Publicado em: 08/06/2018 às 10h15

Obesidade e doenças periodontais

Marco Bianchini alerta para a importância da manutenção de níveis adequados do biofilme supragengival em pacientes obesos.

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A obesidade é um significante fator de risco para numerosas enfermidades do adulto e, atualmente, tem sido relacionada às doenças periodontais. Isso aconteceu porque ela é associada à disfunção imunológica e desregulação da resposta inflamatória. Contudo, os mecanismos envolvidos nessa relação ainda não estão totalmente esclarecidos, sendo necessários estudos que envolvam biologia molecular para melhor entendimento de tal associação, assim como estudos longitudinais que possam melhor caracterizá-la. Mesmo assim, não há como não inseri-la no contexto das enfermidades que norteiam a Medicina periodontal.

A obesidade é uma doença crônica complexa multifatorial, em que o indivíduo apresenta índice de massa corporal (IMC) de 30 kg/m2, sendo seu desenvolvimento relacionado à interação genética e ao ambiente, como desordens endócrinas e/ou metabólicas, estilo de vida, dieta desfavorável e sedentarismo. Outra característica associada à obesidade é a alteração na medida da circunferência abdominal (CA), que para os homens saudáveis deve estar em torno de 102 cm e, para as mulheres, em torno de 88 cm.

Nas últimas décadas, pesquisadores da obesidade vêm se interessando pela sua relação com as doenças periodontais, pois alguns estudos epidemiológicos apontam a obesidade como um possível fator de risco para as doenças periodontais. Os resultados demonstram que pacientes obesos têm risco cerca de três vezes maior para desenvolver periodontite.

Entre as alterações periodontais associadas ao aumento do índice de massa corporal (IMC) estão: o sangramento gengival, um dos primeiros sinais clínicos de inflamação; e o aumento de profundidade da sondagem, que vem se destacando como característico de inflamação tecidual relacionada à obesidade. Alguns autores documentaram que para cada 1 cm aumentado da circunferência abdominal (CA), houve um aumento de 5% no risco de desenvolver periodontite.

Não estão totalmente definidos os mecanismos biológicos que estabelecem a fisiopatogenia entre obesidade e periodontite. Usualmente, esta inter-relação tem sido baseada na liberação de citocinas e hormônios pelo tecido adiposo, que alteram a resposta inflamatória tecidual. O tecido adiposo é um órgão endócrino ativo que também secreta uma variedade de citocinas pró-inflamatórias, que podem ser chamadas de adipocinas. Entre elas, estão a TNF-, IL-6 e IL-8, que são prevalentes na resposta inflamatória e secretadas em uma quantidade proporcional ao tecido adiposo existente. Na presença de periodontite, a gordura corporal aumentada pode estimular a ocorrência de uma hiper-resposta inflamatória nos tecidos periodontais, pela liberação dessas citocinas em maior quantidade.

Outra constatação interessante é a hipótese – embora ainda não totalmente comprovada – de uma relação de mão dupla entre a obesidade e as doenças periodontais. Dentro deste contexto, observa-se que o índice de massa corporal (IMC) tem sido associado positivamente à periodontite em pacientes não fumantes, não diabéticos e com idade entre 30 e 49 anos. Essa relação pode ser bidirecional, na qual não fumantes que possuíam perda de inserção periodontal severa tinham alto risco de obesidade e sobrepeso.

Desta forma, uma vez detectado o paciente obeso, este deve receber uma avaliação periodontal criteriosa, buscando identificar se a higiene oral se encontra adequada e em níveis compatíveis com a saúde. Assim, reduz-se a colonização de possíveis periodontopatógenos e se torna possível identificar sinais clínicos de inflamação periodontal, como sangramento gengival e aumento da profundidade de sondagem, o que determinará uma intervenção precoce, evitando-se perdas teciduais severas. Portanto, consultas regulares ao periodontista devem ser indicadas para auxiliar na manutenção de níveis adequados do biofilme supragengival, o que resultaria na redução dos riscos de desenvolvimento de doença periodontal em pacientes obesos.

 

Fonte: Bertolini PFR, Biondi Filho O, Pomilio A, Alves PEV. Doença periodontal e obesidade: existe alguma relação? Rev. Ciênc. Méd. Campinas 2010;19(1-6):65-72.

 

“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado. O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós.” (1 Pedro 1, 18-20)


 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br