de Poipu, na Ilha de Kauai, meus pensamentos absortos são repentinamente interrompidos pelo meu filho Pedro. Ele é um ótimo filho, e o mau humor dele logo quando acorda é algo digno até mesmo de admiração. O interessante é que ele não precisa se esforçar para esta árdua tarefa: como pode estar tão mal humorado em um lugar como este? Para o bem da humanidade, seu mau humor costuma passar rapidinho depois de tomar café da manhã.
 
Pedro faz parte desta tal geração que busca resultados imediatos para tudo. Se com 18 anos eu era um sinuoso “viajandão”, a geração do Pedro sabe muito bem o que quer. Aquela capacidade de foco que eu não tinha, eles têm de sobra e isso é ótimo. Por outro lado, percebo nitidamente que esta forma retilínea de pensar traz uma inflexibilidade que nos incomoda – a mim duplamente: como pai e como educador.
 
Conversando com Pedro na praia, tento, de maneira meio subliminar, explicar que a vida deveria ser como um tratamento ortodôntico. Cada fase de tratamento tem objetivos específicos que devem ser atingidos e, para que tenhamos resultados finais consistentes e duradouros, deve-se planejar tudo com antecedência. Porém, nem sempre as coisas ocorrem conforme planejamos.
 
Conversando com o grande professor Mário Cappellette, durante um dos congressos da Sociedade Paulista de Ortodontia (SPO), perguntei: “Do alto de sua vasta experiência de vida, qual conselho poderia me dar?”. Apenas um, assim de bate e pronto. Ele sabiamente me respondeu: “Saiba voltar atrás e reconhecer seus próprios erros o quanto antes”.
 
O fato de ter passado por algumas experiências positivas e negativas me trouxe uma flexibilidade que eu não tinha. Somente agora estou entendendo as benesses da flexibilidade.
 
Então, concluo que minha vida tem seguido um roteiro contrário, se comparada a um tratamento ortodôntico, onde a flexibilidade dos arcos iniciais deve ser gradualmente substituída pela rigidez dos arcos das etapas subsequentes.
 
Olha só, Pedro, na praia dá pra ver direitinho: as palmeiras mais velhas são as mais curvadas. Tomara que com você ocorra o contrário: flexibilidade já! Aloha.
 

 

 

 

Celestino Nóbrega


Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.