Publicado em: 13/10/2017 às 11h30

Espaço interoclusal reduzido: o que fazer?

Marco Bianchini debate mais um caso clínico que representa a rotina diária dos consultórios.

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Um dos problemas bastante frequentes, não somente na Implantodontia, mas na Odontologia como um todo, é quando temos um espaço interoclusal reduzido para reabilitarmos. Isto pode ocorrer tanto em próteses unitárias quanto em próteses múltiplas e totais (protocolos), sejam elas sobre dentes ou implantes, fixas ou removíveis. Até aqui, nada de novo. As relações interoclusais e intermaxilares, como a máxima intercuspidação habitual e a relação cêntrica, vêm sendo estudadas desde o século passado e norteiam os nossos planejamentos reabilitadores.

O grande problema é que nós, dentistas, muitas vezes subestimamos todos estes conceitos e acabamos instalando os implantes antes mesmo de nos darmos conta de que não há espaço protético suficiente. São erros, às vezes grotescos, que cometemos no nosso dia a dia e que podem acarretar problemas, criando dificuldades imensas na hora de se realizar a coroa final. Para ilustrar estas constatações, iremos apresentar aqui um caso clínico de reabilitação unitária sobre implante, no qual tivemos que reabilitar o paciente com espaço interoclusal reduzido.

Figura 1 – Corte panorâmico de tomografia volumétrica cone-bean. Observar que nas regiões do 14 e do 26 temos uma redução do espaço interoclusal, devido à extrusão dos elementos antagonistas. Esta redução está mais acentuada na área do 26.

 

Seria ideal que situações como essa fossem precedidas por uma avaliação clínica em relação cêntrica, montagem em articulador semiajustável e ajuste oclusal prévio para, assim, identificar uma oclusão ideal de trabalho, sendo possível recuperar o espaço funcional livre perdido. Infelizmente, nós acabamos deixando de realizar estes procedimentos básicos e colocamos os implantes antes de ajustarmos o caso. Foi exatamente isso que ocorreu neste paciente. Foi colocado um implante hexágono externo cônico de 3,5 de diâmetro na região do 14, que acabou gerando uma dificuldade na confecção da prótese final.

 

Figura 2 – Superior: paciente em máxima intercuspidação habitual – relação de topo a topo. Central: relação cêntrica. Inferior: oclusão depois do ajuste oclusal.

 

Como falamos anteriormente, o caso deveria ter sido ajustado antes de se realizar a cirurgia de colocação do implante. Outro equívoco foi a plataforma hexágono externo que, ao ser instalada no nível ósseo, limita o ganho de altura protética. Se tivéssemos utilizado uma plataforma cone-morse, poderíamos ter colocado o implante em uma posição mais intraóssea, o que nos faria ganhar mais alguns milímetros de espaço protético.

 

Figura 3 – Vista clínica e radiológica da prótese Ucla no elemento 14 sobre hexágono, externo depois de um ano em função.

 

O planejamento reverso dos casos sempre deve ser realizado, isso certamente evita problemas como este descrito hoje. Entretanto, quando os erros acontecem, temos que ter soluções para evitar procedimentos mais radicais, como a remoção de implantes. O uso de componentes protéticos diferenciados, como as Uclas, pode ajudar muito, embora não restabeleçam uma situação ideal. Trata-se da rotina clínica diária de uma realidade palpável e que acontece em nossos consultórios. Está longe da realidade virtual apresentada por muitos apenas em palestras.
 

E não ensinará mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: “conhecei ao Senhor; pois todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles”, diz o Senhor. “Porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados”. (Jeremias 31:3)4

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 

Colaboraram:

Dra. Karin Apaza Bedoya – Doutoranda em Implantodontia – UFSC.

Dra. Mariane Sordi – Doutoranda em Implantodontia – UFSC.

Dra. Madalena Lucia Pinheiro Dias Engler.