Publicado em: 27/03/2018 às 11h15

A osteoporose interfere na sobrevivência dos implantes?

Estima-se que mundialmente a osteoporose afeta uma entre quatro mulheres e um em cada oito homens com 50 anos ou mais de idade.

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A Organização Mundial de Saúde define a osteoporose como uma doença sistêmica, caracterizada pela diminuição da massa óssea e deterioração da microarquitetura do tecido ósseo, com consequente aumento da fragilidade tecidual e suscetibilidade a fraturas. A patogênese da osteoporose, ainda não completamente desvendada, está relacionada ao desequilíbrio entre a formação e a reabsorção óssea.

O diagnóstico da osteoporose é confirmado quando a densidade mineral óssea de um indivíduo é igual ou inferior a 2,5 desvios-padrões abaixo do pico de massa óssea encontrada no adulto jovem do mesmo sexo e etnia. Usando a matemática de uma forma mais objetiva, é aceito que a perda de 25% de massa óssea caracteriza a osteoporose. Essa avaliação deve ser feita utilizando-se métodos capazes de determinar o conteúdo mineral do osso de maneira adequada, tais como o DXA (dual-energy x-ray absorptiometry) ou a tomografia computadorizada clássica (helicoidal). Avaliações tomográficas rotineiramente utilizadas nos consultórios odontológicos (de feixe cônico) não são indicadas para tal diagnóstico1.

Estima-se que mundialmente a osteoporose afeta uma entre quatro mulheres e um em cada oito homens com 50 anos ou mais de idade.

Estudos têm investigado se existe uma correlação entre osteoporose, densidade mineral óssea (DMO) da coluna vertebral e fêmur proximal (ou quadril), e a DMO dos maxilares nas regiões não dentárias e dentárias (alveolares). Existe uma relação comprovada entre elas? É possível prever a DMO dos ossos da face usando medidas de outras regiões do esqueleto? 

Drage e colaboradores2 concluíram que, embora a DMO do ramo da mandíbula possa mostrar correlação com a da coluna lombar e quadril, as áreas dos maxilares onde os implantes podem ser colocados não apresentam correlação. Portanto, a DMO da coluna lombar e do quadril não pode ser usada para prever a DMO dos maxilares.

Em 2015, Merheb3 estudou mulheres parcial ou totalmente edêntulas, as quais foram divididas em dois grupos: edêntulas com osteoporose e edêntulas sem osteoporose.

Foram encontradas diferenças significativas (p < 0,01), em unidades Hounsfield (que foram avaliadas em imagens tomográficas obtidas em tomógrafo de feixe helicoidal), entre áreas não dentárias (tuberosidade e linha média) da maxila de pacientes edêntulas com osteoporose e saudáveis3. Um achado semelhante (p < 0,05) foi observado entre áreas dentárias (incisivos, pré-molares e molares) entre os dois grupos. Os valores inferiores foram observados sempre no grupo com osteoporose.

Foi encontrada correlação significativa, qualificada como moderada, entre a DMO da coluna lombar e a tuberosidade (r = 0,61; p < 0,01); fraca, entre a DMO da coluna lombar e a linha média maxilar (r = 0,46; p < 0,01) e entre a DMO da coluna lombar e a região maxilar dos pré-molares (r = 0,31; p < 0,01); e desprezível entre a DMO da coluna lombar e a região maxilar dos incisivos (r = 0,24; p = 0,04) 3. Entretanto, não foi verificada uma correlação significativa entre a DMO da coluna lombar e a região maxilar dos molares.

