Publicado em: 20/02/2019 às 09h31

O simples e o eficiente no uso dos stops

Júlio Gurgel dá dicas para melhor entendimento de seu uso nas formas estática e dinâmica.

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Os stops são utilizados em todas as fases do tratamento. (Imagem: divulgação)

 

Os stops são acessórios confeccionados em aço inoxidável idealizados inicialmente para controlar o deslocamento dos fios, principalmente na fase inicial do tratamento com aparelhos autoligados. Ao longo do tempo, foram descritas formas de uso estático e dinâmico de stops com a finalidade de auxiliar na movimentação dentária.

Eles são utilizados em todas as fases do tratamento, exercendo funções de acordo com o estágio da mecânica ortodôntica. São introduzidos ao longo do arco metálico e posicionados em diferentes espaços interbraquetes, de acordo com a preferência do clínico e para diferentes finalidades. Os stops podem ser redondos ou retangulares e apresentam-se em forma de cilindros de aço inoxidável, medindo em torno de 2 mm, ou em forma de “U”, como um tubo retangular com uma das paredes abertas. A luz dos stops redondos permite a passagem de fios de secção redonda com diâmetro .018” até .020”, enquanto os retangulares são adaptados em fios de secção retangular ou quadrada. Ambos os tipos podem ser deformados se prensados de tal modo que estabilizem sua posição ao longo do arco metálico. As dimensões reduzidas e a facilidade de adaptação tornam seu uso simples e versátil. Os stops são posicionados com uma pinça clínica ou pinça clip e, posteriormente, estabilizados quando comprimidos com o alicate Weingart.

Na literatura, são encontradas diferentes aplicações clínicas dos stops, dentre as quais estão descritas abaixo as mais utilizadas1-5.
 

Uso estático

1 – Mantenedor de espaços

Esta modalidade de uso estático não exerce a ação de ativação dos arcos metálicos e é indicada para conter o fechamento de espaços interdentários. Um stop é estabilizado na distal do braquete mais anterior ao espaço e outro é posicionado na mesial do braquete imediatamente posterior ao mesmo espaço. Deste modo, evita-se o movimento dos dentes adjacentes ao espaço que será mantido e, assim, realiza-se o alinhamento do dente que está entre os stops. Esta modalidade substitui com eficiência o by pass e permite a utilização de "sobre fio" tanto no aparelho autoligado como no aparelho convencional (Figuras 1).

Figuras 1 – Uso estático como mantenedor de espaço. A. Stops mantendo espaço para correção do giro dos pré-molares inferiores. B. Arco dentário inferior alinhado.


Uso dinâmico

1 – Vestibularização

O uso dinâmico implica em formas estratégicas de adaptação dos stops para promover a movimentação conjunta dos dentes com os arcos metálicos durante a fase de alinhamento e nivelamento. Esta modalidade é recomendada para os casos de birretrusão ou com pinhamento acentuado acompanhado ou não de sobremordida profunda. A forma mais comum é empregar dois stopsestabilizados nas mesiais dos braquetes dos caninos. Em virtude da verticalização e/ou o apinhamento dos dentes anteriores, o fio NiTi termo de alinhamento sofre deflexão e, portanto, proporciona uma quantidade de força capaz de induzir ao movimento dentário.

Os stops estabilizados na mesial dos braquetes dos caninos impedem que o fio deslize na ranhura dos braquetes e tubos posteriores, mantendo, assim, ativo o segmento anterior aos stops estabilizados entre os caninos6. O fio NiTi termo defletido e adaptado nas ranhuras dos braquetes tente a manter a força de vestibularização dos incisivos por não ter a possibilidade de deslizar para posterior (Figuras 2).

Figuras 2 – Uso dinâmico para vestibularização. A. Stops estabilizados por mesial dos braquetes dos caninos. B. Alinhamento observado em dois meses.


