Publicado em: 10/09/2018 às 16h45

Odontologia entrelaçada: a interdisciplinaridade é essencial em casos complexos

A Ortodontia ganha mais força atuando de forma integrada à Implantodontia, Periodontia e Prótese Dentária.

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Por Cecilia Nery


Nos tratamentos ortodônticos complexos, a busca por função e estética é uma constante. Os pacientes adultos com extensos problemas são cada vez mais comuns nos consultórios e representam um desafio para alcançar soluções duradouras, daí a importância de planejar e envolver uma equipe multidisciplinar, com a atuação de diversas áreas da Odontologia, como Periodontia, Prótese Dentária e Implantodontia.

De acordo com Juliana Romanelli, mestra em Prótese Bucomaxilofacial, as especialidades se complementam, interagem e promovem resultados muito acima do esperado. Por exemplo, a Ortodontia minimiza desgastes excessivos na reabilitação protética, reposicionando os dentes de forma mais nivelada e confirmando sua importante relação com a Prótese Dentária. “Em outra situação estão as cirurgias periodontais e os recobrimentos radiculares, que visam proteger a parte radicular exposta, além de recuperar a estética e a altura original da coroa dentária, evitando uma restauração que envolva o colo dentário com resinas ou similares”, afirma, ao mostrar a correlação entre Periodontia e Dentística.

Figura 1 – Caso preparado ortodonticamente para a recepção de enxerto gengival.

 

Figura 2 – Pós-operatório de 30 dias. 

 

Imagens cedidas por Juliana Romanelli.

 


Partilhando desse mesmo ponto de vista, Flavio Falcão Bauer, mestre em Ortodontia, lembra que o primeiro passo é a análise do paciente com um todo, levando-se em consideração a sua idade. Para Bauer, o atendimento com enfoque multidisciplinar tem um espectro de amplo olhar, tendo em vista que o paciente pode apresentar doença periodontal ativa, requerer próteses, necessitar de cirurgia ortognática como procedimento terapêutico inicial ou de retoques estéticos ao final do tratamento, entre outras tantas demandas.

Sendo assim, a partir da interdisciplinaridade e da efetiva comunicação entre os profissionais, os resultados são mais previsíveis e funcionais em logo prazo – sempre com o objetivo principal de habilitar o paciente para mastigar, deglutir, falar e respirar dentro da fisiologia de normalidade, além de atingir a estética desejada.
 

Figura 1 – Início do caso com perda dos dois incisivos centrais.

 

Figura 2 – Tracionamento ortodôntico para ganho ósseo e gengival prévio ao implante, com a melhora da estética e das estruturas de suporte para o implante.

 

Figura 3 – Durante a fase cirúrgica, quando o elemento condenado é removido e o implante é instalado.

 

Figura 4 – Pós-tratamento ortodôntico.

 

Figura 5 – Caso finalizado.

 

Imagens cedidas por Juliana Romanelli.

 


Confiança

A aceitação de tratamentos interdisciplinares é importante tanto para os cirurgiões-dentistas envolvidos no caso quanto para o paciente. O primeiro profissional procurado deve se posicionar e orquestrar o tratamento, pois, via de regra, é nele que o paciente mais confiará. Vale atentar para o fator financeiro não ser um empecilho, pois a prática interdisciplinar encarece o processo terapêutico. Por esse motivo, é fundamental que o cirurgião-dentista explique a importância do trabalho conjunto, falando sobre as vantagens, e faça a indicação dos profissionais que irão atuar no caso.

Para Pedro Paulo Feltrin, doutor em Clínicas Odontológicas, de modo geral, os pacientes têm compreendido que, para atingir a excelência no tratamento, torna-se imprescindível o correto diagnóstico e um planejamento bem elaborado. Feito isso, o resultado será previsível e seguramente será restabelecido o equilíbrio funcional, que oferecerá estabilidade e longevidade.

Após a aceitação de ambas as partes, começa um novo desafio: a comunicação efetiva entre os envolvidos no tratamento. “A melhor sequência terapêutica deve ser designada desde o início, e o respeito entre os executores deve ser mantido ao longo do processo. Sempre sugiro trabalhar com profissionais de confiança, pois a finalização do caso depende muito da capacidade clínica e científica de todos. Uma vez determinada a sequência terapêutica, todos os profissionais precisam acompanhar o percurso do tratamento”, detalha Ana Carla Raphaelli Nahás Scocate, coordenadora do programa de pós-graduação em Ortodontia da Universidade Guarulhos (UnG).

Ao dar andamento às práticas clínicas, Ana Carla lembra que a tomografia computadorizada de feixe cônico sofistica o diagnóstico e, por conseguinte, o plano de tratamento, enquanto as tomadas radiográficas periapicais também devem ser obtidas a cada seis meses, em média, para verificar a manutenção ou melhora do componente ósseo alveolar. Já a definição do plano oclusal reabilitador deverá ser consenso entre os membros da equipe, principalmente em casos de perdas múltiplas, cuja definição compreenderá a chave para a solução do caso de forma mais simples. Neste sentido, a colocação de próteses sobre implantes pode ser executada durante o tratamento, auxiliando na movimentação dentária induzida.

