Publicado em: 01/12/2017 às 13h12

Dentistas do outro lado do balcão

Marco Bianchini relata experiência vivida em seu consultório, que o fez refletir sobre a relação entre professor, dentista e paciente.

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Nesta semana, tive o prazer de atender uma ex-professora minha da época da graduação em Odontologia na UFSC. Já se vão 26 anos de formado. Não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Mas, mesmo assim, sempre que isso ocorre, eu tenho aquela estranha sensação de ter passado para o outro lado do balcão (e passei mesmo!). Atender antigos professores, sejam eles da graduação, ensino médio ou ensino fundamental, sempre aumenta a nossa responsabilidade. Ao mesmo tempo, nos dá um prazer incrível, principalmente quando os tratamentos vão dando certo.

O fato curioso deste caso é que ela era minha professora de Prótese, e foi com ela que aprendi a fazer próteses fixas e removíveis, tratamentos que diminuíram bastante a sua estatística de realização após o advento dos implantes osseointegrados. Curiosamente, foram implantes que eu coloquei nela e, graças a Deus, tive o prazer de reabri-los, comprovando a sua osseointegração, além de uma excelente posição intraóssea, em se tratando de implantes cone-morse. As figuras 1 e 2 mostram as radiografias periapicais após oito meses da colocação dos implantes.
 

Figuras 1 e 2: radiografias periapicais de quatro implantes cone-morse colocados na região posterior de maxila. Observar que na região dos elementos 16 e 25 foram feitos levantamentos atraumáticos dos seios maxilares. Observar também a boa posição intraóssea dos implantes, principalmente os elementos 15 e 24.

 

Deixando um pouco a técnica e a parte odontológica mais específica de lado, o que me interessa escrever aqui, hoje, é abordar o aspecto filosófico dos nossos atendimentos e da nossa vida como dentistas. Quando estamos na graduação, a ansiedade nos atormenta. Queremos, a todo custo, trabalhar como dentistas formados. Uma vez abertos os nossos consultórios e iniciadas nossas vidas de profissionais liberais, a vida parece passar mais rápido. O tempo parece ser diferente depois de adentrarmos nossos consultórios ou clínicas. Enquanto aqueles quatro ou cinco anos da graduação pareceram durar uma eternidade, 20 anos de formado parecem ser um sopro ou uma nuvem que passou.

A sensação que me passa quando estou atendendo àqueles que foram meus mestres – e com quem aprendi muita coisa – e agora estão na minha cadeira, é um misto de orgulho e nostalgia. Ao mesmo tempo em que o ego se infla por receber tamanha confiança, também vem a sensação de que a vida passa aceleradamente e que, rapidamente, estamos passando para o outro lado do balcão. De alunos, viramos professores, e de dentistas, viramos pacientes. Logo ali, na corrida da vida, algum aluno meu estará me atendendo. O ciclo do conhecimento se renova e a posição dos protagonistas vai se invertendo. Nada mais natural, mas também, de certa forma, preocupante. Será que estamos nos preparando para isso?

Figura 3: eu e a minha querida professora de Prótese, Dra. Denise Mendes de Figueiredo, que continua sempre muito alegre e ativa, transmitindo não apenas conhecimentos odontológicos, mas também educando para a vida, exatamente como fazia na minha época da graduação.

 

Penso que não há como fugir dessa sequência natural dos eventos que nos cercam. É a ordem natural da vida. O melhor é curtir cada momento desses, como se fossem prêmios pelo nosso trabalho e dedicação. Felizes aqueles que podem desfrutar desses acontecimentos. Contudo, devemos estar preparados para a troca de posições, que logo enfrentaremos em nossas vidas profissionais. Rapidamente, as coisas vão mudando e, de grandes protagonistas, vamos nos tornando coadjuvantes. Sem perder, contudo, a ternura e a compreensão com que vamos cumprindo o nosso papel, de preferência de acordo com o projeto daquele que nos criou.

 

“ Senhor, que é o homem, para que o conheças, e o filho do homem, para que o estimes? O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa."  (Salmos 144, 3-4)

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br