Publicado em: 06/12/2017 às 09h23

Bonsai com molho shoyo

Celestino Nóbrega conta a história de uma pequenina árvore que cruzou o mundo para ter um final inesperado.

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O bonsai vindo do Japão teve um final inusitado. (Imagem: Shutterstock)

 

Luís Fernando era um cara incrível. Teve uma passagem rápida e feliz por esta vida, e talvez por este motivo a tenha levado como se tivesse vindo ao mundo de férias. Foi um grande pneumologista, não por acaso. Era neto de um famoso médico fundador do Sanatório Vicentina Aranha para tratamento de tuberculosos, que alavancou o desenvolvimento de São José dos Campos (SP) na primeira metade do século passado. O lado perverso da história é que aquela pacata cidadezinha do Vale do Paraíba não teria a menor perspectiva de desenvolvimento, caso a cura da tuberculose ocorresse.

O comércio local era, portanto, extremamente dependente do potencial de sobrevivência e multiplicação de uma determinada cepa de bactérias causadoras do mal que tantos temiam. Uma das frases mais interessantes proferidas por Napoleão Bonaparte, o temido e implacável conquistador, se fez ecoar por muitos e muitos anos: “prefiro enfrentar um exército pela frente de que um vento gelado nas costas”.

O maldito bacilo só veio a ser identificado em 1882, por Robert Koch. Este pesquisador recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1905, mas, por não acreditar que as tuberculoses bovina e humana fossem similares, o leite infectado continuou a disseminar a doença mundo afora. Mais tarde, Louis Pasteur resolveu o problema: mas, outras formas de disseminação continuavam a fazer vítimas.

Enquanto em 1906 o ego e a arrogância dos pesquisadores internacionais criavam uma guerra contra a recém-desenvolvida vacina BCG, vidas eram ceifadas, famílias desmoronadas e o medo imperava. Assim, os bacilos se multiplicavam e os comerciantes da bucólica São José dos Campos continuavam a prosperar. O que seria da cidadezinha caso a cura viesse a ser descoberta?

O antibiótico estreptomicina foi desenvolvido somente em 1946. Muitas vidas foram salvas desde então, e a cidade de São José dos Campos prosperou graças à industrialização que hoje a representa como um grande polo tecnológico. O antibiótico venceu não somente a doença, mas também o pensamento negativo daqueles que, de forma mórbida, relacionavam o desenvolvimento da cidade à prevalência da doença.

O pneumologista Luís Fernando era o rei do anticlímax. Colecionou histórias e passagens como ninguém. Como eu sabia que ele era um verdadeiro para-raios de histórias interessantes, colei nele assim que o conheci. Se algo interessante fosse casualmente acontecer com alguém, ele de certa forma estaria envolvido. Ele tinha o poder de aglutinar ao seu redor gente muito divertida e interessante. Tínhamos um amigo em comum, o Xandão-Momentos.

Não vem ao caso a revelação exata do nome dele, mas o apelido era muito apropriado, pois ele tem “momentos” de completa insanidade. Uma vez o Xandão foi confundido com o Biafra em Ubatuba (litoral de São Paulo). Segundo Luís Fernando, o episódio ocorreu porque ambos têm cara de fuinha, sendo que como agravante o Xandão costuma rir ruidosamente como tal. Xandão-Momentos é um exímio cirurgião especializado em procedimentos complexos e delicados, mas que por algum motivo sobrenatural nunca conseguiu tirar carteira de habilitação de motorista. O cara é um daqueles amigos que faz umas besteiras homéricas de forma natural e espontânea, achando que tudo está normal, ou seja, um “sem noção”.
 
Íamos sempre os três jantar em uma birosca em Tremembé, cidade próxima a São José dos Campos. Éramos habitués e tínhamos tratamento VIP. Assim que chegávamos, já estavam servidas as cervejas canela de pedreiro do Luís Fernando, o conhaque Macieira do Xandão-Momentos e a minha groselha Milani com água mineral Prata com gás. 

