Publicado em: 29/05/2018 às 12h01

Nigel Harradine: um pé na pesquisa e outro na clínica

Em conversa com Júlio Gurgel, o britânico falou sobre braquetes autoligados, tratamentos ortodônticos e suas contribuições em pesquisas.

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Júlio Gurgel e Nigel Harradine conversaram sobre as novidades nos tratamentos ortodônticos. (Imagem: Jaime Oide)

 

O britânico Nigel Harradine é responsável por diversos artigos e pesquisas acerca dos sistemas de braquetes autoligados, dispositivos de ancoragem temporária, cirurgia ortognática e aparelhos ortopédicos. É reconhecido por sempre conectar suas linhas de pesquisa à própria prática clínica. Graduado em Odontologia e Medicina pelo Guys Hospital de Londres, na Inglaterra, ele foi entrevistado por Júlio Gurgel, doutor em Ortodontia, e falou sobre o uso de braquetes autoligados, as novidades em tratamentos ortodônticos e suas contribuições em pesquisas.

No extenso currículo de Harradine, constam mais de 450 palestras no Reino Unido e em países como Austrália, França, Malásia, Nova Zelândia, Estados Unidos, Brasil etc. Perto de se aposentar, ele nos apresenta um panorama geral da sua carreira e da evolução da Ortodontia. Acompanhe.  

 

Julio Gurgel – O que você pode nos falar sobre a sua experiência com braquetes autoligáveis? Por que optou por eles na sua prática clínica?

Nigel Harradine – Comecei a usar braquetes autoligáveis há 36 anos, em 1982. Sempre me interessei em testar novos equipamentos, que me pareçam interessantes. Para profissionais jovens, pode parecer estranho, mas isso não foi muito tempo depois da colagem direta se estabelecer no mercado. Aliás, essa inovação teve um impacto enorme, pois significava que poderíamos tentar coisas novas com muito mais facilidade. Quando comecei minha formação ortodôntica, estávamos chegando à época em que a maioria dos pacientes era tratada com aparelhos tipo banda. Quando o profissional queria mudar o braquete, tinha que trocar centenas de bandas. Porém, uma vez que surgiu a colagem direta, essas alterações ficaram mais simples de ser executadas.

Naquela época, no início dos anos 1980, houve algumas tentativas pioneiras com braquetes autoligáveis. A meu ver, se algumas delas funcionasse, substituiria as ligaduras elastoméricas, também recentes naquele tempo. Apesar de serem muito mais rápidas do que as ligaduras metálicas, decepcionavam nos quesitos atrito e durabilidade.

Com os aparelhos de arco reto, que também estavam aparecendo, os dentes talvez tivessem que ser movimentado com maior concentração de força. Mas, eu tinha muita experiência com o aparelho Begg, que era um braquete de atrito muito baixo e fazia com que os dentes se movessem muito facilmente. Foi quando pensei que valia a pena estudar e desenvolver a ideia, se pudéssemos combinar os benefícios do aparelho Begg, como a movimentação fácil, a falta de atrito e a resposta a forças leves, com o controle de um aparelho de arco reto. E ao que tudo indicava, os braquetes autoligáveis ofereciam essa possibilidade. Depois de todos esses anos, acho que eles realmente apresentam esse diferencial. Dizer que os braquetes autoligáveis podem dar o controle de um aparelho de arco reto, com a facilidade e liberdade de movimento do aparelho Begg, não é inteiramente verdade, mas é uma boa analogia – especialmente se você estiver falando na Austrália, onde eles ainda sabem utilizar bem o aparelho de Begg. Naquela época, não existia moldagem por injeção de metal e nem sistema CAD/CAM. Então, esses braquetes eram o limite do que se podia fazer com a engenharia. Os pontos negativos eram a fragilidade e a falta de controle, pois os clipes não eram suficientemente fortes, robustos e rígidos. Também é preciso lembrar que, naquela época, a única maneira de fazer um aparelho de arco reto era com técnicas de moldagem, fazendo inlays de cada um. Eu me lembro de visitar uma fábrica no México e ver as pessoas fundindo cada braquete com sprues, cortando e polindo à mão. Por isso, não é de se admirar que não fosse possível fazer braquetes autoligáveis realmente bons, mas parecia que o sistema valia a pena. Depois disso, acho que o marco seguinte foi em 1995. Escrevi um artigo com uma série de casos sobre braquetes autoligáveis, principalmente apresentando casos tratados com braquetes Activa – que foram projetados por Erwin Pletcher, inventor das molas de fechamento de espaço Pletcher. Fui convidado para falar num congresso norte-americano, em São Francisco (Califórnia), no qual destaquei os pontos positivos e negativos desses braquetes. Depois da minha palestra, várias pessoas vieram falar comigo, e uma delas foi o Dr. Hanson, que havia projetado o braquete Speed. Ele é um herói pouco valorizado quando se fala de braquetes autoligáveis. Também me recomendaram procurar por Dwight Damon, que estava usando braquetes Edgelok e tentando projetar braquetes autoligáveis melhores. E foi o que eu fiz. Ele me disse que estava tentando levar o projeto para frente, mas as empresas não estavam interessadas. Foi assim que começou minha jornada, testando quase todos os novos braquetes que ele tinha. Na verdade, tratei de casos com 15 tipos diferentes de braquetes autoligáveis, ativos, passivos e interativos. Hoje, acho que existem mais de 50 tipos à venda, e teremos muito mais com o tempo. Levou anos e anos para chegarmos ao cenário atual, com braquetes perfeitamente projetados.

