Publicado em: 29/01/2018 às 13h20

Fotopolimerizador de LED: ter ou não ter

Júlio Gurgel discute a tecnologia presente em materiais, equipamentos e acessórios usados na Ortodontia a partir da perspectiva clínica.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo
Fotopolimerizador de LED: vale a pena o investimento? (Imagens: Shutterstock)

 

 

Nos últimos anos, o ensino da Ortodontia no Brasil tem incrementado o entendimento sobre materiais ortodônticos. Embora o foco maior seja nas áreas de ligas metálicas, adesivos e cimentos, também se deve valorizar o conhecimento de materiais advindos de novas tecnologias.

São informações que capacitam o clínico para a seleção racional dos produtos, levando em consideração a biocompatibilidade com a saúde bucal do paciente. Conhecê-los e saber qualificá-los levará o ortodontista à melhor escolha, que precisa ser feita de maneira consciente, independente e clinicamente apropriada. Assim, o profissional não se torna refém do conflito de interesses, fortalecendo os resultados baseados em evidência e considerados independentes.

Inicio o trabalho como colunista da revista OrtodontiaSPO com o intuito de oferecer informações a respeito dos materiais utilizados na Ortodontia, sempre de forma leve, direta e mostrando algumas referências bibliográficas atuais sobre o tema abordado.


Fotopolimerizador de LED: vale a pena o investimento?

A colagem utilizando fotopolimerizadores se tornou popular porque permite tempo de trabalho suficiente para o posicionamento mais preciso dos braquetes. Ou seja, uma vez que o braquete esteja na posição desejada, a fotoativação é realizada em um curto período.

A lâmpada halógena é a fonte luminosa mais utilizada, pois apresenta baixo custo e fácil manutenção. Entretanto, o tempo necessário para a polimerização dos materiais é em torno de 20 a 40 segundos e a vida útil dos aparelhos fotopolimerizadores é relativamente curta.

A fotoativação através do LED (light emitting diode) vem ganhando espaço, pois apresenta tempo curto (3 a 6 segundos) para a polimerização dos materiais e vida útil mais longa dos aparelhos1. Sendo assim, os fotopolimerizadores de LED possuem como apelo a redução do tempo de presa, um benefício para o profissional e para o paciente, além de reduzir a probabilidade de falha na colagem por contaminação da umidade.

O menor tempo na colagem dos braquetes e o menor número de falhas de adesão vão impactar positivamente no rendimento monetário do clínico e, por essa razão, a seguir vamos abordar esses dois fatores, prioritariamente.


Tempo de polimerização

Para a maioria das resinas de colagem disponíveis no mercado, recomenda-se presa de 20 a 40 segundos ao usar aparelhos de lâmpada halógena, enquanto nos de LED os fabricantes indicam de 3 a 6 segundos. Essa variação entre os modelos está relacionada à potência dos equipamentos.

A vida útil de um aparelho de luz halógena é de aproximadamente de 40 a 100 horas, e os de LED têm mais de 10 mil horas de vida útil. Além disso, os aparelhos de luz halógena têm intensidade de emissão em torno de 400 mW, ao passo que os de LED têm acima de 1.600 mW – essa superioridade na intensidade de emissão leva à redução no tempo de cura da resina de colagem2-3. Lembre-se de que o tempo adicional de fotopolimerização aumenta a resistência da adesão, contudo, mesmo para os aparelhos de luz halógena, não há tempo ideal para a colagem de braquetes4.

Somente como parâmetro, um profissional que inicia cerca de 250 pacientes por ano (5 mil braquetes colados), trabalhando 200 dias no ano e tendo uma média de descolagem em torno de 5%, chega a um total de recolagem de 1,25 braquetes por dia. Se esse profissional conseguir reduzir o número de falhas para 2%, terá a recolagem diminuída para 0,5 braquete por dia. Para essa redução, deve-se levar em conta não somente o fotopolimerizador, mas também um cuidadoso protocolo de colagem. Nesse caso, o LED vai auxiliar de forma decisiva, no menor tempo de colagem3.


Redução no número de falhas de adesão

Recentemente, foram realizados estudos laboratoriais e clínicos comparando a performance dos aparelhos de LED com os de luz halógena. Os resultados demonstram que não há diferença na porcentagem de falhas de adesão entre ambos3. Em Ortodontia, a colagem envolve múltiplas etapas, portanto, erros em cada uma ou em algumas delas podem levar a problemas na adesão dos acessórios.

Sequencialmente, as etapas da colagem de acessórios são: polimento da superfície do esmalte, ataque ácido, lavagem para remoção do ácido, secagem do esmalte, aplicação do adesivo, adaptação da resina na base do braquete, posicionamento do braquete e polimerização da resina.

Geralmente, os erros ocorrem em um ou nos dois tipos de interface de adesão inerentes à colagem: 1 – na interface entre o adesivo e o esmalte dentário; e 2 – na interface entre o adesivo e a base do braquete. A polimerização inadequada induz a ocorrência de falha em qualquer uma dessas interfaces e pode decorrer da falha na produção da luz. Por sua vez, a baixa intensidade luminosa pode ser uma consequência da ineficiência da luz ou insuficiente tempo despendido durante a polimerização – este último fator pode ocorrer independentemente do tipo de fotopolimerizador utilizado.

As informações apresentadas refletem os atuais estudos disponíveis na literatura relativa ao assunto, portanto, no futuro, podem ser acrescentados novos e determinantes dados. A escolha do sistema de polimerização à luz deve ser baseada na preferência do clínico, levando em consideração o custo do produto e a sua longevidade. Ainda, como recomendação adicional para esse ou qualquer outro produto, analise a redução no tempo de cadeira.


Referência

1. Onofre NML, Retamoso LB, Marchioro EM, Berthold TB. Atuação da luz halógena e do LED (light emitting diode) na resistência de união de brackets colados no esmalte dentário humano. Rev. Odonto Ciênc 2007;22(57):238-42.

2. Mills RW, Jandt KD, Ashworth SH. Dental composite depth of cure with halogen and blue light emitting diode technology. Br Dent J 1999;186(8):388-91.

3. Fleming PS, Eliades T, Katsaros C, Pandis N. Curing lights for orthodontic bonding: a systematic review and meta-analysis. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2013;143(suppl. 4):S92-103.

4. Finnema KJ, Ozcan M, Post WJ, Ren Y, Dijkstrae PU. In-vitro orthodontic bond strength testing: a systematic review and meta-analysis. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2010;137(5):615-22.

 

Júlio Gurgel

Doutor em Ortodontia pela FOB-USP; Professor do programa de mestrado acadêmico em Odontologia (Ortodontia) da UniCeuma, em São Luís/MA; Professor assistente doutor do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, campus de Marília; Coordenador do curso de especialização em Ortodontia da PUCMM, em Santiago de los Caballeros (República Dominicana).