Publicado em: 04/09/2017 às 10h13

Os padrões estéticos aplicados na Ortodontia

Desde a antiguidade, a humanidade evoluiu sua compreensão acerca da beleza. E você, ortodontista, o que tem a ver com tudo isso?

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Busto da rainha egípcia Nefertiti (1.345 a.C.) e a idealização da beleza feminina na Antiguidade. (Imagens: Shutterstock)

 

Por Adilson Fuzo

Colaboraram: Bruno Gribel,
Liliana Maltagliati e Bráulio Paolucci*


O que é beleza? Responda se for capaz. A subjetividade do julgamento humano, provavelmente, é o maior inimigo daqueles que tentam encontrar uma resposta precisa, afinal, o gracioso e o grotesco dividem opiniões, dependendo de ponto de vista do observador.

Nos velhos tempos, a Odontologia ficava ainda limitada aos problemas funcionais da mastigação. Nos dias de hoje, no entanto, é difícil pensar em uma Odontologia em que o funcional e o estético não caminhem juntos. Ainda assim, as preocupações estéticas estão muito além da Ortodontia e de todo o universo da Odontologia. Trata-se de uma questão filosófica da humanidade. Portanto, para compreendê-la, ainda que superficialmente, é preciso fazer um breve mergulho histórico.


A beleza através dos tempos

O olhar conceitual sobre a beleza anda junto com o desenvolvimento da própria arte. Por isso, os antigos egípcios estão entre os primeiros a estudá-la, conforme descreve o livro “Estética facial – conceitos e diagnósticos clínicos” do ortodontista inglês Farhad B. Naini. “A famosa figura em pedra calcária pintada da rainha Nefertiti (1.350 a.C.), com suas proporções faciais harmoniosas e simetria, é um exemplo de como os egípcios imortalizaram a beleza de seus reis e rainhas retratando-os, talvez de modo não realista, com proporções faciais ‘ideais’. Os menos dignitários não eram tão honrados e tinham representações mais realistas na arte e na escultura”. Naini conta que os artistas egípcios possuíam sistemas precisos para calcular as proporções faciais, tanto nos desenhos como nas esculturas.

Os pensadores gregos da Antiguidade estão entre os primeiros a se depararem com a questão do belo. Pitágoras e seus discípulos, por exemplo, acreditavam que a matemática poderia traduzir a beleza, decodificada de forma fascinante na Razão Áurea. Sócrates mergulhou tão profundamente na questão que entendeu ser incapaz de definir o belo. Platão, por sua vez, trouxe os três primeiros conceitos para compreender a natureza do belo: proporção, harmonia e união.

O herói bíblico David,
de Michelangelo (1504).

Ainda que Platão tenha mantido o entendimento do belo totalmente preso ao seu mundo das ideias, como algo perfeito, bom e verdadeiro, inatingível para os humanos, ele deixou a porta aberta para que seus sucessores pudessem enxergar o belo no mundo material. Foi o que fez Aristóteles, seu discípulo, que incorporou mais uma palavra-chave que nos ajudou a compreender o belo: simetria, rompendo com a abstração e a subjetividade, abrindo caminho para a razão, o que nos leva de volta a Pitágoras.

Os artistas gregos e, depois, romanos incorporaram todas essas reflexões em suas obras, concretizando em pinturas e esculturas esses elementos. Os deuses eram retratados como jovens atletas, traçando o esboço da forma idealizada do homem, ainda que totalmente desconectada da realidade – alguma semelhança com a Odontologia atual?

Séculos depois, todos os elementos da cultura e da filosofia grega voltaram à tona no final da Idade Média e no Renascimento, influenciando profundamente toda uma geração de artistas e cientistas. Neste período, inúmeros trabalhos poderiam ser destacados, como: a sequência Fibonacci, do matemático Leonardo Fibonacci; a escultura de David, de Michelangelo, que se tornou um símbolo da idealização do corpo humano masculino; e os estudos anatômicos e de proporção de Leonardo Da Vinci, dos quais o “Homem Vitruviano” é o mais famoso deles.

Nos séculos seguintes, outros artistas investiram nos estudos de proporção e entendimento da beleza humana. Mas, a essa altura, os estudos metodológicos estavam cada vez mais consistentes. Assim, a arte foi sendo substituída pela ciência, mas a compreensão da beleza continua subjetiva e difícil de se tornar tangível.

 

Leonardo Da Vinci (dir.) fez diversos estudos acerca da proporcionalidade do corpo humano. O Homem Vitruviano foi apenas um deles, em referência ao arquiteto romano Vitrúvio.



E na Ortodontia?

