Publicado em: 26/10/2017 às 16h06

Transdisciplinar e contemporâneo: o novo sempre vem

Alberto Consolaro e Maurício Cardoso debatem a importância do profissional da Ortodontia estar aberto ao novo, sem rejeitá-lo de pronto.

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Coordenação: Maurício Cardoso
 


Durante uma conversa informal com o Prof. Alberto Consolaro, eu percebi que deveria gravá-la e prestar muita atenção: ele descrevia uma maneira um pouco diferente de ver o mundo – pelo menos entre aquelas que eu estava acostumado. Ele falava sobre como encarar as novas gerações e abordagens de forma transdisciplinar e contemporânea ao mesmo tempo, estávamos comentando sobre a Ortodontia e Ortopedia no mundo atual. Depois que comuniquei a gravação, perguntei se ele poderia organizar as informações para transmitir aos leitores da OrtodontiaSPO. Veja, a seguir, o conteúdo preparado pelo Prof. Consolaro, resultado dessa rica conversa.

 
A Ortodontia, assim como todas as especialidades, tinha muros e limites – o tempo verbal no passado está correto. Na interpretação mais profunda, muros e limites podem estar ligados a medos do novo e do desconhecido. Dizia-se que o mundo era multidisciplinar, mas com várias áreas de conhecimento e atuação prática com “cada um no seu quadrado” (Figura 1). As evoluções de cada especialidade ou área do conhecimento aconteciam lentamente e dentro dos seus domínios.

Figura 1 – As atividades multidisciplinares funcionam como um quebracabeças, em que as partes se encaixam e se complementam, mas deixam suas marcas delimitadoras comprometendo o conjunto da obra.


Ao longo das últimas três décadas, o conhecimento, a tecnologia e o modo de viver foram se modificando velozmente e houve necessidade de novos muros e limites, então, foi se ampliando o conhecimento de cada área. A atividade humana, a Ciência e a Odontologia eram multidisciplinares, no entanto, os muros e limites atrapalhavam porque tinham que ser derrubados e refeitos a todo momento, pois o processo estava cada vez mais rápido.


De multidisciplinar para o interdisciplinar

O consenso social é invisível e estabelecido em grande parte dos casos sem explicitude. O grupo social vai se adaptando e assumindo silenciosamente novas posturas e formas de encarar os processos. Desta maneira, percebeu-se que, para não derrubar os muros repentinamente e não precisar refazê-los a todo momento, deveríamos resistir ao novo de forma inteligente.

Dessa forma consensual e silenciosa, ficou decidido no subconsciente que, em cada área cercada por muros e limites, as portas ficariam abertas para que especialistas, estudiosos e pesquisadores pudessem entrar e sair usufruindo-se do que cada um poderia oferecer (Figura 2).

Foi uma época em que a Ciência e a Odontologia passaram a ser interdisciplinares. Embora os especialistas conversassem entre si e as pesquisas fossem realizadas com vários tipos de colaboração, ainda existia um muro.
 

Figura 2 – Atividades interdisciplinares promovem melhor integração entre as partes e menor possibilidade de deixar marcas delimitadoras no conjunto da obra.


De interdisciplinar para o transdisciplinar

Mas, muros e limites não resistem, e eles caíram com a velocidade da tecnologia e da ciência, a partir de novos conhecimentos. Estabeleceu-se o consenso de que, sem muros e limites, cada um poderia transitar livremente por todas as áreas, sem autorização, sem pedir licença, apenas mostrando competências e habilidades. Muros e limites atrasam processos, dificultam o progresso e atrapalham os mais competentes, rápidos e inteligentes.

Os trabalhos, livros, planejamentos, tratamentos e as mais variadas abordagens práticas e intelectuais passaram a conter conhecimentos de forma integrada. Antes não era possível, pois muros e limites determinavam controles e formalidades que nada adiantam para o progresso. A Ciência, o mundo e a Odontologia passaram a ser transdisciplinares – sem muros, sem limites e totalmente integrados (Figura 3).
 