Foi encontrada correlação significativa fraca entre a DMO do quadril e a tuberosidade (r = 0,5; p < 0,01), entre a DMO do quadril e a linha média maxilar (r = 0,47; p < 0,01) e entre a DMO do quadril e a região maxilar dos pré-molares (r = 0,30; p = 0,01). Todavia, não foi verificada uma correlação significativa entre DMO do quadril e a região maxilar dos incisivos, e entre a DMO do quadril e a região maxilar dos molares3

 

Portanto, no estudo de Merheb3, as correlações calculadas entre as regiões esqueletais (coluna e quadril) e as regiões não dentárias e dentárias da maxila edêntula estão longe de serem lineares, ou seja, não se correlacionam perfeitamente. Em conclusão, pode-se afirmar que existe uma correlação de fraca a moderada entre a DMO do esqueleto (quadril e coluna) e a DMO da tuberosidade e linha média maxilar, e uma correlação inexistente ou fraca entre a DMO do esqueleto (quadril e coluna) e a DMO das regiões dentárias (incisivo, pré-molar e molar) da maxila edêntula.

Scheibel e colaboradores4 determinaram, em mulheres dentadas, a DMO no quadril, cabeça do fêmur, coluna vertebral (região cervical e lombar), regiões alveolares da mandíbula (molar, sínfise, incisivos) e maxila (molar e incisivos). Uma correlação significativa e fraca foi encontrada apenas entre a DMO da coluna cervical e a região molar da maxila. Diferentemente do estudo anterior3, não foi encontrada correlação entre a DMO da coluna lombar e a região maxilar dos incisivos.

Mas, o que tudo isso significa, considerando a osseointegração dos implantes? Shibli e colegas5 não encontraram diferença no contato implante-osso, comparando pacientes saudáveis e com osteoporose. Ainda, Holahan e equipe6 estudaram 746 mulheres (3.224 implantes dentários instalados) e demonstraram que pacientes com osteoporose não apresentavam maior índice de perda de implante dentário do que os pacientes saudáveis.

Nos pacientes com osteoporose, parece existir alguma correlação (fraca ou moderada) entre a DMO da coluna/ quadril e a DMO dos ossos da face, mas os estudos ainda não são conclusivos. Se a osteoporose atinge ou não os ossos da face, a doença parece não interferir na sobrevivência dos implantes dentários. 

 

REFERÊNCIAS

1. Pauwels R, Jacobs R, Singer SR, Mupparapu M. CBCT-based bone quality assessment: are Hounsfield units applicable? Dentomaxillofacial Radiol. Th e British Institute of Radiology 2014;44(1):1-16.

2. Drage NA, Palmer RM, Blake G, Wilson R, Crane F, Fogelman I. A comparison of bone mineral density in the spine, hip and jaws of edentulous subjects. Clin Oral Implants Res. Wiley Online Library 2007;18(4):496-500.

3. Merheb J, Temmerman A, Coucke W, Rasmusson L, Kübler A, Th or A et al. Relation between spongy bone density in the maxilla and skeletal bone density. Clin Implant Dent Relat Res. Wiley Online Library 2015;17(6):1180-7.

4. Scheibel PC, Ramos AL, Iwaki LCV. Is there correlation between alveolar and systemic bone density? Dental Press J Orthod. Scielo Brasil 2013;18(5):78-83.

5. Shibli JA, Aguiar KCDS, Melo L, Ferrari DS, d’Avila S, Iezzi G et al. Histologic analysis of human peri-implant bone in type 1 osteoporosis. J Oral Implantol 2008;34(1):12-6.

6. Holahan CM, Koka S, Kennel KA, Weaver AL, Assad DA, Regennitt er FJ et al. Eff ect of osteoporotic status on the survival of titanium dental implants. Int J Oral Maxillofac Implants 2008;23(5):905-10.

 

Luis Antonio Violin Pereira

 

Professor titular do Depto. de Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT) da Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Biologia (Unicamp-IB).

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Carolina Frandsen Pereira da Costa

Ilustradora; Doutoranda no programa de pós-graduação em Biologia Celular e Estrutural do Instituto de Biologia (Unicamp-IB).

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Rubens Spin-Neto

Professor associado do Departamento de Odontologia e Saúde Oral da Universidade de Aarhus, Dinamarca.