O dono era o Shishito, um japonês daqueles que fumam feito uma chaminé. Ele amava seus gatos, os quais tinham livre permissão para perambular sinuosamente por todos os recônditos grudentos do bar, sendo que o Luís Fernando os conhecia melhor do que o japonês, pelo nome e pela cor da pelagem. Em uma ocasião, como era de costume, Luís Fernando fez a chamada e o Sutiã (esse era o nome do gato branco) não apareceu. Naquela noite houve uma recomendação expressa para que ninguém comesse croquetes.

Havia um campeonato de porrinha de expressão internacional que ocorria uma vez por mês no bar do Japa – internacional porque participavam o próprio japonês, o Elias libanês, o Sr. Leandro Italiano, o Cará (que ninguém sabia o nome nem a nacionalidade) e alguns representantes da pátria amada. A premiação era interessante: o primeiro lugar ganhava o direito de não precisar comer os miúdos (verdes) de frango com farofa. Os miúdos me lembravam de um filme que assisti na Sessão da Tarde: “As criaturas da areia”. Acho que eram verdes porque eram cuidadosa e vagarosamente maturados por muito tempo, expostos fora da geladeira naquelas condições ambientais que compunham o ecossistema do bar do japonês.

Passei na casa do Luís Fernando para irmos ao bar do Shishito. O Xandão tinha uma cirurgia até um pouco mais tarde e ficou de nos encontrar lá. Chegamos por volta das sete da noite e, como de costume, o japonês já estava bêbado, mas desta vez especialmente feliz. Seu avô acabara de chegar do Japão para a primeira visita à terra brasilis. Direto de Nagano, terra dos honoráveis e milenares artesãos da madeira, para Tremembé, cidade conhecida pelo consultório psiquiátrico do Dr. Elias (sim, aquele mesmo do campeonato de porrinha).

O avô do Shishito trouxe do Japão como presente um preciosíssimo e autêntico bonsai, que estava sendo cuidadosamente cultivado há alguns séculos por sua família. Aquela frágil e pequenina árvore simbolizava a extrema força da grande mãe natureza, realçada pelo detalhamento de suas raízes cuidadosamente direcionadas por séculos e séculos. As pequeninas frutinhas amarelas luziam como ricas pepitas de ouro realçadas pelas folhinhas de um verde vivo, e o rígido tronco retilíneo simbolizava o comportamento sempre exemplar do povo nipônico.

Naquela noite, o cardápio foi especial. Nada de torresmos cabeludos, miúdos verdes, nem mesmo o tradicional filé mignon à moda 007 (frio e com nervos de aço). Teve sushi feito pelo avô do Shishito.

A mesa foi ricamente adornada segundo os tradicionais preceitos da culinária nipônica. A simetria do arranjo era de dar inveja a qualquer ortodontista. No centro da mesa, em posição de destaque, o bonsai do avô do Shishito. Rolava a primeira rodada de sushis de sardinha em lata, sashimi de tilápia do Rio Paraíba e tempurás de inhame do quintal do japonês, tudo regado a saquê, quando chega de forma rompante o Xandão-Momentos.

Sentou-se e rapidamente, sem pestanejar, depenou as indefesas folhinhas e as frutinhas frágeis do bonsai e as imergiu no molho shoyo, mastigando tudo ruidosamente como uma fuinha. Nem mesmo um ninja teria tempo de detê-lo. O avô do Shishito voltou para o Japão no dia seguinte e nunca mais falou com ele – nem com mais ninguém. Ficou mudo.

Infelizmente, o Luís Fernando partiu muito cedo e, certamente, hoje vive histórias incríveis onde quer que esteja. O Shishito “largou mão do álcool”, pois certa manhã, ao se olhar no espelho, notou que de tanta cachaça já estava com a língua branca. Por ironia do destino ou não, tornou-se um grande escultor em madeira, hoje de renome mundial.

O Cará também parou de beber e hoje é atleta maratonista, campeão na categoria sênior. E eu continuo viciado em groselha, agora com água Perrier. E o mais incrível é que alguns nomes (não todos) aqui descritos foram trocados, mas a história é real. Acredite se quiser.


 

 

Celestino Nóbrega


Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.