Publicado em: 29/01/2018 às 13h16

Recursos para ancoragem extra-alveolar

Maurício Cardoso e Rodrigo Milani fazem uma imersão em dispositivos de ancoragem extra-alveolares.

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Em outubro de 2017, recebi o Prof. Rodrigo Milani no P-I Brånemark Institute, em Bauru (SP). A intenção era trazer uma imersão em dispositivos de ancoragem extra-alveolares. Embora eu já fizesse uso destes dispositivos, a visita do Prof. Milani fez meu conhecimento ganhar um upgrade. A seguir, compartilho com os leitores a oportunidade de acesso a uma síntese do conteúdo abordado.

Na Ortodontia, a movimentação ocorre a partir da aplicação de uma força em um ou mais dentes, por meio de dispositivos como elásticos, molas, dobras nos fios e outros. Sendo assim, de acordo com a Terceira Lei de Newton, toda ação corresponde a uma reação de igual magnitude e em sentido oposto. Então, quando uma força ortodôntica é aplicada a um ou mais dentes, com o objetivo de movimentá-los em um determinado sentido, os elementos dentários, que servem de apoio para a aplicação dessa força, sofrem uma reação de movimentação com a mesma intensidade, porém em sentido oposto, o que em muitos casos representa um efeito colateral indesejável na mecanoterapia ortodôntica1. Entretanto, esses efeitos colaterais foram minimizados com o surgimento dos mini-implantes ou dispositivos de ancoragem temporários (DATs), por meio do desenvolvimento de um miniparafuso confeccionado em titânio, com dimensões de 1,2 mm de diâmetro e 6 mm de comprimento2.

Com o avanço dos estudos das composições das ligas metálicas e técnicas ortodônticas, o aço inoxidável foi reportado na literatura como uma alternativa da liga Ti6Al4V, que é a mais utilizada atualmente. O aço inoxidável é uma liga metálica indicada para a confecção dos DATs por apresentar características melhoradas, como maior flexibilidade e resistência à fratura, fácil penetração em ossos corticais – sem a necessidade de perfuração prévia – e facilidade no controle do biofilme3. Os DATs de aço inoxidável, por apresentarem essas características melhoradas em relação ao Ti6Al4V, estão sendo amplamente empregados nas técnicas atuais de instalação extra-alveolar, como é o caso da crista infrazigomática (IZC), buccal shelf (BS) e ramo ascendente (RA), que serão descritas a seguir.


Técnica da crista infrazigomática (IZC)

Essa técnica tem sido amplamente utilizada pela facilidade de execução, o que a torna simples e segura. Foi descrita na literatura em duas localizações distintas na região posterior da maxila: IZC original ou IZC 6, quando a instalação é realizada na linha mucogengival, anteriormente à raiz mesiovestibular do primeiro molar superior (Figuras 1 e 2); e IZC modificado ou IZC 7, quando é realizado na linha mucogengival entre o primeiro e o segundo molar superior (Figuras 3 e 4). A técnica do IZC 7, descrita por estudos4, é mais fácil de ser executada, pela maior quantidade de osso e gengiva queratinizada, quando comparada à técnica IZC 65.

Apesar das técnicas do IZC 6 e IZC 7 apresentarem locais de instalação diferentes, elas são realizadas por meio de procedimentos similares e que seguem os seguintes passos: 

1) anestesia local na região da linha mucogengival;

2) demarcação do local com uma sonda exploradora;

3) inserção de 1 mm do DAT, perpendicular ao plano oclusal;

4) angulação do DAT de 60º a 70º com o plano oclusal;

5) finalização da inserção e remoção da chave de instalação.
 

Figura 1 – Esquema com a técnica do IZC original ou IZC 6.

 

Figura 2 – Posicionamento do IZC original ou IZC 6 com DAT de aço (empresa Newtons).

 

Figura 3 – Esquema com a técnica do IZC modificado ou IZC 7.

