Publicado em: 10/09/2018 às 16h16

As rodas do Opala e o perfeccionismo germânico

Qual a ligação entre um treinamento para casos ortodôntico-cirúrgicos com ganhos estéticos e um velório? Celestino Nóbrega conta em mais um de seus "causos".

  • Imprimir
  • Indique a um amigo
Um arranhão no paralamas dianteiro do Opala do Euriclenes virou um pesadelo para Celestino. (Imagem: Shutterstock)

 

Meu irmão é engenheiro e resolveu estudar na Alemanha, uma grande e esplendorosa nação reconhecidamente marcada pela apologia à perfeição. A busca pela educação primorosa é um verdadeiro paradoxo, pois meu irmão é “curintiano” convicto.

Um trabalho científico, recentemente publicado, descreve a incapacidade do típico cidadão alemão de se desligar das preocupações, não aproveitando os momentos de lazer. Concluiu-se que, por questão de cunho genético, com o passar das gerações, eles se esqueceram de como se divertir – mesmo depois do 7 x 1, segundo a psicóloga Ines Imdahl.

Em suma, os pesquisadores concluíram que o principal inimigo contra a diversão é o perfeccionismo germânico. E o mais incrível: mesmo durante o sexo, uma expressiva porcentagem dos entrevistados revelou não conseguir se concentrar apenas no momento de intimidade, sendo constantemente e repentinamente interrompidos por imagens mentais de anúncios de publicidade relativos à perfeição alemã, indica o periódico Der Spiegel.

O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) acomete cerca de 2% da população, sendo caracterizado pela presença de pensamentos e/ou comportamentos repetitivos e intrusivos que causam desconforto. Com descrições datando da Idade Média, o TOC teve a sua etiologia atribuída aos mais variados fatores, que vão desde “possessão demoníaca” até prejuízo na circulação cerebral (Ball, no final do século 19) e conflitos emocionais da infância (Freud, no início do século 20).

Não acho que meu irmão tenha sido possuído pelo demônio, tampouco tenha sofrido algum trauma mecânico que prejudicou sua circulação cerebral. Resta o fator freudiano: conflitos emocionais da infância. Talvez ele realmente tenha sido sacaneado por mim e pelo meu irmão mais velho, mas o cara é hoje um baita profissional. Ou seja, o bullying teve um efeito no mínimo interessante.

É bem verdade que ele tem umas manias pouco ortodoxas. Por exemplo, é fanático por rock e possui uma coleção de long plays em vinil dignas do Rock & Roll Hall of Fame, de Cleveland (Estados Unidos). Meu irmão ouve os discos iniciando pelo lado A e terminando pelo lado B, mas talvez não seja sintoma de TOC, apenas uma obediência quase que inconsciente à sequência lógica e subliminar.

Porém, pasme agora com um verdadeiro sintoma patognomônico de TOC: ele ouve os LPs em sequência alfabética. Por exemplo, se ele acordou com vontade de ouvir Bohemian Rhapsody, do Queen, terá que ouvir todos os outros discos na sequência alfabética! Tem que ouvir desde AC/DC, passando por Black Sabbath, Credence, Deep Purple etc., levando talvez uns bons meses até chegar no Queen. Na verdade, acho que até hoje ele nunca conseguiu chegar no ZZ Top.

O caráter repetitivo e rígido dos sintomas obsessivo-compulsivos há muito tempo chama a atenção dos estudiosos, sugerindo um controle cognitivo inadequado, assim como relações entre tal sintomatologia e outros comportamentos estereotipados que se desenvolvem em doenças neurológicas. Os fenômenos obsessivos podem ocorrer esporadicamente em pessoas normais, que facilmente se desvencilham deles – o que não acontece com o indivíduo com TOC. Voltar várias vezes à porta para conferir se ela foi devidamente trancada pode ser considerado apenas um fenômeno obsessivo, não significando que o indivíduo necessariamente seja portador de TOC. Portanto, fique tranquilo: seu caso ainda tem salvação, apesar de você ser ortodontista.

Levando-se em conta que o TOC atinge 2% da população e no Brasil temos mais de 200 milhões de habitantes, há potencialmente 4 milhões de pessoas acometidas pelo dito transtorno. Como 15% da população mundial de cirurgiões-dentistas é oriunda da terra brasilis, a probabilidade de você conhecer um colega com TOC é muito grande.

