Publicado em: 04/04/2018 às 13h10

O vampiro com caxumba

Celestino Nóbrega explica como a mudança no perfil das famílias brasileiras pode afetar o trabalho do ortodontista.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo
Atualmente, as famílias têm menos filhos e mais animais de estimação. (Imagens: Shutterstock)

 

As famílias mudaram bastante ao longo dos últimos 20 anos. Isso é fato. Não cabe aqui ficarmos discutindo se as mudanças foram desfavoráveis ou não, mas temos que constatar o fato para que possamos direcionar nossas atividades profissionais. No início de minha carreira como ortodontista, a mãe costumava trazer para a primeira consulta seus três ou quatro filhos e me perguntava: “Doutor, qual dos meus filhos precisa mais do tratamento ortodôntico?”.

 

Responda às três perguntas abaixo para que eu mostre a principal mudança que alterou por completo a estruturação de uma típica família brasileira de classe média.

1. Quantos irmãos você tem?

2. Quantos filhos você tem?

3. Agora, a pergunta-chave: você tem algum animal de estimação? (Por favor, excluir sogra, marido, cunhado ou qualquer outro animal rastejante e peçonhento).

Como você pode perceber, atualmente, as famílias têm menos filhos e mais animais de estimação – os modernos componentes das famílias, conhecidos por pets.

Se você, a partir de agora, prestar mais atenção, irá claramente constatar que vários negócios têm se reinventado para alcançar uma perfeita adaptação dessas mudanças tão visíveis. Um deles foi o setor de educação privada, no qual o target é o filho único. O segmento de turismo também percebeu essa necessidade de ajuste, afinal de contas, quem decide onde a família passará as férias são os filhos.

Por curiosidade, veja essa propaganda de margarina de 1997, conte quantos filhos participam do filme e como eles aguardam passivamente que os pais preparem o café da manhã. Importante: perceba como a mãe manda o cachorro sair da cozinha. As crianças são passivas e os pais estão no comando. A questão dos pets discutiremos em seguida.

Agora, dê uma olhada nesta recente propaganda de margarina e perceba o que eu quero dizer. O filho único prepara o café da manhã e toma conta de tudo, enquanto os pais fingem não perceber e se escondem atrás da porta. Entenda o claro redirecionamento do target da campanha publicitária. Pais passivos e criança no comando.

Dr. Peter Eisendick, proeminente médico e filho de imigrantes búlgaros, adaptou a interessante linha de raciocínio dos anos 1950 da escola pedagógica daquele país às necessidades brasileiras de hoje. Eisendick não é exatamente conhecido pela finesse, pois, segundo consta, ele segue a linha de seu saudoso pai, que era “mais grosso do que um dedão destroncado”.

Além de grande médico, pensador e filósofo, Eisendick é muito conhecido por ser diretor de harmonia do bloco Los Beudos do Samba. De uns tempos para cá, ele foi presenteado pela diretoria do bloco com um par de joelheiras, para ser poupado de se automutilar em episódios controversos, como quando caiu de joelhos bem em frente ao palanque do prefeito no desfile de carnaval. Tudo terminou bem, pois todos pensaram que o tombo que ralou o seu joelho direito até o osso fazia parte da performance da comissão de frente.

Como meu amigo particular, e considerando que criou muito bem seus cinco filhos, tive a liberdade de pedir a ele que resumisse em apenas uma frase o que eu deveria seguir como espinha dorsal para a educação do meu filho, que na época estava por nascer. Muito simples, disse Pedrão: “filho é como cachorro, tem que saber que tem dono”.

Chocante! Imagine o chilique do diretor daquela propaganda de margarina mais recente ao ouvir uma afirmação como essa. Ou pior: imagine se o Pedrão (que na TV só vê os jogos do Flamengo e nada mais) assistisse a um comercial de margarina para cachorros.

Antes de julgar, pondere sobre como os filhos são tratados hoje em dia ou como os pets são inseridos no contexto familiar. Continuemos a ponderar: inevitável que, assim como eu, você faça uma reflexão paralela àquilo que vivenciou na infância e adolescência. No meu caso, as diferenças são gritantes e se agigantam sempre que a mãe traz o único filho (ou talvez os dois filhos) para a primeira consulta.