 

Gurgel – Com que tipo de braquete você trabalha hoje?

Harradine – Nos últimos anos tenho usado quase que exclusivamente os braquetes Damon Q. Nada é bom o suficiente para mim, mas esse está muito próximo. O que eu gosto deles é que são fáceis de abrir e fechar e, mesmo assim, algumas vezes não abrem da forma desejada. Agora, o que poderia ser melhor é o desenho das aletas – e isso é um pequeno detalhe sobre esse tipo específico de braquete. Creio que poderiam ser um pouco mais profundos para, caso uma corrente no arco fosse colocada, ficasse mais retentiva. Acho que eles também poderiam ser um pouco mais próximos da base do dente, só uma fração. Nessa discussão sobre a qualidade dos braquetes, acho que o debate passivo versus ativo tem uma importância exagerada hoje em dia. Os fabricantes e consultores são unilaterais nos seus discursos. Em minha opinião, o relevante é saber se eles são fáceis de abrir e fechar, se eles abrem quando você não quer, se acumulam tártaro, se quebram, se é fácil de colocar correntes ao redor deles e auxiliares etc. Essas questões são, para mim, muito mais importantes do que se são passivos, ativos ou interativos.

 

Gurgel – É visível que você gosta de novidades e de novos estudos. Existem ideias que você começou a explorar ou nas quais gostaria de investir?

Harradine – Não tenho certeza se alguma vez dei início a uma mudança ou a um novo produto. Eu olho para eles atentamente, experimento e me permito pensar muito sobre o assunto. Há milhares de coisas novas o tempo todo, e algumas pessoas vão experimentar quase tudo, só porque é novidade e nunca vão tentar nada de novo, pois estão confortáveis com o que fazem. Há muitas inovações que surgiram e farão avanços significativos. Em minha opinião, os fios níquel-titânio (NiTi) foi uma delas, assim como os braquetes autoligáveis, os dispositivos de ancoragem temporária e os aparelhos funcionais mais modernos. Mas, uma coisa é certa: nada que surge é mágica. Por isso, se algo chega para promover uma mudança não definitiva, mas uma enorme melhoria, é importante questionar: qual é o problema? Qual o lado negativo? Um exemplo atual: são muitas as pesquisas sendo feitas para encontrar formas de acelerar a movimentação dentária. Temos ouvido falar de duas maneiras bem conhecidas, e uma delas é causar um dano na cortical óssea do dente, seja com ou sem retalho; por meio de perfuração ou osteotomia vertical. E a outra é usar dispositivo de vibração, que irá estimular as células da maneira certa para acelerar a movimentação dentária. Meu palpite é que, mesmo que as pessoas experimentem e desenvolvam esse método cirúrgico, nunca será mais do que para uma minoria de 10% a 20% do mercado, porque é muito desconfortável, invasivo e desagradável. Eu acho que isso não vai vingar. Por outro lado, se alguém puder mostrar a eficácia de colocar algo que vibra entre os dentes por 20 minutos diariamente, o que não custa muito e não é tão invasivo, e desde que não se cobre muito por isso, é uma ideia que poderia ir para frente. Acho que todos os avanços devem ser pesados e avaliados, comparando o potencial de cada um com as desvantagens. Nessa área, talvez nenhuma nova tecnologia chegue a ter sucesso, mas se é para eleger um dos avanços, escolho a vibração, porque é agradável e é semelhante aos dispositivos de ancoragem temporária. Não acho que as miniplacas – apesar de terem um papel importante para certas aplicações – algum dia serão o principal tipo de dispositivo de ancoragem temporária, porque são muito mais invasivas para serem colocadas e retiradas do que o processo simples e confortável de inserção e remoção do miniparafuso. Em síntese: temos que observar se as inovações em relação à vibração e às miniplacas valem o esforço. Hoje, temos disponíveis muitos dados sobre os miniparafusos, mas nenhum volume relevante de informações sobre se as vibrações fizeram os dentes se moverem mais rapidamente. O que temos em mãos são somente alguns relatórios preliminares interessantes.

