Publicado em: 29/01/2018 às 13h08

Águia ou frango? A história de Elvis

Celestino Nóbrega conta a história de Elvis, uma águia que acreditava ser uma galinha.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo
Elvis acreditava resolutamente e absolutamente ser uma galinha. (Imagens: Shutterstock)


Há muito tempo, em um vale distante, vivia um fazendeiro. Um dia ele se cansou da árdua rotina diária da fazenda e decidiu escalar os penhascos que atravessavam o vale para ver o que estava além. Ele subiu o dia todo até chegar a uma borda logo abaixo do topo do penhasco. Lá, para sua surpresa, havia um ninho cheio de ovos.

Ele percebeu que eram ovos de águia e, embora soubesse que não era ecológico e quase certamente ilegal, pegou cuidadosamente um dos ovos enormes e o guardou na mochila. Ao ver que o sol já estava se pondo, percebeu que era tarde para alcançar o topo da montanha, e começou a abrir caminho para a fazenda.

Ao chegar em casa, colocou o ovo sob uma das poucas galinhas que ele mantinha no quintal. Escolheu a mais gorda. A galinha mãe era a mais feliz do terreiro, cacarejando alegremente enquanto chocava aquele magnífico ovo. E o galo não poderia estar mais orgulhoso, perambulava para lá e para cá altivo e faceiro.

Algumas semanas depois, do ovo eclodiu uma ave esguia e saudável, porém muito grande e completamente diferente dos outros pintinhos. Como parte da natureza gentil das galinhas, elas não recusaram aquele bípede estranho e o assumiram como se fosse uma galinácea, ignorando por completo as diferenças.

Aquela águia recebeu o nome de Elvis, pois o pai era fã do cantor dos anos 1970 e quando jovem mantinha um topete que mais parecia uma crista de galo. Elvis cresceu com seus irmãos e irmãs e aprendeu a fazer tudo o que as galinhas fazem: ciscava por todos os lados procurando por sementes, grãos de milho ou qualquer alimento que o apetecesse, sempre batendo as asas furiosamente e voando apenas por alguns metros no ar, aterrissando de forma espalhafatosa e sem a menor leveza.

Elvis acreditava resolutamente e absolutamente ser uma galinha, mas de vez em quando tinha uma vontade quase incontrolável de devorar um de seus companheiros. Além do mais, apesar de se chamar Elvis, o topete nunca cresceu, o que foi motivo de bullying por alguns anos.

O tempo passou, até que um dia a jovem águia começou a olhar instintivamente para o céu. Costumava observar com admiração uma ave majestosa e enorme, que se elevava elegantemente e, sem esforço, galgava os mais altos píncaros com poucas batidas de suas poderosas asas. “Que ave é esta?”, gritou o falso galináceo com admiração. “É magnífico, tanto poder e graça”.

“É uma águia”, respondeu Roderley, um frango de pescoço pelado que ciscava nas proximidades e sempre tirava onda de conselheiro. “Essa é a rainha das aves, um verdadeiro pássaro do ar, e não é ‘para o nosso bico’. Nós somos galinhas, somos pássaros da terra. Podemos voar apenas por alguns metros, à baixa altitude e sem nenhuma pompa. Na verdade, nosso voo é ridículo. E tem mais: as águias são nossas predadoras, cuidado com elas”.


Dito isso, todos lançaram os olhos para baixo e voltaram a ciscar de modo enfadonho por entre os pedregulhos do terreiro. Roderley era o melhor amigo que um bípede emplumado poderia ter. Elvis não se conformava, por algum motivo acreditava que poderia voar e gostaria muito de conhecer aquela águia fêmea que voava majestosamente. Sem alardear a família, à custa de muito esforço físico, ele conseguiu galgar, ao longo de um dia inteiro, um penhasco bem alto.

De lá, podia observar a comunidade galinácea naquela vida sem a menor graça, ciscando o dia todo. “Que vida mais tola e inútil”, ponderou consigo mesmo.

Enquanto dava pequenos passos de galinha, tentava reunir coragem para se atirar daquele penhasco. De súbito veio um pensamento: “O que estou fazendo? Certamente vou morrer, pois jamais poderei voar como uma águia, sou apenas um frango”. Ele estava absorto em seus pensamentos, já imaginando como seria difícil descer a montanha de volta para casa quando, ao seu lado, pousou majestosamente uma águia maravilhosa, farfalhando as asas douradas que reluziam ao pôr-do-sol.

Para a surpresa de Elvis, a águia engatou uma conversa numa língua completamente inteligível. “Como posso entender o que a águia me diz se sou uma galinha?”. Foi o incentivo que precisava para expor tudo o que lhe ocorrera, de como sempre se sentiu diferente dos outros e de como tinha a certeza de que poderia voar como águia. Ele finalmente tomou consciência de que não era uma galinha, mas sim uma águia.

Rebeca era o nome da linda águia fêmea que pousou ao lado de Elvis, por quem ele se apaixonou imediatamente. Ela o ensinou a voar, caçar, tiveram muitas aguiazinhas e viveram uma felicidade do tipo “propaganda de margarina sem colesterol” por muitos anos. Tudo corria numa boa, até que em uma tarde de domingo, esparramado no sofá e já ostentando uma barriga bem protuberante, Elvis viu um anúncio na televisão: “Screaming eagle – passeios de Harley Davidson”.

Imediatamente, ele se deu conta de que na verdade seus voos eram rigorosamente limitados pelas ordens expressas de Rebeca. Agora, teria a chance de ouvir o maravilhoso rugido de um motor quatro tempos, combinado com o melhor do rock and roll, pelas estradas da Califórnia. E poderia chamar para a viagem seus amigos frangos, que não sabiam voar.

Ele chegou em casa (ou melhor, no ninho) e disse à Rebeca: “Fiz uma tatuagem (de águia, é claro) e comprei uma Fat Boy”. Rebeca ficou “uma arara”, e como já estava de olhos (de águia) num frangote que conhecera na balada, aproveitou a oportunidade e meteu um pé (de águia) no traseiro de Elvis. Claro que Rebeca depenou literalmente o coitado, tirando-lhe tudo, inclusive a Fat Boy. Moral da história: Roderley tinha razão, as águias são predadoras de águias que pensam ser frangos, e também de frangos que pensam ser águias.

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.