Ela ressalta que o paciente adulto geralmente apresenta problemas periodontais, por isso o diagnóstico preciso dessas alterações é mandatório antes de iniciar o tratamento ortodôntico. Posteriormente, os controles periodontais devem ser trimestrais ou quadrimestrais, acompanhados de sondagem periodontal e radiografias periapicais de boca toda, que complementam as informações provenientes das demais radiografias convencionais da documentação ortodôntica e da avaliação clínica.

Paciente com periodontite crônica. Após tratamento periodontal e estabilidade dos parâmetros clínicos periodontais, foi realizado tratamento ortodôntico. Após o término da movimentação ortodôntica, foram inseridos implantes na região do 14, 16, 25, 26 e provisórios nos dentes superiores (16 ao 26) e inferiores posteriores. O próximo passo é a reabilitação com próteses definitivas. (Caso clínico enviado por Flavio Falcão Bauer e cedido por Cássio Volponi Carvalho).


 

Especialidades

Ao contrário do que muitos pensam, em Ortodontia não são raros os casos que necessitam do envolvimento de mais de uma especialidade. Segundo Juliana, os pacientes jovens, sem mutilações ou perdas, com todos os dentes e demais estruturas de suporte presentes na boca, normalmente representam situações que são resolvidas somente com a Ortodontia.

Já os casos de perdas de elementos dentários com descaracterização do espaço protético ou cirúrgico, sobretudo em áreas com grande demanda estética, exige a interação da Ortodontia, Implantodontia e Prótese Dentária. Vale destacar que os demais pacientes adultos, de maneira geral, sempre necessitam de, no mínimo, uma interação com a Dentística e a Periodontia. “As relações interdisciplinares devem garantir a saúde do periodonto previamente ao tratamento ortodôntico, já que ele é responsável pelas movimentações dentárias. Em casos complexos, o sucesso da reabilitação está intimamente relacionado ao envolvimento de várias especialidades, de preferência com profissionais em harmonia com a mesma filosofia de tratamento”, afirma Juliana.

Nas próteses dentárias, a abertura de espaços, a verticalização de elementos ou o fechamento de espaços permitirão uma estética agradável. Para os implantes, a verticalização das raízes e os espaços inter-radiculares são essenciais. “O segredo do êxito é o trabalho de uma equipe afinada e entrosada para o bom andamento do caso”, explica Bauer.

Em resumo, quando há necessidade de recuperação de espaço para restabelecer forma e função dos dentes, seja com próteses sobre dentes naturais ou sobre implantes, será importante recorrer ao tratamento integrado de especialidades odontológicas. Feltrin cita como exemplos os realinhamentos tridimensionais do grupo de dentes anteriores e posteriores; fechamento de mordidas abertas, recuperando a função do guia anterior nos movimentos excêntricos mandibulares (protrusiva e lateralidade com desoclusão dos dentes posteriores); intrusões e extrusões de raízes ou dentes naturais para restabelecer planos de oclusão funcionais; e harmonização do sorriso pós-tratamento, oferecendo a correta proporção entre estética vermelha e estética branca. “O resultado será um tratamento célere, seguro e eficaz, com previsibilidade e otimização na execução do planejamento clínico – ou seja, o paciente e o profissional saem ganhando”, garante Feltrin.

A equipe envolvida no caso deve trabalhar para atender às expectativas dos pacientes, estabelecendo limites e critérios adequados baseados em evidências científicas. Hoje, o sucesso no tratamento odontológico é sinônimo de atuação de um grupo integrado de especialistas, desde o planejamento até a execução e finalização do caso.

A interdisciplinaridade é um assunto muito debatido na Odontologia do mundo todo e, embora esteja presente em discussões de congressos, ainda é pouco abordado nos cursos de capacitação. Como resultado, o especialista recém-qualificado tem muitas dúvidas e poucas referências formadas.

Para Juliana, outro fator que dificulta a disseminação desse conceito entre os jovens dentistas é a comodidade de protocolos engessados aprendidos durante o ensino, levando o aluno a uma zona de conforto e implicando na formação de profissionais desqualificados e desatualizados. “Em contrapartida, a busca pela diferenciação no mercado de trabalho tem conduzido os especialistas, em especial o ortodontista, para o estudo de diversas áreas que não sejam a sua. Se as instituições de ensino já abordassem a multidisciplinaridade, com ênfase em planejamento de casos desde o início, isso repercutiria diretamente na vida clínica e no sucesso profissional dos especialistas”, conclui.
 

Paciente com dente 11 condenado. Foi realizada extrusão ortodôntica lenta com o intuito de tracionar o dente 11, juntamente com tecidos gengival e ósseo. Tal recurso pode beneficiar o resultado estético da reabilitação com implantes. Após o término da extrusão e contenção, foi realizada a instalação do implante associada a enxertos ósseo e de tecido conjuntivo. Aspecto após três meses da instalação da prótese com pilar personalizado do 11 e laminados cerâmicos no 12, 21 e 22. (Caso clínico enviado por Flavio Falcão Bauer e cedido por Cássio Volponi Carvalho).