Publicado em: 29/05/2018 às 11h00

Desvio de linha média dentária

O que pode tirar o sono de um ortodontista? Celestino Nóbrega reflete sobre o tema.

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Celestino Nóbrega relata fatores que podem tirar o sono dos ortodontistas. (Imagens: Shutterstock)

 

Alguma vez você já perdeu o sono? Eu já. É verdade que isso tem sido cada vez menos frequente em minha vida. Mas, há algum tempo, perdia o sono com muita frequência. Parece curioso, porém, durante um desses episódios de insônia, comecei a refletir exatamente sobre adivinha o quê? A insônia.

Acho que quando temos um episódio de insônia, de alguma forma entramos em um estado de torpor e narcolepsia, devido ao baixo nível de oxigenação cerebral. Como num passe de mágica, a ficção se mistura à realidade, fundindo devaneios inimagináveis com fatos já ocorridos em nossas vidas. Voltamos do transe sem saber se aquilo foi um devaneio ou fato consumado.

O curioso é que tanto a insônia como aquele maldito sono incontrolável proporcionam o mesmo efeito narcoléptico. Era mais ou menos isso o que eu sentia durante as aulas de Bioquímica no primeiro ano de faculdade. Sempre achei uma enorme sacanagem as aulas dessa disciplina serem no mesmo dia que tinha feijoada no bandejão   do diretório acadêmico (DA). Ou seja, o coordenador do curso de Odontologia obviamente não almoçava no DA e sequer mantinha reuniões pedagógicas com o Zezinho “tampa-de-chaleira” – empresário polivalente que atuava como cozinheiro, garçom, caixa, lavador de louças e cuidava do hediondo banheiro do DA 28 de março, da Faculdade de Odontologia de São José dos Campos. Em tempo: a testa do Zezinho vivia suada, daí a origem do seu apelido. Mas, ele era bastante querido por todos, especialmente quando no cardápio havia o famigerado filé 007 (frio e com nervos de aço) ou os croquetes à Uri Geller, que entortavam todos os talheres – essa somente os nascidos há pelo menos quatro décadas vão entender.
 


Resumindo, enquanto a professora de Bioquímica explicava, com requintes de crueldade, o ciclo de Krebs ou o Shunt das pentoses, eu ficava com o olhar fixo no medalhão dourado, que ricamente adornava o pescoço da mestra. Era impossível desviar o olhar. Outro dia vi um igualzinho no pescoço do meu amigo pessoal Austin Powers. Groovy!


Hoje entendo perfeitamente a didática da professora de Bioquímica: o medalhão tinha um inegável poder hipnótico. Ele balançava pra lá e pra cá, numa frequência pendular perfeita, que combinava com os sonoros passos dela no piso de madeira do anfiteatro. Havia uma ressonância que exacerbava o efeito e, consequentemente, levava todos os inocentes ouvintes a um transe coletivo. Era tudo muito bem arquitetado. Tanto é verdade que na reunião de 25 anos de formados da turma de 1984 todos os presentes foram capazes de desenhar o medalhão, mas ninguém se lembrava do tal ciclo de Krebs.

Sinceramente, não sei qual a situação de mais difícil controle: dominar o sono ou o riso em situações nas quais ambos seriam deselegantes. Rir quando não se deve, dormir quando não se deve, ou mesmo a tragédia do tipo combo, tal como na ocasião em que acordei subitamente rindo no meio do velório do tio Nagibe.

O sinal que identifica que você perdeu completamente o controle sobre a situação é quando você não se dá conta de que está com os olhos fechados, achando que mesmo assim está acordado e enxergando a tela de projeção. O incrível da adaptabilidade da mente humana é que você, mesmo dormindo profundamente, milagrosamente continua ouvindo o seu professor. E quando ele muda o slide você enxerga tudo sem precisar abrir os olhos. Quão maravilhoso, adaptável e poderoso é o cérebro humano!

