Publicado em: 20/02/2019 às 09h36

Andrés Giraldo: o equilíbrio entre inovação e simplicidade

Adepto às novas tecnologias e ao sistema CCO, o ortodontista colombiano fala com Alexander Macedo sobre os desafios dos jovens ortodontistas.

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O sistema CCO foi o principal tema da conversa entre Alexander Macedo e Andrés Giraldo. (Fotos: Jaime Oide)


Depois de adotar diversos sistemas ortodônticos, o colombiano Andrés Giraldo continuava insatisfeito com o curso dos tratamentos e com os resultados obtidos. Mas, por situações do destino, sua trajetória cruzou com a do Dr. Antonino Secchi e, a partir deste ponto, ele se tornou um dos precursores do uso de braquetes autoligados com a técnica Complete Clinical Orthodontics (CCO).

Graduado pela Universidade Autônoma de Manizale e com especialização em Ortodontia pela Universidade Militar Nova Granada, onde vivenciou muitas técnicas ortodônticas, atualmente Giraldo é professor e pesquisador na Universidade CES de Medellín e professor convidado da Universidade Autônoma de Nuevo León e da Universidade Autônoma de Guadalajara, ambas no México.

Nesta entrevista intermediada pelo ortodontista brasileiro Alexander Macedo, o colombiano compartilha seus 22 anos de experiência clínica e fala sobre as características do sistema CCO.

Alexander Macedo – Sabemos da relevância do tratamento precoce, principalmente em casos complexos. Qual a sua opinião sobre isso?

Andrés Giraldo

Andrés Giraldo – A maioria dos casos de tratamentos complexos envolve problemas esqueléticos, em especial a presença de maxila atrésica. A correção desta alteração em uma fase interceptiva faz com que o tratamento ortodôntico posterior seja mais simples. O tratamento precoce e a interceptação das más-oclusões deveriam ser – principalmente do ponto de vista sanitário – uma necessidade atendida de todas as crianças nos diferentes países da América Latina. Com isso, evitaríamos muitos problemas sérios, inúmeras cirurgias ortognáticas e teríamos melhor qualidade de vida para nossos pacientes.


Macedo – Com base na sua larga experiência na correção de casos de maxilas atrésicas, qual é a vantagem da expansão rápida da maxila ancorada em mini-implantes?

Giraldo – Comecei o tratamento de atresia do maxilar com aparelhos tipo Hyrax, Haas e McNamara, mas sempre pensei que, se quero corrigir o maxilar superior, devo me apoiar sobre ele e não sobre os dentes. Por experiência, vi que todos os aparelhos, ainda que estejam suportados com miniparafusos e que tenham algum tipo de união com os molares, vão produzir mais verticalização dos molares do que correção do maxilar superior. Por essa razão, sou fã da correção com miniparafusos intraósseos que tenham somente suporte sobre o osso maxilar, sem tocar em absolutamente nenhum material dental. Isso diminui muito a verticalização dos dentes para fora e ainda conseguimos fazer uma real correção do maxilar superior.

O mundo vem mudando e é importante refletir sobre isso. Anteriormente, nosso sonho era expandir e abrir a sutura palatina. No entanto, há estudos recentes que determinam que essa sutura palatina ainda está aberta ou ativa em idades avançadas, como 25, 26, 27 anos. É preciso mudar a forma de pensar. Hoje, deveríamos conseguir saber, no caso de pacientes com maior volume ósseo, onde é possível colocar as peças dentais. Sob esse ponto de vista, a meta é o paciente se sentir confortável com o expansor. Se o expansor começa a abrir e não existe nenhum incômodo sobre o tecido paladino, é porque em algum ponto desse maxilar há uma posição óssea e algum tipo de crescimento tridimensional. Pensar unicamente em quando se abriu a sutura palatina é seguir pensando bidimensionalmente e em milímetros. Devemos começar a raciocinar em milímetros cúbicos ou centímetros cúbicos. Agora é o momento para virar a chave e começar a pesquisar sobre aumento de volume e quantidade óssea, priorizando a busca e os aprendizados sobre o quanto ampliamos ou não a sutura palatina. Nesse momento, as barreiras ainda existem por falta de pesquisa e investigação.


Macedo – Nos últimos anos, percebemos que o uso dos braquetes autoligáveis se tornou rotina na prática ortodôntica. Assim como as demais técnicas, essa também vai evoluindo. Minha pergunta é: por que o sistema Complete Clinical Orthodontics (CCO)?

