Publicado em: 29/05/2018 às 11h50

Bisfenol em alinhadores: é preciso se preocupar?

Ao longo dos anos, tem-se observado uma série de cuidados relativos à liberação de BPA em produtos destinados ao consumo humano.

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O bisfenol é utilizado como componente de muitos desses materiais e dispositivos ortodônticos. (Imagem: Shutterstock)

 

O uso dos polímeros na Ortodontia trouxe inovações e mais estética aos aparelhos. Atualmente, estão presentes como componentes de resinas, adesivos, braquetes de policarbonato e nos alinhadores termoplásticos. Entre outros polímeros, o bisfenol A (BPA) é utilizado como componente de muitos desses materiais e dispositivos ortodônticos, por torná-los mais claros e resistentes. Porém, ao longo dos anos, tem-se observado uma série de cuidados relativos à liberação de BPA em produtos destinados ao consumo humano1.

 A ciência ortodôntica também está atenta à possibilidade da liberação do BPA por materiais utilizados na confecção de alinhadores termoplásticos ou aparelhos de contenção do tipo Hawley. Estudos mostram que o BPA se comporta, caso presente no organismo humano (tanto em adultos como em jovens), como um hormônio feminino (o estrogênio). Consequentemente, o desequilíbrio hormonal gerado pela contaminação com BPA afeta tanto homens quanto mulheres, ocasionando profundas alterações na saúde hormonal, reprodutiva e comportamental de ambos os sexos2.

Em virtude da maior exposição dos pacientes a resinas e adesivos, os pesquisadores da área de Ortodontia estão interessados em investigar o BPA liberado após o emprego desses materiais na cavidade bucal. Recentemente, tem-se recomendado cuidados, como a realização do bochecho ao final da colagem de braquetes, bem como após a colagem das contenções confeccionadas por fios aderidos em dois ou em seis dentes3.

Em decorrência da variabilidade de metodologias, as revisões sistemáticas sobre esse tema mostraram que os estudos são contraditórios quanto aos parâmetros qualitativos e quantitativos da liberação do BPA proveniente do uso de adesivos e selantes em pacientes submetidos a tratamentos odontológicos3,5.

Em recente publicação sobre a liberação do BPA em aparelhos de contenção, os autores descreveram ter detectado a presença de BPA em saliva de pacientes que utilizaram placas de contenção confeccionadas a vácuo (CCV), bem como aparelho removível do tipo Hawley (polimerização química e térmica). A quantidade liberada e presente na saliva estava dentro dos parâmetros aceitáveis6.

Durante o período de um mês, observou-se a redução na quantidade liberada. Embora sem significância estatística, foi identificada a menor liberação para os aparelhos CCV e as maiores quantidades para o Hawley de polimerização química7.

Tratamentos ortodônticos realizados com alinhadores termoplásticos têm se tornado mais frequentes e mais populares. Cada dia, um maior número de profissionais tem indicado essa modalidade de aparelho ortodôntico devido ao apelo estético da população. O principal componente dos alinhadores termoplásticos é o poliuretano – que pode ser ativado quando afetado por umidade, aquecimento e algumas enzimas presentes na cavidade bucal, o que propicia a liberação do BPA.

Um estudo8 avaliou a citotoxicidade e estrogenicidade dos alinhadres Invisalign (Align Technology, Santa Clara, Califórnia, Estados Unidos). Os resultados não foram capazes de indicar mensuráveis efeitos biológicos. Os autores concluíram que o período de análise foi curto, embora tenha sido mais longo do que o indicado em condições clínicas. Outra conclusão foi a constatação da estabilidade do poliuretano utilizado8. Sendo os alinhadores termoplásticos confeccionados com semelhantes tipos de poliuretano, pode-se inferir – e não afirmar – que esses achados podem ser utilizados para os demais alinhadores termoplásticos disponíveis no mercado.

Até o presente momento, as evidências científicas mostram que não há risco eminente na liberação do BPA para os usuários de alinhadores ou aparelhos de contenção termoplásticos. 

 

Referência

1. World Health Organization. Food and Agriculture Organization of the United Nations, International Food Safety Authorities Network, Bisphenol A (BPA) – current state of knowledge and future actions by WHO and FAO, Information Note No. 5/2009, Bisphenol A, 2009 [Online]. Disponível em: <http://www.who.int/foodsafety/ publications/bisphenol-a/en/>. Acesso em 10-4-2018.

2. [Online] Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/alimentos/embalagens/bisfenol-a>. Acesso em: 10-4-2018.

3. Eliades T, Hiskia A, Eliades G, Athanasiou AE. Assessment of bisphenol-A release from orthodontic adhesives. Am J Orthod Dentofac Orthop 2007;131(1):72-5.

4. Kloukos D, Pandis N, Eliades T. In vivo bisphenol-a release from dental pit and fissure sealants: a systematic review. J Dent 2013;41(8):659-67.

5. Kloukos D, Pandis N, Eliades T. Bisphenol-A and residual monomer leaching from orthodontic adhesive resins and polycarbonate brackets: a systematic review. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2013;143(4 Suppl):S104-12.e1-2.

6. Scientific opinion on the risks to public health related to the presence of bisphenol A (BPA) in foodstuffs. Panel on food contact materials, enzymes, flavourings and processing aids. EFSA Journal 2015;13:3978.

7. Raghavan AS, Sathyanarayana HP, Kailasam V, Padmanabhan S. Comparative evaluation of salivary bisphenol A levels in patients wearing vacuum-formed and Hawley retainers: an in-vivo study. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2017;151(3):471-6.

8. Eliades T, Pratsinis H, Athanasiou AE, Eliades G, Kletsas D. Cytotoxicity and estrogenicity of Invisalign appliances. Am J Orthod Dentofac Orthop 2009;136(1):100-3.