Concordo que controlar o sono é uma tarefa hercúlea, porém desenvolvi uma técnica para controlar o riso que é infalível. Não, nada daquela ineficaz estratégia simplória e antiga de pensar em coisas tristes, como o fato de que o Palmeiras não tem título mundial ou quando o goleiro Marcos “frangou” na final em 1999. Minha técnica é muito mais elaborada. Por exemplo, outro dia, um cara que usava uma peruca ridícula me pediu uma informação no aeroporto. A peruca tinha um aspecto mais artificial do que groselha em garrafa de plástico. Pior, ele tinha a língua presa e ostentava um baita diastema entre os incisivos centrais posteriores. Quando ele falava a palavra informação, a língua escapava pelo diastema bem na sílaba “ção”. Ele parecia falar em câmera lenta. Naquele momento, numa fração de segundos, pensei comigo mesmo: “mas que sacanagem do  destino, estou sendo testado além daquilo que minhas forças podem suportar”. Pensei agindo rápido como um raio: “vou usar a tática do meu professor de Oclusão”. Bingo! Foi infalível.

Mas, qual é essa tática? A técnica requer muito treinamento, mas se você se concentrar e for perseverante, poderá se valer dela num momento desesperador.

Consiste basicamente em ignorar totalmente o interlocutor, como se ele fosse invisível ou mesmo não estivesse ali na sua frente. Bem, assim agiu o professor de Oclusão quando perguntei a ele o que é movimento de Bennet. Que estratagema maravilhoso e infalível é esse?

Basta concentrar o seu olhar em algum objeto ou ponto fixo que esteja num plano visual um pouco além da pessoa que tenta te desestabilizar. O olhar do professor de Oclusão era gélido e possuía o poder de atravessar a matéria, inclusive transpassando não somente matérias opacas e inertes como também qualquer ser humano. Como se fosse a visão de raio X do Clark Kent.

Faça você mesmo esse exercício com a sua sogra quando ela perguntar por que você não leva todos para almoçar e passear no shopping no domingo, em vez de filar a macarronada na casa dela. Fixe seu olhar no pinguim que está sobre a geladeira atrás dela ou no relógio de parede na cozinha, que marca o mesmo horário desde o dia em que você “contraiu matrimônio”. Importante: jamais estabeleça contato visual direto com a predadora. Você deve se portar como uma vítima dissimulada.

Agora, preste muita atenção. A estratégia só não funciona em duas situações específicas:

1. Com os vendedores de redes nas praias do Nordeste. Eles parecem ter o antídoto incorporado à prescrição das lentes dos óculos escuros, que invariavelmente usam, mesmo em dias nublados. O antídoto funciona tão bem que, do contrário, eles é que te ignoram quando você diz enfaticamente que não quer comprar a maldita rede. No final, você acaba comprando e inclusive achando que fez um excelente negócio.

2. Parece que os vendedores de fitinhas do Senhor do Bonfim, de Salvador, também descobriram o antídoto. Eu tenho um amigo que mora no Pelourinho e tatuou uma delas no pulso direito, e ficou imune. E me disse que criou coragem e vai tatuar o logo do Olodum no peito para o próximo verão, para não precisar mais comprar as camisetas.


Voltando ao assunto do sono incontrolável: dormir assistindo aula é fácil. Eu já dormi dando aula. Tento levar minha vida me baseando no princípio da humildade, mas tenho que confessar que guardo um orgulho enorme devido à incrível façanha de ter dado aula dormindo. O fato ocorreu quando eu era professor de um cursinho pré-vestibular durante a faculdade de Odontologia. Estava dando uma aula de química inorgânica na sexta-feira à noite e caí nos braços de Morfeu, mas a aula seguiu até o final. O pior: acho que os alunos nem perceberam. Ou seja, a aula foi mais chata do que os discursos do finado Fidel.

Como a maior parte das divindades do sono e dos sonhos, Morfeu é alado. Tem grandes asas rápidas, que batem sem fazer barulho e o levam num ápice aos confins da Terra. A droga morfina tem o nome derivado de Morfeu, visto que ela propicia ao usuário sonolência e efeitos análogos aos sonhos. A feijoada do DA tinha efeito “morfinógeno”.

Mas, o que isso tudo tem a ver com o título do texto: “Desvio de linha média dentária”? Ocorre que, de acordo com pesquisas recentes, autores concluíram que ortodontistas não são pessoas normais. Afinal, qual ser normal acorda subitamente no meio da madrugada se lembrando de um caso que ainda não finalizou devido a 0,5 mm de desvio de linha média? Bem-vindo ao clube da insônia.
 

Celestino Nóbrega (New York, 16 de abril de 2018, 1h59 da madrugada).

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.