Figura 3 – Na atividade transdisciplinar, o indivíduo ou o grupo atua integrando as partes sem possibilidade de marcas no conjunto da obra. O conhecimento é aplicado em um conjunto harmonioso, e o tempo sugere ser simultâneo (mesmo que seja feito por um único indivíduo ou grupo).

 

A música “Como nossos pais”, do compositor Belchior, diz que o novo sempre vem: “Mas, é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”. No entanto, ainda as pessoas de pensamento e mentalidade mais antigas – não necessariamente as mais velhas de idade – têm dificuldade de viver no mundo transdisciplinar.

E como podemos saber se um curso é transdisciplinar, por exemplo? É fácil. Se um curso de especialização tem disciplinas e métodos iguais há dez anos, sem nada de novo incorporado, é porque está repetindo visões e técnicas antigas. Um curso tem que mudar o conteúdo teórico e prático a cada turma, incorporando o novo em um processo contínuo de agregação.

Se as novas práticas começam a ser oferecidas em cursos paralelos e específicos, e o seu conteúdo não é integrado aos de especialização, é porque não existe transdisciplinaridade entre as variantes de técnicas e pensamentos, tampouco entre o velho e o novo.


Contemporâneo versus moderno

A Odontologia contemporânea de vanguarda, assim como a ciência e o conhecimento atual, é transdisciplinar. A Ortodontia deve atuar junto – sem limites ou muros – com a Estética Facial e Dentária, Endodontia, Cirurgia, Periodontia e Reabilitação Bucal: ela deve fazer parte naturalmente do planejamento dos casos clínicos. O paciente deve ser premiado por um planejamento transdisciplinar, ou seja, um planejamento único.

Ser transdisciplinar é ser contemporâneo, é exercer a vanguarda. E qual a diferença com o moderno? No caso da Ortodontia e da Ortopedia, para um curso ser contemporâneo, deve incorporar as mecânicas com miniplacas, braquetes autoligáveis, dispositivos de ancoragem temporários (DATs), cirurgias ortognáticas e formas de tratamento de todas as faixas etárias de pacientes. Na Ortodontia interdisciplinar e contemporânea, incluem-se as novas formas imaginológicas de diagnóstico e planejamento, como tomografias e imagens em 3D, até para considerar a avaliação da morfologia e correções necessárias da ATM (Figuras 4 e 5).

Figura 4 – Na representação da ideia de “moderno”, a estética e os limites prevalecem, delimitando objetos, condutas e processos.



Ao finalizar casos clínicos ortodônticos, deve-se devolver por completo a estética facial e dentária com plena função no mais elevado nível de exigência profissional.

O Modernismo foi um movimento cultural, intelectual e estético do século passado que perdurou até meados da década de 1970, portanto, ser moderno é fazer parte deste movimento ou pensamento (Figuras 4 e 5). Quase podemos afirmar que ser moderno é ser antigo. Então, parece mais correto falar que somos atualizados ou somos contemporâneos. Usar o termo moderno não está completamente errado, mas não é minuciosamente preciso do ponto de vista cultural e científico, até porque virou clichê.

Figura 5 – No pensamento contemporâneo, o novo e a vanguarda prevalecem sobre a estética e os limites, desconectando-se das regras estabelecidas previamente. Vale a integração plena e a atualidade.

 

Consideração final

Terminada a conversa e textualizado este pensamento do professor Consolaro, eu refleti muito sobre os caminhos percorridos e os novos rumos da Ortodontia e da Ortopedia, sobre os cursos e outras maneiras de formação e atualização dos profissionais. Também pensei sobre as perspectivas profissionais para as próximas décadas e concluí: devemos estar abertos ao novo e acolhê-lo para depois refletir sobre sua importância, aplicabilidade e incorporação, sem rejeitá-lo de pronto.

 

 

 
   

Coordenação:

Maurício Cardoso

Mestre e doutor em Ortodontia pela Unesp Araçatuba; Coordenador do curso de especialização em Ortodontia da SPO, São Paulo (SP); Professor dos programas de mestrado e doutorado da SLMandic, Campinas (SP).

 

 

 
   


 Alberto Consolaro

Professor titular da graduação na FOB/USP; Professor titular da pós-graduação na Forp/USP.