Publicado em: 23/01/2018 às 09h50

Socket shield: existem evidências de segurança e previsibilidade?

Jamil Shibli debate a técnica para manutenção alveolar denominada socket shield ou escudo alveolar.

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*Colaboraram Marcelo Faveri, 
Renato G. Viana e Muryel Bortot


Uma enxurrada de informações provenientes de artigos científicos e outras fontes não tão científicas tem evidenciado o uso, até mais que rotineiro, da técnica para manutenção alveolar denominada socket shield ou escudo alveolar. Recentes estudos clínicos e pré-clínicos têm sugerido essa técnica, na qual é realizada a manutenção intencional do fragmento radicular na porção vestibular do alvéolo, associada à inserção imediata do implante, com o intuito de favorecer a conservação do volume de tecidos, tanto duros quanto moles, na região estética.

A socket shield pressupõe que o tecido ósseo da região vestibular do alvéolo seja mantido pelo periodonto e pela sua vascularização, evitando o colapso ósseo e tecidual frequentemente associado após a exodontia dental. O procedimento remove grande parte da raiz com o auxílio de instrumentos rotatórios e periótomos, e mantém um fragmento da raiz na porção vestibular ou proximal do alvéolo. A espessura do fragmento radicular não deverá impedir ou dificultar a inserção do implante ou ainda o assentamento passivo do pilar protético. Essa redução da espessura dos fragmentos dentais pode ser realizada com fresas esféricas ou ainda tronco-cônicas, mantendo uma altura cervical baseada no posicionamento crestal ou infracrestal do implante (implantes cone-morse de platform switching).

Outro ponto importante é a remoção de todo e qualquer tecido mole presente na porção periapical ou ainda lesões de tecido mole adjacente ao fragmento que será mantido (Figuras 1). Após o posicionamento da cervical do implante ao mesmo nível do fragmento dental, enxertos ósseos (quando necessários) devem ser utilizados para o preenchimento do espaço remanescente entre o alvéolo, o fragmento dental e o implante.
 

Figura 1 – A. Aspecto oclusal da raiz. 

 

Figura 1 – B. Avaliação da profundidade de sondagem. 

 

Figura 1 – C. Utilização da fresa cirúrgica para secção da raiz.

 

Figura 1 – D. Início da ressecção vertical radicular. D. Após secção. 

 

Figura 1 – E. Utilização do periótomo para remoção dos fragmentos e manutenção do vestibular. 

 

Figura 1 – F. Utilização do periótomo para remoção dos fragmentos e manutenção do vestibular. 

 

Figura 1 – G. Manutenção de um fino fragmento radicular. 

 

Figura 1 – H. Broca diamantada esférica para redução da altura radicular. 

 

Figura 1 – I. Após redução de altura. 

 

Figura 1 – J. Broca esférica para posicionamento da porção mais crestal na altura crestal do futuro implante. 

 

Figura 1 – K. Após fresagem, pino-guia indicando posicionamento do implante. 

 

Figura 1 – L. Posicionamento do implante próximo ao fragmento radicular. 

 

Figura 1 – M. Instalação do pilar para provisório. 

 

Figura 1 – N. Provisório instalado.

 

Embora muito interessante, ainda é preciso evitar essa técnica em regiões com maior demanda mastigatória, como molares e caninos. Também é preciso mais estudos prospectivos e longitudinais; de efeito em regiões de dentes tratados endodonticamente; sobre as dimensões ideais do fragmento dental; sobre o efeito clínico; e sobre sua manutenção do contato íntimo (ou mesmo contato direto) entre o implante e a raiz. Ao optar por essa técnica, obviamente, podem ocorrer problemas, o que geralmente leva à perda de todo o procedimento (Figuras 2).

 

Figura 2 – A. Aspecto inicial da técnica com o fragmento já preparado para receber o implante. 

 

Figura 2 – B. Implante inserido. 

 

Figura 2 – C. Fragmento e implante removidos após cinco meses do procedimento, levando ao total fracasso do caso.

 

Pode-se observar que a socket shield demanda uma alta destreza técnica, uma vez que a remoção da raiz com a manutenção de um sutil fragmento vestibular em posição nem sempre é fácil, ainda mais após a inserção do implante dental osseointegrado. Trocaremos de estratégia para a manutenção do rebordo alveolar? Acho que não, apenas temos mais uma ferramenta dentro das possibilidades terapêuticas. Por que discuti-la, então? Porque conhecimento é sempre muito bem-vindo.

 

Jamil A. Shibli

Professor titular do Programa de pós-graduação em Odontologia, áreas de Implantodontia e Periodontia – Universidade Guarulhos (UnG); Livre-docente do Depto. de Cirurgia e Traumatologia BMF e Periodontia – Forp/USP; Doutor, mestre e especialista em Periodontia – FOAr-Unesp.