Publicado em: 04/04/2018 às 13h35

Odontologia estética com laminados cerâmicos

Como a abordagem transdisciplinar pode proporcionar preparos mais conservadores nas reabilitações com lentes de contato.

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Muito tem se falado nos últimos anos acerca da tendência dos tratamentos estéticos obtidos por meio das reabilitações com laminados cerâmicos ultrafinos, popularmente conhecidos como lentes de contato odontológicas. Eles são reconhecidos como procedimentos minimamente invasivos, ultraconservadores ou prepless, em que são utilizados laminados de mínima espessura, que exigem pouco ou nenhum desgaste da estrutura natural dos dentes para a sua execução.

Estudos longitudinais demonstraram uma taxa de sobrevivência de 94% para os laminados minimamente invasivos1. Um estudo metanalítico a respeito da sobrevivência de veneers feldspáticas concluiu que aproximadamente 95% dessas restaurações ainda se encontraram em perfeito uso após dez anos, desde que tivessem sido cimentadas sobre o esmalte2.

A cimentação dos laminados predominantemente sobre esmalte é uma característica altamente desejada quando se almeja longevidade nos tratamentos com laminados cerâmicos. Além disso, é importante entender os pré-requisitos necessários para a execução de um tratamento estético sem a necessidade de preparos. O posicionamento favorável dos dentes na arcada é um dos principais. Para tanto, é fundamental3 a atuação da Ortodontia previamente ao tratamento protético, como pode ser avaliado no caso clínico a seguir (Figuras 1 a 10). No entanto, infelizmente o encaminhamento de pacientes para a Ortodontia pré-protética enfrenta algumas resistências, baseadas em fatores como:
 

1. Tempo de tratamento estendido: de maneira geral, uma característica relativamente comum dos pacientes que procuram tratamentos estéticos é o imediatismo, ou seja, buscam resultados em pouco tempo. Assim, o profissional pode ser impelido a desistir de indicar a Ortodontia e partir para resoluções mais imediatistas – quase sempre não conservadoras – de tratamento, como a correção do posicionamento dos dentes à custa de preparos protéticos;

2. Custo acrescentado ao tratamento: para a maioria dos pacientes, o fator financeiro é determinante na decisão. Por essa razão, a atuação de mais um profissional pode tornar o tratamento inviável financeiramente;

3. Fatores éticos: em muitas situações, o cirurgião-dentista teme a concorrência com outros colegas. Isso pode fazer com que ele evite encaminhar o paciente para outro profissional por não querer correr o risco de perdê-lo. A postura centralizadora e individualista pode fazer com que esse profissional siga o caminho do “mais rápido e mais barato”, com consequências desastrosas ao paciente. 

 

Figuras 1 a 3 – Fotografias intrabucais iniciais. Observe o desalinhamento dos dentes, concentrado na região anterior superior e inferior. Um tratamento com laminados nessa situação fatalmente exigiria a necessidade de grandes desgastes, especialmente do dente 12, para a correção de sua vestibularização.

 

Figura 4 – Fotografia frontal em fase final de tratamento ortodôntico. Note a melhora da sobremordida e a distribuição dos espaços para a fase protética reabilitadora.

 

Figura 5 – Situação dos dentes anteriores superiores após a remoção dos aparelhos. Note o correto alinhamento dos dentes, a proporção e a estética gengival, compatíveis com a naturalidade.

 

Figuras 6 a 8 – Preparos protéticos conservadores dos dentes 12 ao 22, com a finalidade de remoção das antigas restaurações em resina composta. Observe a preservação da camada de esmalte em toda a extensão do preparo.

 

Figuras 9 e 10 – Aspecto final 15 dias após a cimentação dos laminados do tipo lentes de contato.

 

É importante entender que todos os tratamentos com laminados cerâmicos, mesmo aqueles com finalidade exclusivamente estética e que abrangem somente os dentes anteriores, devem ser avaliados dentro de uma perspectiva global e transdisciplinar3-6. Todo tratamento com laminado é um tratamento protético e, como tal, deve considerar a funcionalidade e a atuação dos fatores oclusais, afinal até mesmo um fragmento cerâmico pode influenciar na oclusão.

 

O caso clínico apresentado é um exemplo de integração entre a Ortodontia e a Prótese Dentária, desde as etapas iniciais do planejamento. O objetivo da fase ortodôntica inicial foi a correção do apinhamento – presente em ambos os arcos, sendo mais grave no arco inferior – e obtenção de um padrão oclusal saudável por meio da redistribuição dos espaços, respeitando as medidas de proporcionalidade dos dentes. A obtenção de um alinhamento favorável, especialmente dos dentes anteriores, possibilitou a finalização do caso com preparos mínimos, que se limitaram exclusivamente à remoção dos materiais restauradores antigos, mantendo ainda todo o preparo restrito à camada de esmalte.

Cada vez mais se pode compreender a complexidade dos tratamentos odontológicos e suas implicações na saúde geral dos pacientes. O avanço das técnicas, dos materiais e das novas tecnologias levam a Odontologia a níveis de excelência compatíveis com as exigências dos casos e com as expectativas de pacientes cada vez mais críticos e bem informados. Assim, é importante reconhecer as limitações e entender que um trabalho em equipe6 é fundamental para alcançar melhores resultados, que possibilitem o máximo de preservação das estruturas naturais. 

 

Referências

1. Strassler HE. Minimally invasive porcelain veneers: indications for a conservative esthetic dentistry treatment modality. Gen Dent 2007;55(7):686-94; quiz 695-6, 712.

2. Layton DM, Clarke M, Walton TR. A systematic review and meta-analysis of the survival of feldspathic porcelain veneers over 5 and 10 years. Int J Prosthodont 2012;25(6):590-603.

3. Hiramatsu DA. Unique. Laminados cerâmicos passo a passo. Dos fragmentos às reabilitações adesivas. Quintessence 2018. No prelo.

4. Patroni S, Cocconi R. From orthodontic treatment plan to ultrathin no-prep CAD/CAM temporary veneers. Int J Esthet Dent 2017;12(4):504-22.

5. Veneziani M. Ceramic laminate veneers: clinical procedures with a multidisciplinary approach. Int J Esthet Dent 2017;12(4):426-48.

6. Cardoso MA, Consolaro A. Transdisciplinar e contemporâneo: o novo sempre vem. Ortodontia 2017;50:412-4.

 

 

 
   

Coordenador:

Maurício Cardoso

Mestre e doutor em Ortodontia pela Unesp Araçatuba; Coordenador do curso de especialização em Ortodontia da SPO, São Paulo (SP); Professor dos programas de mestrado e doutorado da SLMandic, Campinas (SP).

 

 

 

 
   

 

Daniel Hiramatsu

Graduado, pós-graduado e mestre pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP); Protesista do Brånemark Osseointegration Center – São Paulo; Professor nas áreas de Odontologia Estética e Implantodontia, no BOC São Paulo; Membro da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética (Sboe); Autor do livro Unique – Laminados Cerâmicos Passo a Passo: dos Fragmentos às Reabilitações Adesivas.