Publicado em: 19/10/2018 às 13h06

Encontro da EAO tem trabalho brasileiro entre os destaques

Marco Bianchini ressalta a importância de painel que abordou dificuldade de higienização em pacientes com reabilitação implantossuportada.

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Na semana passada aconteceu em Viena, na Áustria, mais um encontro da Academia Europeia de Osseointegração, que todos nós conhecemos como EAO. Como não poderia ser diferente, a nova classificação das doenças peri-implantares foi objeto de muitas discussões e apresentações. Muitas universidades brasileiras apresentaram seus trabalhos lá, na forma de apresentações orais e painéis. Nós, aqui da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), também apresentamos alguns trabalhos. Dentre eles eu destaco aquele que trata de um tema que tem relação direta com esta nova classificação das doenças peri-implantares (clique aqui para ler o trabalho).

O painel abordou a qualidade de vida e fatores clínicos associados à percepção de dificuldade de higienização em pacientes com reabilitação implantossuportada. O estudo examinou um total de 183 pacientes reabilitados com 910 implantes. Todos os implantes estavam em funcionamento por pelo menos um ano na fase protética definitiva. Dados relacionados à idade, sexo, localização (anterior, posterior), gengiva artificial (ausente, presente), tipo de prótese (unitária, parcial, total fixa, sobredentadura), tempo de uso (≤5 + >5 anos) e diagnóstico de doença peri-implantar. Além disso, os pacientes responderam a um questionário relativo ao impacto do tratamento dental na vida diária (DIDL), que avaliava a satisfação com o tratamento.

O questionário continha 36 questões distribuídas em cinco dimensões: aparência, dor, conforto, performance e mastigação, relativas às próteses implantossuportadas. O teste estatístico Qui-quadrado de Pearson foi utilizado para avaliar possíveis associações entre os dados coletados e a dificuldade de higiene. Os resultados mostraram que pacientes com idade superior a 50 anos, do sexo feminino com presença de gengiva artificial, prótese total fixa e tempo de uso ≤5 anos, foram associados à dificuldade de higiene das respectivas reabilitações implantossuportadas. Já no quesito de qualidade de vida, associações positivas também foram encontradas em relação ao conforto e à satisfação geral.

A importância da higiene oral dos pacientes reabilitados com implantes e as manutenções periódicas desses pacientes nos nossos consultórios são fatores de risco ao desenvolvimento de peri-implantite. Desta forma, os pacientes que não conseguem higienizar as suas próteses implantossuportadas adequadamente e que não realizam as consultas de proservação e manutenções periódicas são mais propensos a desenvolverem problemas peri-implantares. Este assunto, atualmente, é consensual em toda a comunidade acadêmica de Implantodontia.

Além destes fatos, existe sim um impacto direto na vida dos nossos pacientes quando eles realizam um tratamento com implantes, principalmente em trabalhos mais extensos, como as reabilitações totais. É impossível que um paciente que recebeu uma prótese total fixa implantossuportada, como os protocolos, não relate nenhuma mudança na sua qualidade de vida, seja para melhor ou para pior. Mastigar melhor, sorrir melhor e o aumento da autoestima são aspectos positivos. Excesso de acúmulo de restos alimentares, dificuldade de limpeza e fonética são alguns dos aspectos negativos. Entretanto, medir o impacto destas mudanças é uma tarefa um pouco mais complicada, pois os pacientes muitas vezes têm dificuldade de relatar o que realmente melhorou e o que piorou em suas vidas após a realização do tratamento.

Os resultados desta pesquisa nos mostram que as dificuldades de higiene estão diretamente ligadas às próteses totais fixas, tipo protocolo, o que parece ser relativamente óbvio. Protocolos não são fáceis de higienizar, principalmente em pacientes mais idosos ou com alguma dificuldade motora. Essa dificuldade é sentida logo nos primeiros anos de uso da prótese, daí a razão de o relato ser maior em pacientes com idade acima de 50 anos e com menos de cinco anos de uso das próteses. A razão por serem as mulheres as mais atingidas por esse problema permaneceu inconclusiva.

O lado positivo disso tudo é que, mesmo relatando essas dificuldades de higienização, a maioria dos pacientes se sente satisfeito, de maneira geral, com o tratamento ao qual foram submetidos. Contudo, isso não invalida a extrema necessidade que temos de, cada vez mais, buscarmos realizar implantes e próteses que sejam fáceis de higienizar pelos pacientes. Além disso, a manutenção periódica destes trabalhos deve ser uma obrigação não apenas dos pacientes, mas também nossa. Conseguir fazer com que os pacientes retornem aos nossos consultórios para manter os trabalhos saudáveis por mais tempo é uma obrigação nossa. Temos que aceitar este desafio e criar programas que atraiam os pacientes a fazer adequadamente esses retornos.
 

“Quem crê no Filho de Deus tem este testemunho dentro de si. Aquele que não crê em Deus faz dele um mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus deu a respeito do seu filho. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5,10-2).

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br