Publicado em: 06/12/2018 às 09h10

Cebola empanada

Celestino Nóbrega explica a Oniomania, um distúrbio de comportamento. Ou seria um instinto familiar animalesco?

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A receita da cebola frita empanada é guardada a sete chaves. (Imagens: Shutterstock)

 

Há uns dias eu estava no Brasil a trabalho e, coincidentemente, foi aniversário da minha cunhada. Ela é uma pessoa abençoada pelo simples fato de ser casada com meu irmão, que certamente ficará muito “pê” da vida se tiver acesso a este texto. Caso ele leia, pode me cobrar uma explicação e minha justificativa é muito simples: serve para você também, dileto leitor: se tivesse uma oportunidade, você se casaria consigo mesmo?

Posso falar por mim: se eu fosse uma mulher, jamais me casaria comigo. Estou cada vez mais neurastênico, acho que devido à privação de groselha pela qual tenho passado após iniciar uma dieta low carb há alguns meses. Além disso, estou roncando cada vez mais, apesar de ter perdido peso. Minha esposa diz que uma noite dessas eu ronquei tanto que ela sonhou que o Godzilla estava destruindo nossa casa com uma motosserra. Antigamente, eu roncava como um serrote, ou seja, só na ida; agora, depois de muito treinamento e dedicação, ronco na ida e na volta.

Bom, voltando ao ponto inicial, o aniversário da minha cunhada foi comemorado de forma muito simples: um jantar familiar em um restaurante do shopping center mais conhecido de São José dos Campos (SP). O restaurante é temático e faz referência à vida selvagem na Austrália, mas no cardápio, conforme verifiquei após incríveis duas horas e 48 minutos de espera, não havia rabada de canguru. Pura decepção.

Porém, um dos carros-chefes da casa é uma cebola frita empanada, cuja receita é guardada a sete chaves. O garçom, muito educado e com absoluta cortesia, explicou que a receita foi criada por um aborígene, após passar por uma interessante experiência transcendental. Sim, pois o pobre silvícola (ou desertícola, sei lá) entrou em profunda depressão logo após ganhar um bumerangue novinho em folha. Tentou se livrar do velho atirando o coitado para longe, mas nunca conseguiu, pois a chonga do bumerangue sempre voltava. O entristecido aborígene, então, recolheu-se humildemente aos recônditos de uma caverna incrustrada em uma montanha rochosa, onde morava um coala albino que se alimentava de cebolas que, como por milagre, brotavam do solo ressequido e infértil.

Lendas à parte, o restaurante é um sucesso. Os felizes fregueses esperam ansiosos por horas a fio em uma fila interminável apenas para provar o raio da cebola frita. Sim, pois a receita foi criada pelo aborígene, que fraquejou em um momento de cetose e, sem pestanejar, matou o coala, fritando a maldita cebola com a banha do pobre marsupial.

Enquanto eu esperava na fila, meu pensamento voou livre. Fiquei imaginando de onde aquele povaréu estava tirando forças para pacientemente permanecer na fila, pois o restaurante terminantemente se nega a fazer reservas por telefone ou internet. Como minha glicemia devia estar baixa pela síndrome de abstinência da groselha, comecei a literalmente “viajar na maionese” (ou melhor, no molho de iogurte da dieta low carb).

Foi então que, refletindo sobre os habitantes deste planeta selvagem e a crueldade da cadeia alimentar, perguntei-me sobre o que motivaria os consumidores daquele restaurante a passar por um verdadeiro calvário antes que fossem finalmente atendidos? Imediatamente me lembrei de um episódio curioso, presenciado por mim há muitos anos no meu sítio em Cunha.

Eu estava com meus binóculos observando um casal de gaviões que sempre ao final da tarde tinha o hábito de pousar sobre a copa de um jatobá enorme, bem ao lado de uma cerca que protege meu rebanho de carneiros. Como de costume, após alguns minutos, os gaviões voaram de volta para a Mata Atlântica que circunda minha fazenda. Naquela noite minha mãe, cuja sabedoria transcende a todo e qualquer entendimento científico, me alertou que teríamos lua nova. Isso significa que poderíamos ter carneirinhos novos nascendo pelos próximos dias.

Na manhã seguinte, caminhando pelo pasto, percebi que o casal de gaviões estava no chão, juntamente com um filhotinho. Pensei comigo mesmo sobre o que, cargas d’água, aquela família de bípedes de rapina fazia no solo ao invés de estar voando por aí.

Pois bem, passou-se tranquilamente aquele dia e novamente caiu a noite. Antes de dormir fiquei ponderando sobre o programa de “melhoramento genético” que eu havia implantado no rebanho para que houvesse parições de gêmeos, conforme aprendi em um curso ministrado por veterinários da Nova Zelândia. Naquele país, maior exportador mundial de ovinos, o programa de melhoria genética alcançou quase 100% de parições gemelares.

No dia seguinte pude constatar um dos episódios mais impactantes da minha vida. Os gaviões estavam no solo por um motivo cruel, porém vital. Sabe-se lá como, as aves de rapina preveem quando as ovelhas irão parir, e permanecem no solo aguardando as parições de carneirinhos gêmeos. A ovelha, após parir dois filhotinhos, escolhe um deles para descarte, pois não haverá como amamentar os dois. As aves de rapina então se aproximam e, de imediato, furam os olhos do carneirinho descartado pela mãe, para que a vítima fique completamente indefesa. Crueldade? Ou instinto familiar animalesco para sobrevivência do carneirinho não descartado e do filhote dos gaviões?

Contei este episódio para uma amiga que trabalha aqui nos Estados Unidos como gerente em uma grande loja de departamentos. Ela me relatou que o olhar das clientes, quando entram na loja na manhã do Black Friday, talvez seja tão assustador quanto o dos gaviões.

Agora, perceba abaixo a sutileza das definições de dois distúrbios de comportamento:

• Oniomania: vontade incontrolável dos clientes do restaurante australiano de comer cebolas – onion é cebola em inglês; e mania vem do grego insânia, fúria.

• Oniomania: preocupação excessiva, perda de controle sobre o ato de comprar; aumento progressivo do volume de compras; tentativas frustradas de reduzir ou controlar as compras; comprar para lidar com angústias ou outra emoção negativa; mentiras para encobrir o descontrole com compras; prejuízos nos âmbitos social, profissional e familiar; problemas financeiros causados por compras. Essas são as principais características de indivíduos que apresentam o transtorno de compra compulsiva – a chamada oniomania, palavra derivada dos termos gregos oné (compra, aquisição) e mania (insânia, fúria). Crueldade? Ou instinto familiar animalesco para sobrevivência dos seus filhotes?

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.