Publicado em: 15/06/2018 às 13h38

Periodontite e doenças pulmonares

Os avanços científicos revelam a importância do tratamento periodontal na prevenção e na melhora da condição sistêmica do paciente crítico.

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Na semana passada, abordamos a inter-relação entre a obesidade e as doenças periodontais. Devido à interessante repercussão que este tópico provocou, resolvi continuar falando sobre este tema que abrange a Medicina periodontal. Hoje, iremos falar sobre a relação entre as doenças pulmonares e a periodontite. Alguns autores vêm demonstrando que o aumento do nível de perda óssea alveolar existente na doença periodontal parece estar associado ao maior risco de doença pulmonar, em que a destruição dentária, a presença de bactérias cariogênicas e os patógenos periodontais são potenciais fatores de risco para a pneumonia.

Observando a história das evidências científicas sobre a inter-relação das doenças periodontais com as doenças pulmonares, vale a pena ressaltar uma citação publicada1: “Neste momento, eu desejo enfatizar somente o fato de que a pneumonia tem sua origem por uma bactéria bucal, e os micrococcus da pneumonia não somente proliferam na temperatura normal do ar, mas – e o que é mais importante – logo perdem sua virulência quando cultivados fora do corpo, mesmo sob as mais favoráveis condições, o qual se supõe outra forte razão de que na pneumonia a boca, e não o ar, é a origem direta da infecção”. Assim, observamos que não é recente que a cavidade bucal tem sido observada como origem de infecções pulmonares.

Atualmente, estas interações entre doença periodontal e doenças pulmonares ocorrem com mais frequência em pacientes internados, já com a sua condição de saúde geral debilitada2. Quando a condição respiratória do paciente deteriora a ponto de ser necessária a intubação, recursos como a ventilação mecânica podem levar o paciente a um risco de microaspiração de patógenos até o trato respiratório inferior. O tubo orotraqueal por si só proporciona uma superfície inerte na qual as bactérias podem aderir, colonizar e crescer, formando biofilmes de onde posteriormente poderão ser broncoaspiradas. Em face à realidade de que todos os indivíduos desse grupo podem ainda possuir periodontopatias, essas podem agravar ainda mais uma condição sistêmica pré-existente e influenciar o curso das infecções respiratórias, em especial as pneumonias.

Outra constatação importante é que, mesmo que as bactérias usualmente responsáveis pelo estabelecimento da pneumonia associada à ventilação mecânica não sejam membros comuns da microbiota oral e orofaríngea, esses organismos podem colonizar a cavidade oral em algumas situações, como na precariedade de saneamento básico, assim como no caso de idosos em casas de repouso e de pacientes internados em UTIs. Desta forma, o problema parece se alastrar para além dos casos de pacientes internados.

Os avanços científicos revelam a importância do tratamento odontológico, principalmente periodontal, na prevenção e/ou melhora da condição sistêmica do paciente crítico. Isso indica que problemas bucais podem atuar como foco de disseminação de microrganismos patogênicos com efeito metastático sistêmico, especialmente em pessoas com a saúde comprometida. A única saída para estes casos é a prevenção pela ação do cirurgião-dentista que, através dos procedimentos de raspagem coronorradicular, raspagem de implantes dentários, profilaxia bucal e instrução de higiene oral, consegue controlar o biofilme.

A colonização bucal pelos patógenos respiratórios parece ser um indicador, ou até mesmo um fator de risco, para a infecção pulmonar. As intervenções bucais que melhoram a higiene bucal – e, possivelmente, reduzem a inflamação bucal – são simples, baratas e efetivas para diminuir o risco de pneumonia em populações institucionalizadas. Levando-se em consideração o aumento da expectativa de vida, além do fato dos pacientes idosos estarem mais propensos a estes episódios, constatamos aqui que indivíduos portadores de implantes dentários, também sujeitos a ação de bactérias e ao aparecimento da peri-implantite, reforçam a ideia da necessidade das manutenções periódicas periodontais e peri-implantares que controlam o biofilme.

 

“Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: não te deixarei nem te desampararei. E assim com confiança ousemos dizer: o Senhor é o meu ajudador, e não temerei o que me possa fazer o homem.” (Hebreus 13,5-6)

 

Referências

  1. Miller WD. The human mouth as a focus of infection. Dental Cosmos 1891;9:689-713.
  2. Brasil LO. Medicina Periodontal na atualidade. [trabalho de conclusão de curso]. Piracicaba: Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Odontologia de Piracicaba; 2017.

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br