Tenho um amigo ortodontista que tem TOC. Aí você poderá me dizer: e daí, quem é que não conhece um ortodontista pirado? Tudo bem, concordo plenamente. Mas, esse meu amigo literalmente passou dos limites. Vou utilizar um pseudônimo para ele, chamando-o de Euriclenes daqui por diante.

Para entender a profundidade do universo epilético-freudiano-obsessivo-compulsivo do meu amigo, vou citar agora algumas das suas façanhas. Ele é aficionado por carros antigos e tem um Opala ano 1974 impecável. O Euriclenes limpa as aletas de refrigeração do radiador do Opala com cotonetes. Acredite ou não, pois o fato é verídico: as rodas do Opala têm cinco furos, sendo que as porcas que prendem os pneus da frente deveriam estar sempre alinhadas com as dos pneus de trás. Além disso, todas as fendas de todos os parafusos do carro deveriam estar sempre na horizontal. Duvido você conhecer um ortodontista mais maníaco que ele.

Certa noite modorrenta de calor infernal em Pindamonhangaba (SP), eu tive um terrível pesadelo no qual eu tinha arranhado o paralamas dianteiro do Opala do Euriclenes e ele havia me torturado até a morte, colando com superbonder minhas orelhas em um fone de ouvido de um Ipod que tocava pagode sem parar. Sonhei que eu lutava bravamente para não morrer, mas a última e derradeira música não era pagode, mas sim uma bossa-nova entoada pelo trio Caetano Veloso, Chico Buarque e Paulo Ricardo (ex-RPM). Aí o choque foi demasiado, eu não aguentei e, no sonho, morri.

Ao acordar, eu me dei conta de que um dia vou morrer. Imediatamente eu tive uma ideia genial de aplicar os conhecimentos de ortodontista para organizar meu velório de forma antecipada. Isso mesmo, porque na época eu havia acabado de fazer um treinamento para casos ortodôntico-cirúrgicos, no qual o paciente pode se beneficiar de ganhos estéticos e funcionais através de cirurgia ortognática antecipada, mesmo antes de completar o ciclo de crescimento e desenvolvimento craniofacial. Surgia, então, o conceito do “velório antecipado”.

Explico me colocando no lugar do defunto para que possa me expressar melhor: acho incrível que os amigos nunca se encontrem, a não ser quando um deles morre e todos – ou, melhor, quase todos, pois um morreu – vão ao velório. Assim sendo, concluo que, quando eu morrer, dificilmente participarei ativamente do meu velório, ou seja, perderei uma grande oportunidade de encontrar amigos que há muito tempo não tenho visto e vou perder uma grande chance de me divertir com eles.

Como diz meu amigo Pedrão (já citado em algumas de minhas crônicas), a bebida pode matar e, se você morrer, irá perder uma parte muito importante da sua vida. Caso eu ainda viva por muitos anos, vários amigos já estarão mortos e não poderão participar do meu velório porque os desgraçados bebem pra caramba. Quanto mais eu penso, mais vantagens eu enxergo no estratagema do velório antecipado.

Imagine só que legal: muitos amigos reunidos, contando piadas, se lembrando das histórias engraçadas e das peripécias realizadas na época da adolescência, da faculdade etc. E o morto ali, vivinho da Silva. Inclusive, o defunto (vivo) pode até mesmo ajudar a carregar seu próprio caixão, acender as velas, receber e agradecer pelas coroas de flores. Problem solved.

No cardápio, previamente escolhido pelo futuro defunto, terá torresmos, coxinhas e pão com mortadela (para que o velório seja livre de qualquer viés político), cerveja gelada tipo canela de pedreiro, groselha (para este futuro morto que vos escreve), cachaça, aromatizador de ambientes universitário e conhaque Macieira para os mais fortes. E digo mais: se alguém beber até morrer, o velório já está pronto. Superprático.

E o mais interessante de tudo: depois de uma noite inteira do divertido velório, com altos papos, muita música, comilança e bebedeira, o morto (vivo) volta para casa numa boa e pode morrer tranquilamente, de preferência, muitos e muitos anos depois do velório antecipado. Assim que eu marcar a data, te mando o convite.

 

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.