 

Gurgel – Em uma perspectiva histórica, qual foi a sua melhor contribuição para a Ortodontia britânica?

Harradine – Tive sorte, fiz bastante coisa diferente. Dei muitas aulas, tratei muitos pacientes e fiz parte de diversas comissões – fiz muitas coisas e gostei de todas elas. Sempre fui um clínico que gosta de outras atividades além do consultório. Minha preferência foi usar o tratamento dos pacientes como base para tudo o que faço fora da clínica. Para qualquer pesquisa ou interpretação de pesquisa é preciso que o profissional tenha tratado pacientes, para ter base de mensuração nos  estudos. Algumas pessoas que se sobressaem na pesquisa não são muito boas – na minha humilde opinião – em enxergar os pontos fortes ou fracos em relação a como de fato aquilo pode ajudar na prática clínica. Tento plantar a ideia de que todos os clínicos devem desenvolver a capacidade de olhar de forma crítica, com sabedoria e com conhecimento, para todas as pesquisas e reivindicações dos fabricantes. Eles devem ser consumidores atenciosos, exigentes em relação aos resultados e sempre pensar nos benefícios para o paciente. Acredito, também, que eles devam constantemente incentivar os pesquisadores e os fabricantes a enxergar a verdadeira raiz da questão com a visão de um clínico. Uma das dificuldades em pesquisa é que, para o pesquisador, o principal resultado é um artigo publicado, depois, o próximo resultado é outro artigo publicado, e por aí vai. A verdadeira e precisa interpretação no que se refere a tratar pacientes é impossível para um pesquisador. Quanto aos fabricantes, acredito que o difícil é dar a eles um feedback honesto e imparcial. Penso que sempre tentei falar com eles objetivamente. Tento incentivar os clínicos a serem honestos com os fabricantes, convencendo-os a serem mais precisos em seus feedbacks sobre os produtos.

 

Gurgel – O que você pensa sobre o tratamento em uma ou duas fases em pacientes jovens, por exemplo, classe II ou classe III?

Harradine – É preciso definir o que significa uma ou duas fases porque, na minha experiência, são coisas distintas para pessoas diferentes. Para alguns, um tratamento de duas fases é usar um aparelho funcional antes e um aparelho fixo depois. É possível fazer a primeira fase com oito ou nove anos de idade e a segunda fase com 12 ou 13 anos de idade. Eu sinto que raramente há um benefício clínico, e a principal razão para fazer isso é financeira. Mas, se você quer dizer que um tratamento de duas fases é colocar um aparelho funcional e imediatamente depois colocar um aparelho fixo, então, na verdade, são dois aparelhos em um único curso de tratamento – o que até recentemente era muito recomendável. A maior parte das evidências na literatura e na experiência clínica mostra que a idade de 11-12 anos é a melhor para começar um tratamento com aparelho funcional e fixo. Claro que nos últimos anos um relevante desenvolvimento técnico foi o aparelho funcional fixo, que permite um tratamento completo e simultâneo. Essa tem sido a principal opção do mercado, e eu cheguei a usar. Mas, você não pode fazer um tratamento completo com aparelho fixo simultaneamente a um aparelho avançado. Hoje, existem aparelhos funcionais fixos de molar a molar, sendo possível colocá-los junto com um aparelho fixo e, assim, fazer duas fases em uma. Talvez, daqui a alguns anos, sua pergunta seja história antiga, porque ninguém vai usar aparelhos funcionais fixos ou removíveis, já que os dois podem se tornar completamente integrados. No entanto, acho que usar dois aparelhos, desde que eles estejam intimamente integrados, pode fazer muito sentido.

 

Gurgel – Qual a sua opinião sobre a Ortodontia brasileira?

Harradine – Estou impressionado com o tamanho e o alcance dos produtos ortodônticos no País e também com o número de pessoas fazendo um bom trabalho. Há muita energia positiva e esforço nessa área. Mas, acho que talvez o Brasil precise falar um pouco mais alto no mundo.