Publicado em: 04/04/2018 às 13h41

Sua majestade, o braquete cerâmico

Júlio Gurgel ressalta que o profissional que não se preocupa em entender os detalhes pode ser pego de surpresa.

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Uma importante atenção aos braquetes cerâmicos é a limpeza nas consultas mensais. (Imagem: Shutterstock)


O braquete cerâmico está sempre envolto em detalhes, lendas e curiosidades. Considerado o aparelho estético do tratamento ortodôntico, ele merece atenção por ser um lucrativo nicho da Ortodontia brasileira. O persistente apelo estético da mídia exerce forte influência no comportamento de pacientes jovens e adultos, e isso tem promovido e impulsionado a demanda por aparelhos ortodônticos estéticos1.

Para incluir os braquetes cerâmicos como opção de tratamento e formular o seu preço, deve-se levar em consideração alguns detalhes, dentre os mais relevantes, a ligadura (elástica ou com cobertura), o fio estético e o tipo de ranhura do braquete (metálica ou não) – sendo que cada um desses itens merece uma resenha à parte. O profissional que não se preocupa em entender esses detalhes pode ser pego de surpresa, com questionamentos do tipo:

• Poderia trocar as “borrachinhas” que mancharam em uma semana?

• Por que o fio do aparelho está descascando?

• Por que o fio ao redor do braquete está descascando?

• Por que se eu pedir o aparelho com braquetes cerâmicos meu tratamento pode demorar mais tempo?


Para responder corretamente a essas indagações, é preciso entender sobre os materiais dos quais são feitos os dispositivos ortodônticos. A previsibilidade do tratamento é um benefício para o profissional e para o paciente. Portanto, em resposta a essas simples perguntas, pode-se considerar:

• Prefiro usar as ligaduras elásticas que não sejam transparentes. As ligaduras elásticas peroladas ou foscas resistem mais à pigmentação, sobretudo quando a alimentação é rica em alimentos e bebidas com tonalidades fortes.

• Fios de amarrilho e arcos metálicos com recobrimento invariavelmente descascam. Não importa a marca ou procedência, todos os fios com recobrimento vão descascar, dependendo mais uma vez da dieta do paciente. Porém, nesse caso, não será pela cor do material, mas pela consistência ou maior presença de grãos ou acidez.

• Aparelhos cerâmicos possuem maior atrito clássico, portanto alguns cuidados devem ser tomados, em especial, em casos de extração. Uma alternativa é optar por braquetes com canaleta metálica ou reduzir o calibre dos fios retangulares para o fechamento de espaço. Devido a uma série de particularidades, a canaleta metálica não tem sido muito ofertada atualmente.


Os primeiros braquetes estéticos comercializados foram os de policarbonato (acrílico), que ofereciam várias intercorrências, como pigmentação, deformação de canaletas e desgaste das aletas.

Introduzidos no mercado ortodôntico em meados dos anos 1980, os braquetes confeccionados com alumina policristalina e monocristalina (Safira) solucionaram o problema de alteração de cor. O braquete policristalino é confeccionado por meio da sinterização (aglutinação de cristais sem fusão) da alumina, enquanto o monocristalino resulta da fusão em um único cristal de alumina. Ambos os braquetes cerâmicos possuem distintas características óticas e mecânicas. A alumina policristalina apresenta características inferiores às detectadas na alumina monocristalina, como menor translucidez e maior adesão de resíduos2.

Os braquetes cerâmicos contam com três tipos de retenções em suas bases: química, mecânica ou micromecânica. A retenção química advém da aplicação prévia de silano na base do braquete. Deve-se atentar que o silano tem prazo de validade (informado na embalagem) e cria um reforço na união da interface resina-braquete, porém, na remoção da peça, também cria uma concentração de força na interface resina-esmalte. Sendo assim, incorre no risco de cisalhamento ou mesmo fratura do esmalte3

As retenções mecânicas podem ter bordas ou ranhuras que, em conjunto, mimetizam a malha da base dos braquetes metálicos. Por sua vez, a retenção micromecânica é obtida com diminutas esferas ou cristais distribuídos na base do braquete. Essa última modalidade de retenção tem sido mais bem aceita por parte dos profissionais, em decorrência da distribuição homogênea da força na interface resina-braquete4.

