Publicado em: 18/01/2019 às 12h20

Implantes longos: eles são realmente necessários?

Integrante da geração doutrinada pelo “quanto maior, melhor”, Marco Bianchini questiona a preferência por implantes de comprimento longo.

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Quando eu comecei a fazer implantes, no ano de 1993, a máxima que valia era: quanto maior o implante, melhor. Assim, nós procurávamos, sempre que possível, colocar implantes com um comprimento acima de 10 mm. O ideal mesmo seriam implantes de 15 mm para garantir o sucesso do caso. Parecia ser uma relação bastante óbvia, pois um implante bem longo seria mais forte para resistir às forças mastigatórias. Além disso, se ocorresse perda óssea peri-implantar nas primeiras roscas do implante, eu ainda teria uma boa parte sadia que continuaria a exercer as funções mastigatórias normalmente. E, assim, a minha geração foi doutrinada no “quanto maior, melhor”.

À medida que os anos foram passando, e as pesquisas na Implantodontia foram se desenvolvendo, essa relação entre comprimento longo dos implantes e o sucesso foi mudando. Vieram os implantes curtos com excelentes avaliações, imitando o formato das raízes dos molares, que não são tão longas. As plataformas foram se modificando e os conceitos dos implantes cone-morse e de plataforma switching foram se solidificando, mostrando que, uma vez que não há contaminação na área de transição do corpo do implante para a parte protética, o comprimento do implante passaria a ter um papel secundário.

Mesmo com todas estas evidências, a maioria dos implantodontistas ainda prefere colocar implantes mais longos. A grande massa clínica, que opera no dia a dia, não gosta muito de assumir riscos e se sente mais confortável quando olha uma radiografa pós-operatória e vê um implante comprido instalado. Eu, particularmente, achava que estava imune a este tipo de comportamento. Porém, meu primeiro caso de 2019 provou o contrário. Na minha primeira cirurgia do ano, realizei um implante imediato na região do 14 e utilizei um implante cone-morse da marca Implacil de Bortoli de 3,5 x 15mm. Observem as figuras 1 a 3 que descrevem melhor o caso.

Figura 1 – Corte tomográfico do elemento 14, que teve a sua raiz vestibular fraturada. Observar a excelente disponibilidade óssea, tanto em altura como em espessura.

 

Figura 2 – Radiografia periapical no pós-operatório imediato. Observar que o implante é tão longo que o seu ápice foi cortado no posicionamento radiográfico tradicional para a região de pré-molares superiores. 

 

Figura 3 – Modificação do feixe radiográfico da incidência periapical, a fim de englobar todo o corpo do implante no raio X. Observar o bom posicionamento intraósseo do implante, possibilitando o uso de um pilar protético tipo Smart (Implacil De Bortoli, São Paulo – Brasil) de 3,5 mm de profundidade em carga imediata com prótese provisória.

 

Observando as radiografias pré e pós-operatórias, não tenho dúvidas que poderíamos ter utilizado um implante mais curto. O implante por mim colocado (de 3,5 x 15) “raspou” a parede mesial do seio, quase gerando uma penetração desnecessária no seio maxilar. Acredito que um implante cone-morse de 3,5 x 11 teria sido suficiente para esse caso, pois teríamos também conseguido posicioná-lo bem intraósseo, que é o que se preconiza quando utilizamos as plataformas cone-morse.

Insistir no uso de implantes extremamente longos é ainda um comportamento difícil de explicar, pois os trabalhos científicos mostram que isso não é mais necessário e que os riscos são mínimos quando utilizamos implantes mais curtos. Eu tenho lutado contra isso, mas volta e meia me pego exagerando no tamanho dos implantes que eu seleciono. É a síndrome de um comportamento masculino que ainda acha que quanto maior, melhor. Talvez tenhamos que recorrer ao famoso médico Sigmund Freud, neurologista e criador da Psicanálise, para entendermos melhor esta tendência.

 

“Os que confiam no SENHOR serão como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece firme para sempre. Assim como estão os montes à roda de Jerusalém, assim o Senhor está em volta do seu povo desde agora e para sempre.” (Salmos 125;1-2)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br