Publicado em: 12/02/2019 às 10h06

Hugo De Bruyn e a revolução tecnológica nas cirurgias

Em entrevista, o belga mostrou seu ponto de vista sobre novas técnicas cirúrgicas, com foco em cirurgias flapless, guiada e navegada.

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Casas tradicionais coloridas ao longo do canal no popular destino turístico em Ghent, Bélgica. (Imagens: Shutterstock)

 

Carismático e sempre bem-humorado, o belga Hugo De Bruyn é um dos maiores nomes internacionais na pesquisa clínica envolvendo fatores relacionados ao sucesso do implante, carga imediata, tecidos periodontais moles e duros, e tecidos peri-implantares, Odontologia Digital e prótese dentária sobre implantes.

Em sua vasta contribuição para a Odontologia estão mais de 500 cursos nacionais e internacionais, e mais de 130 artigos revisados internacionalmente. Com PhD pela Universidade Estadual de Groningen (Holanda), De Bruyn atualmente é professor e chefe do Departamento de Periodontia e Implantodontia da Universidade de Ghent (Bélgica) e professor visitante no Departamento de Prótese Dentária da Universidade de Malmö (Suécia).

Em entrevista conduzida pelo brasileiro Thiago Revillion Dinato, doutor em Prótese Dentária, o belga mostrou seu ponto de vista sobre novas técnicas cirúrgicas, com foco em cirurgias flapless, guiada e navegada. A seguir, confira como foi esse bate-papo.

 
Hugo De Bruyn    Thiago Revillion Dinato

 

Thiago Dinato – O que você acha da cirurgia flapless? Acredita que ela pode evitar a perda óssea marginal?

Hugo De Bruyn – Sim. Um artigo de Giuseppe Cardaropoli mostra que, ao abrir um retalho, pode-se perder entre 1 mm e 2 mm de osso. A não abertura do retalho evita danos no suprimento de sangue ao osso e ao periósteo, o que é de fato a melhor abordagem. No entanto, o clínico deve sempre estar pensando na distância biológica. O problema da cirurgia guiada é que nem sempre é possível ver onde está o tecido mole. A cirurgia flapless é bastante difícil porque há muitos fatores que devem ser controlados antes dela ser iniciada. Em minha opinião, a cirurgia navegada será o futuro, pois permite uma visão um pouco melhor do sítio cirúrgico.

Quando se trata de cirurgia flapless, às vezes, o raio X não é totalmente correto. Conversei com um engenheiro sobre isso e ele me disse que a informação dos arquivos Dicom está correta, mas o fato de querermos abrir esse arquivo rapidamente os força a criar algoritmos que simplificam a informação, o que prejudica o processamento das imagens.

 

Dinato – Você acha que teremos mais cirurgia navegada no futuro, mais do que a cirurgia guiada?

De Bruyn – A cirurgia guiada foi uma evolução intermediária porque é muito cara – não só por causa da questão técnica, mas pelo fluxo de trabalho ser muito difícil. É preciso ter sempre outra pessoa para fazer parte do trabalho. Se você pode desenvolver uma cirurgia guiada ou navegada pelas mãos do cirurgião-dentista da clínica, combinando imagem radiográfica com o escaneamento das arcadas, então, obviamente, o clínico tem muito mais controle.

Caso os preços desses equipamentos, que já são razoáveis hoje, fiquem um pouco mais baratos, abre-se a possibilidade de mais pessoas utilizarem essa tecnologia. Por outro lado, devemos prestar atenção para não criar a sensação de que é fácil realizar uma cirurgia. Minha pergunta é: quem vai cuidar das complicações? Porque certamente ocorrerão complicações durante as cirurgias e esse é um ponto que realmente devemos perguntar aos clínicos, como sociedade dentária.

 

Dinato – Com os avanços dos novos softwares para cirurgia guiada, é possível planejar um pilar e até mesmo um provisório antes do procedimento cirúrgico e, com isso, pode-se projetar também a coroa e o pilar. Você acha que esse é o futuro: fazer tudo antes da cirurgia?