Uma importante atenção aos braquetes cerâmicos é a limpeza nas consultas mensais, para evitar a pigmentação. O desgaste do excesso de resina que, porventura não foi removida durante a colagem, também auxilia na manutenção da boa aparência.

Os braquetes cerâmicos autoligados estão disponíveis em alumina policristalina ou monocristalina. Algumas conjunções de parte do braquete em cerâmica e outras em policarbonato apresentam uma série de limitações, como alteração de cor ou fragilidade no clip. Os autoligados estéticos têm agradado por não incorrer na alteração de cor da ligadura elástica, portanto são recomendados para pacientes que possuem uma dieta com alimentos ou bebidas com forte tonalidade5.

Em relação ao braquete metálico, o cerâmico possui de 20 a 40 vezes menos resistência à fratura. Enquanto a resistência à fratura do primeiro é de 80 a 90 MPa/m2, no segundo é de 3 a 5,3 MPa/m2, por exemplo6. Portanto, os braquetes cerâmicos não aceitam dobras em arcos de aço inoxidável na mesma magnitude das realizadas para ajuste de posicionamento de braquetes metálicos. Sendo assim, recomendo o uso de arcos de TMA (beta-titânio) por conter uma resiliência que possibilita o uso com dobras de finalização para tratamentos com braquetes cerâmicos. Mesmo a reversão de curva de Spee e a acentuação de torques podem ser mais incrementadas nos arcos de TMA, em comparação às realizadas com arcos de aço inoxidável.

Outro fator importante é a remoção dos braquetes. Uma lenda é a ocorrência de cisalhamento ou fratura durante a remoção dos braquetes cerâmicos. As características da adesão, juntamente com o comportamento do material, indicam maneiras diferentes de removê-los. Para a remoção dos braquetes metálicos, deve-se apertá-los para sofrerem deformação da base e, consequentemente, ocorrer a ruptura da interface resina-braquete. No caso dos cerâmicos, a compressão leva à fratura do braquete. Para suplantar essa dificuldade, o braquete cerâmico deve ser preso na base e, em seguida, o movimento de alavanca mesiodistal ou distomesial provoca seu descolamento e reduz o risco de fraturas.

 

Referências

1. Rosvall MD, Fields HW, Ziuchkovski J, Rosenstiel SF, Johnston WM. Attractiveness, acceptability, and value of orthodontic appliances. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2009;135(3):276. e1-12; discussion 276-7.

2. Birnie D. Ceramic brackets. Br J Orthod 1990;17(1):71-4.

3. Scott Jr. GE. Fracture toughness and surface cracks the key to understanding ceramic brackets. Angle Orthod 1988;58(1):5-8.

4. Eliades T, Eliades G, Brantley W. Orthodontic brackets. In: Brantley WA, Eliades T, editors. Orthodontic materials. Stuttgard: Thieme, 2001. p.151-69.

5. Angelieri F, Pinzan-Vercelino CRM, Gurgel JA. Braquetes cerâmicos: aspectos atuais e biomecânicos na clínica ortodôntica. In: Pinto T, Garib DG, Janson GRP, Silva Filho OG. (Org.). Pro-Odonto. 1a ed. Porto Alegre: Artmed Panamericana, 2015. p.69-118.

6. Bordeaux JM, Moore RN, Bagby MD. Comparative evaluation of ceramic bracket base designs. Am J Orthod Dentofacial Orthop 1994;105(6):552-60.
 

 

Júlio Gurgel

Doutor em Ortodontia pela FOB-USP; Professor do programa de mestrado acadêmico em Odontologia (Ortodontia) da UniCeuma, em São Luís/MA; Professor assistente doutor do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, campus de Marília; Coordenador do curso de especialização em Ortodontia da PUCMM, em Santiago de los Caballeros (República Dominicana).