Em minha casa éramos quatro filhos, tínhamos uma cadelinha que se chamava Benedita Cacilda, mas que atendia à alcunha de Chuquinha. De tão pequena, meu amigo Caçapa costumava colocar a cadelinha inteirinha na boca. Ela vivia com conforto e sempre foi muito amada e muito bem tratada por todos nós. Mas ela sabia muito bem que seu dono era meu pai. Abanava o rabinho “cotó” assim que ele chegava do trabalho, e não queria nada a não ser a própria presença dele. Assim ocorre com todos os cães de estimação, ontem e hoje: eles elegem seu dono.

Tínhamos também uma gaiola cheia de periquitos coloridos. Foi uma experiência pessoal muito interessante cuidar dos periquitinhos, pois logo percebi que eles se multiplicavam rapidamente em progressão aritmética e que o acasalamento consanguíneo redundava em algumas aberrações genéticas, como um periquito azul de três pernas – o qual vendi para o seu Jair do armazém, e fiz uma boa grana.

Em resumo, filhos eram filhos e animais eram animais. Contrariando a psicologia búlgara “Pedroniana”, hoje pets são tratados como filhos e vice-versa. Muito simples: filhos não querem ganhar um petisco quando os pais chegam em casa, só querem que os pais sejam pais e, inclusive, praticamente imploram subliminarmente para que imponham a noção de limites.

Trabalhar como ortodontista para famílias modernas demanda esse entendimento por um simples motivo: crianças superprotegidas não colaboram tanto quanto necessitamos. Nada mais difícil do que tratar de um paciente da categoria HDM (ou hiperdodóizinho da mamãe).

A mãe de um paciente recentemente me comunicou que o filho estava com parotidite e que se ausentaria de algumas consultas. A zelosa mãe chorava convulsivamente e parecia, com razão, estar completamente transtornada e sem rumo. Expliquei que parotidite é uma doença séria e que requer cuidados específicos, e que se tratava de caxumba.

Meu irmão mais velho não sabia o que era parotidite, mas teve caxumba. Ele tinha uns 14 anos e minha mãe o tratou como um nababesco paxá. Por ser o irmão mais velho, ele já gozava de alguns direitos intrínsecos e tácitos, tais como poder sacanear os irmãos mais novos com alguma condescendência e pegar o carro do meu pai escondido aos sábados à tarde enquanto o coroa tirava uma pestana. O velho carinhosamente fingia não perceber.

A situação privilegiada foi exacerbada pela enfermidade, sendo que todos nós o vigiávamos para que ficasse imóvel na cama para a caxumba “não descer”. A família toda passou vários dias imbuída do compromisso para que a temida afecção, de acordo com a filosofia “Pedroniana”, não “contagiasse o saco do meu irmão”.

Assim, passaram-se os dias com minha mãe trazendo todos os mais variados componentes do cardápio, que satisfaziam os desejos daquele adolescente de uma magreza não condizente com o apetite voraz que fazia parte de sua personalidade.

Lembro-me bem do episódio da caxumba, principalmente por conta das febres e alucinações noturnas que ele tinha nesse período, pois dormíamos os três irmãos no mesmo quarto. Como ele me sacaneava diariamente de forma sistemática pela simples prerrogativa de ser o irmão mais velho, enxerguei naquele momento em que ele estava debilitado uma grande oportunidade. Durante uma de suas alucinações febris, ele assinou um documento que preservo até hoje, em que ele se comprometeu a me servir como escravo até os seus 18 anos. Ele cumpriu com o contrato por uns dez minutos.

No auge de uma febre de 40°C, eu o convenci, através da lei da gravidade, de que se ele dormisse feito um vampiro a tal caxumba “não desceria”. Após passar a noite toda de cabeça para baixo, a caxumba desapareceu miraculosamente. Acho que foi parar no cérebro. E tomara que minha mãe não leia esta coluna.

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.