 


Técnica buccal shelf (BS)

 

Nessa técnica, o DAT é inserido na região posterior da mandíbula, lateral ao processo alveolar, da distal do primeiro molar até a distal do terceiro molar. O DAT é inserido perpendicularmente ao plano oclusal (Figura 5), podendo ter uma inclinação anterior de até 30° (Figura 6)3. A técnica é descrita nos seguintes passos: anestesia somente no local em que será instalado o DAT; instalação entre o primeiro e segundo molar ou segundo e terceiro molar, região onde o osso é predominantemente cortical; demarcação do local a ser instalado com uma sonda exploradora; o DAT será instalado paralelo ao longo eixo do molar, por diminuir o risco de atingir estruturas anatômicas nobres, como o canal mandibular, que nessa área está normalmente localizado na parte mais interna da mandíbula.

Figura 4 – Posicionamento do IZC modificado ou IZC 7 com DAT de aço (empresa DatSteel).

 

Figura 5 – Esquema com o DAT perpendicular ao plano oclusal, sem inclinação para vestibular. (Imagem cedida pelo prof. Chris Chang).

 

Figura 6 – Esquema com a angulação máxima de 30° anterior na técnica buccal shelf.

 

Técnica ramo ascendente (RA)

 

Segundo estudos6, essa técnica preconizada por Chang é muito útil para a verticalização de molares impactados (Figura 7), mais profundos, com exposição no meio bucal em um curto período de tempo, e foi descrita da seguinte forma: exposição cirúrgica do molar impactado para possibilitar colagem de um acessório; instalação do DAT na região do ramo ascendente (Figura 8); tracionamento do dente impactado com elástico corrente ou fios elásticos (Figura 9); depois de exposta a coroa do molar impactado, realizar a colagem de tubo e uso de fio NiTi para finalizar a verticalização. Cabe ressaltar que para a realização da técnica RA, dispositivos de maior comprimento encontram-se indicados, quando comparados aos dispositivos utilizados nas técnicas IZC e BS.

Figura 7 – Radiografia inicial de um paciente
com perda do dente 37 e com o dente 38 em posição
horizontal, antes do movimento de verticalização.
Figura 8 – Radiografia do dente 38 após
movimento de verticalização com a técnica do RA,
com duração de três meses e com a técnica do RA.

 

Figura 9 – Fotografia intrabucal do dente 38 durante o movimento de verticalização, com a técnica do RA.

 

 


Referências

1. Roberts-Harry D, Sandy J. Orthodontics.Part 9: anchorage control and distal movement. BrDent J 2004;196(5):255-63.

2. Kanomi R. Mini-implant for orthodontic anchorage. J Clin Orthod 1997;31(11):763-7.

3. Chang C, Liu SS, Roberts WE. Primary failure rate for 1680 extra-alveolar mandibular buccal shelf mini-screws placed in movable mucosa or attached gingiva. Angle Orthod 2015;85(6):905-10.

4. Lin JJ, Roberts WE. Guided Infra-Zygomatic Screws: Reliable Maxillary Arch Retraction: International Journal of Orthodontics & Implantology 2017;46:4-16.

5. Liou EJ, Chen PH, Wang YC, Lin JC. A computed tomography ic image study on the thickness of the infrazygomatic crest of the maxilla and its clinical implications for mini-screw insertion. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2007;131(3):352-6.

6. Lin JJ. The wisdom of managing wisdom teeth part III. Methods of molar uprighting. International Journal of Orthodontics & Implantology 2011;24:4-11.

 

 

 
   

Coordenador:

Maurício Cardoso

Mestre e doutor em Ortodontia pela Unesp Araçatuba; Coordenador do curso de especialização em Ortodontia da SPO, São Paulo (SP); Professor dos programas de mestrado e doutorado da SLMandic, Campinas (SP).

 

 

 

 
   


Rodrigo Milani

Especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial; Especialista em Implantodontia; Mestre em Medicina Dentária – Portugal; Desenvolvedor do primeiro DAT de aço da América; Professor da Especialização em Ortodontia da APCD Vila Mariana.