Publicado em: 20/04/2018 às 12h00

Doença periodontal tem cura?

É possível curar as doenças periodontais ou só chegamos ao controle clínico? Marco Bianchini debate o tema.

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O paradigma da patogênese das doenças periodontais vem mudando nas últimas décadas. Apesar de constituírem uma família de doenças que diferem na sua etiologia, história natural, progressão e resposta à terapia periodontal, essas doenças têm uma cadeia de eventos ultraestruturais e histopatológicos comuns a todas elas, em que o biofilme dental estabelece a indução bacteriana do seu aparecimento. Além disso, os eventos comuns às doenças periodontais são marcadamente influenciados por fatores modificadores, tanto genéticos como ambientais ou adquiridos. Eles podem diferir de uma forma ou estágio de uma doença para outra, representando diferentes desafios à manifestação clínica da doença periodontal que esteja sendo modificada.

A remoção mecânica da placa supragengival e subgengival, como método de desestabilização do biofilme bacteriano de que é constituída, é um recurso eficaz e decisivo para o tratamento da gengivite e para a prevenção da instalação ou recidiva da periodontite. O hospedeiro, os fatores modificadores, a capacidade de defesa e o conceito de homeostase tecidual do periodonto devem permear o pensamento do clínico ao escolher a forma mais coerente de abordar o problema. O resultado disso é que procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos têm sido utilizados na Periodontia desde o século XIX, como uma compreensão do processo infeccioso que se quer debelar.

Todos esses conhecimentos levam a que se pense em uma abordagem associada à causa, em primeiro lugar, não cirúrgica. O debridamento mecânico não cirúrgico, isto é, raspagem e alisamento radiculares, juntamente com motivação e instrução de higiene bucal, constitui a base do tratamento relacionado à causa das doenças periodontais. Se bem realizada, a terapia periodontal não cirúrgica seria suficiente na maioria dos casos de periodontites. A preferência ou escolha por um determinado procedimento também depende do conhecimento da técnica, do acesso aos instrumentos, da tradição e do costume. Independentemente da forma ou abordagem clínica que escolhemos para tratar um paciente com problemas periodontais ou peri-implantares, o que nós desejamos – e também os pacientes – é que a doença desapareça. A saúde bucal e, obviamente a saúde geral, são os nossos objetivos quando realizamos qualquer tratamento. Embora a literatura seja rica em oferecer as mais variadas modalidades de recursos, o controle do biofilme ainda se mostra bastante eficaz para evitarmos a progressão da maioria das enfermidades periodontais que acometem os nossos pacientes.

Assim sendo, para muitos, as doenças periodontais são entidades crônicas que não são passíveis de cura, mas somente de um controle. Entretanto, após verificado que ambas as formas de terapia periodontal (cirúrgica e não cirúrgica) são efetivas em paralisar o processo infeccioso, o conceito de que a doença é curável já emerge. O fato de o paciente necessitar de manutenção periódica preventiva não deve significar necessariamente que a cura não foi atingida. Assim como tomamos banho todos os dias, promovendo a limpeza geral de nossos corpos e evitando que bactérias oportunistas se instalem, também as profilaxias e raspagens fazem esse tipo de prevenção nos nossos tecidos dentais e periodontais.
 

“Não acrescentareis nada à palavra que vos prescrevo, nem tireis nada dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando”. (Deutoronomio 4, 2)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br