Publicado em: 20/02/2019 às 09h10

Disco arranhado

Celestino Nóbrega traça uma paralelo entre déjà vu, o volume da voz de sua sogra e a qualidade musical na atualidade.

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Déjà vu: quando tudo parece estar repetindo exatamente o que já havia acontecido antes.

 

Eu estava atendendo um paciente quando percebi que ele, subitamente, levou a mão esquerda ao bolso da bermuda e segurou o celular que estava quase caindo. Em seguida, percebi que o refletor o incomodava, pois a luz incidia diretamente sobre seus olhos. Aí, de repente: pá! Tive a nítida certeza de que aquela sequência de acontecimentos já havia ocorrido antes.

O gesto reflexo do paciente evitando a queda do celular, a marca e o tipo do aparelho, a pulseira que ele usava e a posição do refletor; tudo parecia estar repetindo exatamente o que já havia acontecido antes. Automaticamente, eu havia previsto a marca do celular e até a cor da capinha. O devaneio passou rapidamente e me dei conta de que, na verdade, nada daquilo tinha acontecido antes, ou seja, foi apenas um episódio de déjà vu.

A sensação é muito doida, pois quando isso ocorre temos a certeza de que conseguimos prever cada frame da cena, como se fosse naquele filme dos anos 1990, o Groundhog Day (Feitiço do Tempo), com a Andie MacDowell e o Bill Murray fazendo o papel do cara arrogante que trabalha como âncora de um telejornal.

Quando vivenciamos um déjà vu, presente e futuro se fundem em uma coisa só, e de repente tudo se acaba, vai embora a sensação – acabou o déjà vu. Tudo volta a ser imprevisível como sempre.

Estudos indicam que até dois terços das pessoas que habitam este planeta já experimentaram o déjà vu pelo menos uma vez na vida. Uma experiência que, na verdade, não tem nada de misticismo. Outros estudos concluem que estes episódios geralmente acontecem em momentos de estresse.

Chris Moulin, eminente psiquiatra da Universidade de Leeds, na Inglaterra, é um dos poucos especialistas que se dedica exclusivamente ao assunto. Naturalmente que os relatos dos pacientes devem ser tão cansativos e enfadonhos como uma aula de bioquímica após o almoço, e penso aqui comigo que o brilhante profissional consegue adivinhar a próxima fala do paciente. Muito provavelmente o psiquiatra deve dormir profundamente durante as consultas, nas quais os pacientes confortavelmente encaixados no divã relatam seus episódios de déjà vu.

Tenho um amigo de longa data, o Gil Chapinha, que poderia ser paciente do Dr. Moulin. Após o consumo de uma “poção druida” de vinho de garrafão com cogumelos da floresta do Ribeirão Grande, ele teve um episódio de déjà vu que se iniciou no verão de 1980 e dura até os dias de hoje. Ele era um grande atleta e jogava tênis muito bem. Gil Chapinha me falou que tudo perdeu a graça porque já sabia o resultado de cada jogada, então, encerrou a carreira.

No entanto, devemos saber separar o déjà vu de situações cotidianas, como aquela sensação que todos temos durante o período de campanha eleitoral, de que já ouvimos centenas de políticos com o mesmo discurso. Eles apresentam as mesmas soluções para os mesmos problemas. Também, quando sua mãe fala para você não se esquecer de pegar um casaco porque vai esfriar ou para levar um guarda-chuva porque vai chover no final da tarde. Minha mãe possui alguns poderes especiais, talvez até, de certa forma, sobrenaturais. Por exemplo, ela adivinha exatamente o momento em que o jogador vai marcar o gol e entra na frente da televisão para regar a samambaia pendurada no canto da parede: ela certamente possui o dom da premonição. Já a minha sogra apresenta outros superpoderes. Ela domina perfeitamente o Efeito Doppler, pois o volume da voz dela permanece constante, independentemente da distância que a separa de um interlocutor em movimento – ou melhor, do ouvinte (pois só ela fala e não dá a menor chance para que o interlocutor se manifeste).

Outro dia presenciei uma cena muito engraçada: levei minha mãe, minha tia e minha sogra para minha casa em Cunha, no interior de São Paulo, nas montanhas maravilhosas que fazem divisa com Paraty, no estado do Rio de Janeiro. Percebi que elas pareciam conversar animadamente em voz alta, mas uma sequer ouvia uma palavra do que a outra falava, ou seja, havia três histórias sendo contadas ao mesmo tempo. Três monólogos concomitantes.

Quem nasceu nos anos 1990 nunca teve a interessante experiência de dar um tapinha na agulha do toca-discos quando o long play estava arranhado e tornava repetitivo um determinado segmento ou um pedaço fragmentado de uma frase da música. Graças ao bom Deus e à persistência dos engenheiros eletrônicos, a maneira de ouvir música evoluiu muito: foi passando dos discos de vinil e fitas cassete para os compact discs (CDs) e, finalmente, os arquivos em mp3 e aplicativos de streaming do tipo Spotify.

Já pensaram se, com a qualidade dos artistas que temos hoje em dia, tivéssemos que ouvir várias vezes em discos arranhados um mesmo pedaço das músicas? Tipo funk das cadelas, moleque Safadão, Quinzinho & Dezesseis e o raio que os parta.

Outro dia fiquei muito triste ao tomar conhecimento de um fato que recentemente ocorreu em uma penitenciária federal aqui nos Estados Unidos: dois presos de alta periculosidade, depois de cumprirem pena por longos anos, foram condenados à pena capital, pena de morte, cadeira elétrica. Tentaram a derradeira manobra junto ao presidente da República, mas não teve chorumela: apelo negado.

Já enfileirados no famigerado e lúgubre corredor da morte, os condenados foram interpelados pelo taciturno carrasco, que com a voz grave e aveludada, digna de um mensageiro da morte, ofereceu calmamente ao primeiro da fila a tradicional concessão de uma última benesse: “Senhor, qual seu último desejo? Que tal uma refeição especial regada a um bom vinho?” O moribundo de imediato meneou com a cabeça negativamente e respondeu: “Quero ouvir 24 horas de pagode, funk, música sertaneja e forró pé de serra”. Então, o carrasco perguntou ao segundo da fila: “O que deseja como último pedido?”. Ainda na esperança de receber alguma clemência, de bate-pronto o segundo da fila respondeu: “Quero morrer antes dele”.

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.