“A Ortodontia é a única especialidade da Odontologia que tem a oportunidade de intervir na estética da face, do sorriso e dos dentes, desde a primeira infância. É a especialidade mais abrangente, pois trabalhamos com o crescimento dos maxilares, interrupção de hábitos, intercedemos no processo de desenvolvimento da oclusão, auxiliando nossos pacientes a apresentarem uma face agradável, um sorriso harmonioso e uma oclusão funcional e estética desde a infância até a idade adulta”, explica a ortodontista Liliana Maltagliati. “A Ortodontia tem o crucial papel de cuidar da beleza do sorriso desde muito cedo, e corrigir desvios em idades mais avançadas quando isso acontece. Cerca de 80% dos pacientes que procuram por tratamento ortodôntico o fazem por razões estéticas. Há muitos outros casos impossíveis de atingirem uma boa estética sem Ortodontia, como casos de grande apinhamentos e/ou inclinações dentais muito alteradas que impedem a simples reabilitação estética ou protética”.

O ortodontista Bruno Gribel lembra que a especialidade também tem um papel fundamental nas indicações para os casos de reabilitações estéticas. “A Ortodontia tem como essência avaliar aspectos faciais, como a estética do sorriso e dentária. A correção de problemas de alinhamento dos dentes deve ser feita antes da reabilitação estética, permitindo que os preparos sejam mais conservadores, o que favorece a longevidade dos tratamentos. A estética ideal não pode ser alcançada sem levar em consideração o alinhamento dos dentes e resultados mais funcionais e equilibrados. Guias de desoclusão corretamente balanceados são fundamentais para evitar o comprometimento prematuro dos trabalhos de restauração”.

Na proporção áurea de Pitágoras e os números da sequência Fibonacci, os matemáticos encontraram a fórmula da beleza e a tradução do universo.

 

Em uma visão mais ampla da Odontologia, a fronteira do bom-senso muitas vezes conduz a situações perigosas para o paciente. Por isso, a adoção de critérios claros é fundamental para a boa prática da profissão. “Às reabilitações orais estéticas não cabem modismos e diferenças culturais como orientação, pois, nesse caso, o que é belo hoje pode não ser considerado amanhã, e não é de bom-senso ficar trocando trabalhos odontológicos de tempos em tempos para estar de acordo com padrões fugazes”, analisa o implantodontista Bráulio Paolucci. “Muitas iatrogenias têm sido cometidas em nome da estética, e o preço disso ainda não foi precisamente calculado.”

 


Evolução tecnológica

O desenvolvimento de novas técnicas clínicas na Ortodontia e o aprimoramento dos materiais utilizados nos tratamentos estão aproximando os pacientes da especialidade, conforme explica o ortodontista Bruno Gribel. “A Ortodontia está cada dia mais alinhada com as expectativas dos pacientes, que buscam tratamentos mais estéticos e mais confortáveis. Os braquetes vestibulares estéticos ofereceram um ganho estético importante para muitos destes pacientes, porém, existe um nicho de mercado que é mais exigente e procura técnicas alternativas, como a Ortodontia Lingual e alinhadores transparentes, para solucionar os problemas ortodônticos. A evolução das técnicas e materiais está tornando a Ortodontia cada dia mais atraente para os pacientes que até pouco tempo não cogitariam usar aparelhos fixos metálicos”.

Liliana destaca também a importância da evolução do diagnóstico nesse processo. “O que mais impulsionou a Ortodontia no campo da estética nas últimas décadas foi o aprimoramento do diagnóstico, a visão mais holística do paciente, analisando face e sorriso, e não simplesmente a oclusão ou os modelos de gesso e a cefalometria”, explica a professora. “A mudança de paradigmas e a estética sendo colocada no mesmo patamar de importância da função é o que fez a diferença”.

Antes vistas como o futuro da Odontologia, as ferramentas digitais já são usadas rotineiramente em muitas clínicas. Para Gribel, tais recursos estão sendo fundamentais para a evolução dos tratamentos estéticos. “O diagnóstico e o planejamento digital permitem visualizar com maior riqueza de detalhes os desvios da normalidade e corrigi-los virtualmente. A partir de um planejamento preciso, podemos ter melhores decisões e definir qual a melhor técnica para tratamentos mais rápidos, eficientes e confortáveis”, conclui.

 

* Colaboração:

Bruno Gribel
Especialista e mestre em Ortodontia – PUC-Minas; Pós-doc – Universidade de Michigan (2006/2007); Diretor – Compass 3D.

Liliana Maltagliati
Mestra e doutora em Ortodontia – FOB/USP; Autora do livro “Sistema autoligado – teoria e prática”.

Bráulio Paolucci
Especialista em Implantodontia – Unilavras; Master em Implantologia e Reabilitação Oral – Universidade de Paris; Autor do livro “Visagismo: a arte de personalizar o desenho do sorriso”.