De Bruyn – Não é o melhor. Acho que é preciso fazer uma distinção clara. Digamos que tenhamos o aspecto de navegação no osso, na colocação do implante, e também o aspecto digital das peças protéticas. Fazendo uma breve reflexão sobre a navegação no osso, realizamos vários estudos com placas de guia de estereolitografia, com cirurgia a mão livre e, mais recentemente, também com cirurgia navegada. Quando se trata de precisão, eles são bastante semelhantes. Então, não pense que cirurgia guiada é mais correta do que abrir retalho, pois os implantes nem sempre estão onde foram planejados virtualmente. Isso nos dá uma pequena ideia de que se você planejar tudo, incluindo a prótese, e os implantes não estiverem colocados no local previsto, o trabalho protético não se encaixará corretamente. Em minha opinião, se quisermos ter múltiplas unidades, ainda precisaremos de uma restauração provisória.

No entanto, em caso unitário é outra história. Isso porque a coroa unitária terá como parâmetro os dentes vizinhos, tornando viável registrar muito bem digitalmente um guia sustentado pelos dentes, além de ser mais estável. Também, na cirurgia navegada é possível ver o sítio cirúrgico desse unitário e o encaixe não é um grande problema. O único problema seria se, por exemplo, o implante estivesse um pouco mais profundo. Ao começar a parafusar as próteses e o implante se mover um pouco, sabe-se que elas nunca se adaptarão. Com a peri-implantite em mente, queremos evitar o cimento, que poderia compensar essas imprecisões. Portanto, evitar o cimento significa usar prótese parafusada. Mas, respondendo diretamente a pergunta: vamos chegar lá? Provavelmente sim. Mas, ainda não chegamos, talvez precisemos de mais alguns anos. Temos um artigo do Van de Velde, do qual eu sou coautor, onde analisamos diferentes sistemas de escaneamento disponíveis no mercado e constatamos que também há imprecisões. Ou seja, existem imprecisões no escaneamento digital, nos enxertos, no planejamento e, consequentemente, no planejamento virtual.
 

Catedral medieval em Ghent, Bélgica.

 

Dinato – O uso de scanners intraorais vem crescendo muito, mas não deveríamos usá-los para reabilitação total já que a imagem não é precisa, certo?

De Bruyn – Exatamente. Também deve-se levar em consideração que fazê-lo digitalmente significa mais etapas no fluxo de trabalho, o que aumenta o preço. Por isso, devemos olhar para a questão financeira e para o custo-benefício. Pode parecer muito interessante escanear, ver os gráficos e tudo mais, no entanto, quem vai pagar por isso? Vemos na Europa uma tendência de que mais e mais pessoas não podem pagar. O Brasil também não está na melhor condição para seguir nessa direção, porém, a evolução seguirá.

 

Dinato – Na reabilitação protética, os aspectos clínicos são fundamentais, certo?

De Bruyn – Vejo que, infelizmente, implantes são colocados em pacientes que já têm problemas odontológicos em andamento, doenças periodontais, maus hábitos de higiene e diabetes sem controle – ou seja, o prognóstico é ruim e o caso teve um início negativo. Por que vemos peri-implantite mais frequentemente hoje do que há 40 anos? Há 40 anos, o professor Brånemark executava apenas casos grandes em pacientes totalmente edêntulos, então não existiam bolsas periodontais e peri-implantite. Na verdade, era uma questão de saúde. Ele trabalhava com um tipo de reconstrução facilmente sustentável, a ponte clássica (as construções híbridas pelas quais a Suécia é conhecida). Vimos a evolução para a cimentação, em direção a implantes unitários, onde há dentes vizinhos que podem ter a doença. No cenário atual, vemos clínicos que fazem entre 20 e 30 implantes por ano – ou seja, acumulam pouca experiência – e, na outra ponta, especialistas que colocam 500, 600 ou 1.000 implantes por ano.
 

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