2 – Correção de linha média

Os stops auxiliam na correção de linha média desviada resultante da alteração de posicionamento dos dentes do segmento anterior do arco dentário superior. Também, nesta modalidade, utilizam-se dois stops posicionados no lado do desvio da linha média e estabilizados em espaços interbraquetes, de acordo com a necessidade ou preferência do clínico. O posicionamento mais comum é um stop estabilizado na mesial de um dos pré-molares e o outro na distal do incisivo central do mesmo lado. A presença dos stops promove a correção simultânea do apinhamento (quando houver) e da linha média durante a fase inicial de alinhamento e nivelamento4. O stop estabilizado na mesial do braquete do pré-molar impede o deslizamento para posterior do arco metálico, sendo assim, a desativação da deflexão do fio NiTi termo gera o efeito de correção das angulações dentárias e, portanto, promove a correção da linha media (Figuras 3).

Esta modalidade de uso dos stops tem a finalidade específica de corrigir a linha média durante o alinhamento e nivelamento. Sendo assim, não há influência na correção da relação dos caninos. Em etapas subsequentes do tratamento ortodôntico serão utilizados recursos mecânicos para a correção das relações dentárias posteriores.
 

Conclusão

Para otimizar o emprego dos stops, deve-se entender seu uso nas formas estática e dinâmica. Sua aplicação se inicia logo no primeiro arco de alinhamento e nivelamento, com a intenção de incrementar a correção de algum posicionamento dentário mais estratégico para o tratamento ortodôntico. As formas de uso e os locais de estabilização podem ser mantidos ou modificados até que a finalidade dos stops seja obtida.

Como parte integrante do tratamento ortodôntico com braquetes autoligados, o uso de stops deve contar com outros itens do mesmo sistema. Portanto, a desoclusão dos dentes superiores e inferiores pelo uso do build up ou bite turbo favorece a movimentação dentária desejada com os stops1,3.

Estas são as formas de uso mais frequentes e possíveis de serem aplicadas, com as quais o clínico pode planejar a disposição dos stops de modo a beneficiar a mecânica. É válido alertar que o uso estático dos stops é recomendado somente em aparelhos com braquetes convencionais, enquanto as formas dinâmicas podem ser empregadas apenas nos braquetes autoligados.

Figuras 3 – Uso dinâmico para correção da linha média. A e B. Stops estabilizados na mesial do pré-molar (14), distal do lateral (12) e mesial do incisivo (21). C e D. Correção da linha média e continuidade da recuperação de espaço para irrompimento do canino (13).

 

Referências
1. Pimenta Junior B, Gurgel JA. O uso de stops no sistema autoligado. Rev Clin Ortod Dental Pres. 2018;17(4):71-9.
2. Ursi W, Matias M. Princípios gerais da mecânica com braquetes autoligáveis. Rev Clin Ortod Dental Press 2015;14(1):90-109.
3. Mendes FF. A importância da correta instalação dos stops nos arcos para uma melhor eficácia dos aparelhos autoligados. 2014. Dissertação (Mestrado em Ortodontia) – Instituto de Ciências da Saúde – Funorte/Soebras – Alfenas, 2014.
4. Maltagliati LA. Desmistificando a utilização dos stops no sistema autoligado. Revista Clínica Dental Press de Ortodontia, Maringá 2012;11:24-33.
5. Martins M. Braquetes Autoligados (1ª ed.). Ribeirão Preto: Editora Tota, 2012. p. 76-134.
6. Marão LAM. Avaliação dos deslocamentos anterior e posterior dos fios de Nitinol termoativados durante o nivelamento com braquetes convencionais e autoligados interativos. Dissertação (Mestrado em Ortodontia) – Universidade Federal do Maranhão – UFMA, 2016.

 

 

Júlio Gurgel

Doutor em Ortodontia pela FOB-USP; Professor do programa de mestrado acadêmico em Odontologia (Ortodontia) da UniCeuma, em São Luís/MA; Professor assistente doutor do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, campus de Marília; Coordenador do curso de especialização em Ortodontia da PUCMM, em Santiago de los Caballeros (República Dominicana).