Publicado em: 26/10/2017 às 16h10

Todo movimento começa na ancoragem

Com a evolução da Ortodontia, a ancoragem absoluta ampliou o leque de movimentos e tratamentos. Será que o controle metabólico dos tecidos definirá os próximos passos?

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(Imagens: Shutterstock)

 

Por Adilson Fuzo

 


“A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade”. A beleza e a simplicidade da terceira lei de Isaac Newton são a síntese do desafio diário de um ortodontista na busca pela ancoragem ideal a cada paciente atendido.

A discussão em torno das opções de ancoragem é tão antiga quanto a própria Ortodontia. O tema está em debate desde 1907, quando Edward Hartley Angle estabeleceu suas definições clássicas da ancoragem (simples, estacionária, recíproca, intermaxilar e occipital).

Em 1687, Isaac Newton descreveu
as leis que fundamentaram
a mecânica clássica.

A mecânica ortodôntica evoluiu significativamente ao longo do século 20, mas as opções tradicionais de ancoragem apresentavam algumas limitações, por demandar maior colaboração do paciente ou resultar em mais movimentos indesejados nos elementos passivos. Diversos dispositivos intrabucais e extrabucais foram criados com essa finalidade, utilizando apoio em dentes, músculos e osso. Entre os mais utilizados estão o aparelho extrabucal, a barra transpalatina, o botão de Nance, o arco lingual e os elásticos intermaxilares.

A variedade de dispositivos oferece muito mais possibilidades para o profissional fazer o seu planejamento. No entanto, também exige que uma série de aspectos seja observada. O sentido e a intensidade da força que será aplicada no movimento que se pretende realizar, por exemplo, devem ser compatíveis com a estabilidade do elemento dentário utilizado como ponto de apoio, bem como o número de raízes e seus níveis de inserção. Além disso, dependendo do dispositivo escolhido e dos pontos de apoio envolvidos, deve-se observar o reflexo do movimento no tecido periodontal, bem como as forças oclusais atuantes.


 

Sucesso absoluto

Além de revolucionar a
Implantodontia, a Osseointegração
de P-I Brånemark também contribuiu
para os mini-implantes da
Ortodontia. (Imagem: arquivo)

Na virada do século, com a popularização dos mini-implantes e das miniplacas ortodônticas, a especialidade expandiu o seu arsenal de possibilidades terapêuticas. Esses dispositivos deram um novo sentido para a ancoragem absoluta, permitindo diferentes mecânicas que eram impossíveis de se realizar com a ancoragem tradicional. Além disso, eles permitem a aplicação de forças mais intensas e evitam movimentos recíprocos indesejados.

Os mini-implantes são bastante versáteis e sua fixação é relativamente simples, por serem autoperfurantes e autorrosqueantes. As miniplacas, por sua vez, exigem um pequeno procedimento cirúrgico, tanto no momento de colocação do dispositivo quanto na retirada. A vantagem da miniplaca sobre o mini-implante é a sua capacidade de suportar forças de maior magnitude, embora o custo do tratamento acabe ficando um pouco maior por conta da cirurgia.

Do ponto de vista histórico, é importante destacar que o primeiro relato do uso de parafusos metálicos como forma de ancoragem ortodôntica data de 1945, com um estudo experimental em cães de Gainsforth e Higley, utilizando parafusos confeccionados em vitálio. Tentativas semelhantes foram feitas em 1978, com Sherman, e em 1980, com Oliver et al, desta vez utilizando carbono vítreo como matéria-prima.

O primeiro caso clínico em humanos foi descrito por Creekmore e Eklund, em 1983. Eles utilizaram um parafuso cirúrgico de vitálio na região da espinha nasal anterior para intruir os incisivos superiores. Nos anos 1990, a atual configuração do mini-implante que conhecemos hoje foi tomando forma. Bousquets et al (1996) utilizaram miniparafusos confeccionados a partir de uma liga de titânio. Kanomi (1997) e Costa, Raffaini e Melsen (1998) definiram os primeiros elementos de design para que o parafuso fosse utilizado na Ortodontia.

Outro aspecto histórico fundamental para que a ancoragem esquelética com mini-implantes e miniplacas fosse possível foi a descoberta da Osseointegração pelo ortopedista sueco Per Ingvar Brånemark. O fenômeno que envolve a multiplicação de células ósseas integradas à estrutura do titânio foi observado pela primeira vez em 1956 e fartamente estudado a partir da década de 1960.

O objetivo principal do trabalho de Brånemark era o desenvolvimento de implantes orais para fixação de próteses dentárias, mas havia uma grande resistência por parte da comunidade odontológica em aceitar a novidade. Isso retardou a divulgação da Osseointegração até 1983, quando a descoberta foi anunciada e propagada internacionalmente.A partir da década de 1990, o titânio passou a ser usado também nos mini-implantes. No entanto, como o dispositivo ortodôntico precisa ser retirado posteriormente, sua composição é de uma liga de titânio diferente da usada nos implantes que sustentam as próteses dentárias.

 

O controle da movimentação dentária através do estímulo ou inibição das reações metabólicas pode ser o próximo passo da especialidade.


Controle metabólico

No princípio da Ortodontia, os pesquisadores pioneiros buscavam compreender como as leis da física poderiam ser aplicadas para corrigir a oclusão dos pacientes. Nos anos seguintes, com o amadurecimento da especialidade, houve um aprofundamento no entendimento das estruturas biológicas e do metabolismo do tecido ósseo.

Atualmente, a fronteira das pesquisas está na procura por mecanismos que ajudem o profissional a controlar a ação de remodelagem dos tecidos. Na prática, isso significa inibir ou estimular temporariamente as reações metabólicas que resultarão na movimentação dentária.

A maior parte dos estudos ainda é feita em animais, mas a ação de alguns medicamentos já é conhecida, ainda que superficialmente: os anti-inflamatórios e os bifosfonatos, por exemplo, entre os inibidores; e os eicosanoides, corticoides, paratormônio e vitamina D entre os favoráveis à movimentação dentária. Outros estímulos químicos para aceleração da movimentação também estão em estudo, como o Epidermal Growth Factor – liposome (EGF), o hormônio de paratireoide (PTH), a interleucina (IL), a prostaglandina (PGE) e o oxigênio hiperbárico (HBO). Vale ressaltar que todas essas pesquisas ainda estão em fase experimental.

Nesse sentido, um equipamento que pode ganhar mais espaço no tratamento ortodôntico é o laser de baixa intensidade. Suas propriedades bioestimuladoras supostamente promovem o aumento na diferenciação de osteoclastos e osteoblastos nas regiões de movimentação dentária. O dispositivo ainda tem a vantagem de permitir a aplicação da radiação em áreas isoladas, conferindo mais controle ao ortodontista das áreas que ele deseja acelerar ou retardar o metabolismo.

Por fim, entre as técnicas de aceleração de movimento que despontam nas pesquisas atuais, podemos citar também as corticotomias e os estímulos vibratórios, ambos com bom potencial. Diante de tantas perspectivas, o controle metabólico pode mesmo ser o próximo passo da evolução da especialidade. No entanto, pelo menos até agora, nenhuma novidade chegou perto de revogar a terceira lei de Newton. Portanto, a discussão em torno da ancoragem ainda vai permanecer na ordem do dia por muito tempo.