Giraldo – O sistema CCO é resultado da necessidade de um grupo de ortodontistas. Eu passei por todos os sistemas de Ricketts em diante, mas, na realidade, o que sempre se buscou foi um sistema ortodôntico que tivesse mais sintonia com as necessidades do ortodontista. Nos congressos, sempre via grandes casos executados por renomados mestres que usavam lindas técnicas, no entanto, quando eu chegava no meu consultório para executá-las, o resultado não era exatamente o mesmo. Durante 15 anos da minha vida profissional, segui procurando uma técnica que eu pudesse usar – e passei por muitas. Quando encontrei o Dr. Antonino Secchi, na Filadélfia (Estados Unidos), vi que ele estava tentando fazer um sistema que se baseava muito no trabalho do Dr. Roth, mas focado em ortodontistas comuns. Decidi seguir por esse caminho e tive a grande vantagem de estar no início do sistema e perceber que é uma opção completamente amigável para o ortodontista e, sobretudo, para o estudante.

Agora, por que braquete autoligado? Por que não fazemos o mesmo sistema com braquetes convencionais? Definitivamente, o grande problema da finalização da Ortodontia é expressar toda a informação do braquete. Se eu tenho um braquete de torção x, com uma verticalização x, mas não sou capaz de expressar isso, então não entendo a razão pela qual temos que usar um braquete pré-definido. Sobretudo com braquete autoligado ativo, nos deparamos com a grande surpresa de que podemos chegar muito perto: quase 95% da expressão total que o aparelho requer. Eu era muito relutante em usar barras palatinas e aparelhos auxiliares; e com o CCO não tenho que usar aparelhos auxiliares. Os únicos miniparafusos utilizados são os de expansão, não sendo necessários os de fixação. Estamos fazendo uma Ortodontia muito mais simples, eficiente e com qualidade.

O CCO pode aportar à Ortodontia moderna: é um sistema mais acessível a todos os ortodontistas. Nas universidades onde estou, vejo resultados maravilhosos de estudantes do segundo e do terceiro ano.


Macedo – Como você enxerga o futuro da Ortodontia com o advento das novas tecnologias 3D?

Giraldo – As tecnologias 3D são mais um “bem-vindo ao presente” do que um “bem-vindo ao futuro”. A Ortodontia não caminha paralelamente às inovações 3D; quando estivermos plenamente no 3D, o mundo vai estar no 4D.

Eu tenho cerca de 90% dos meus casos diagnosticados tendo a tomografia como único protocolo e elemento de diagnóstico. A tomografia me dá absolutamente tudo.

Se acredito no 2D, tenho cefalometria direita e esquerda. Se gosto da panorâmica, posso construir uma panorâmica, mas ao mesmo tempo tenho todo o mundo tridimensional para poder avaliar diferentes anomalias. Existe uma enorme possibilidade de avaliar assimetrias, simetrias entre lado direito e lado esquerdo, de encontrar situações não disponíveis em radiografia panorâmica ou em radiografia lateral.

Os modelos digitais ou scanner intraorais são uma arma maravilhosa para fazer muitos elementos de laboratório, como placas para movimento (alinhadores) e modelos para construção de retentores. Então, este é o momento de as universidades e os jovens começarem a trabalhar mais com imagens tridimensionais do que bidimensionais.

Precisamos de planejamento virtual para o diagnóstico. Poder planejar o tratamento tridimensionalmente, ver se as raízes vão ficar ou não dentro do alvéolo, o que acontece se faço ou não novas extrações, avaliar a relação volume ósseo versus volume radicular etc. Creio que já estaríamos alcançando o futuro se conseguíssemos entender melhor nossas especializações e nossos pacientes.


Macedo – Com a evolução tecnológica somada à mudança comportamental dos pacientes, vivemos um novo momento na profissão. Diante de toda essa oferta de informação rápida e acessível, eu acredito que nós professores temos a missão de inspirar nossos alunos a buscar o conhecimento. Portanto, vejo que nosso papel hoje também está mudando. Diante desse novo momento, qual conselho você daria aos jovens ortodontistas para que eles conquistem uma clínica estável e de sucesso?

Giraldo – O conselho é fundamentalmente fazer a diferença como nós, os ortodontistas da velha guarda, fazemos. Mas, por que eles têm que fazer a diferença? A maioria dos profissionais que está ascendendo na Ortodontia configura uma geração com mais acesso à tecnologia, uma geração multitouch, com quatro ou cinco telas ao mesmo tempo no dia, envolvida com a internet. O problema é que as grandes clínicas, as grandes franquias e os nomes gigantes se nutrem do trabalho dos ortodontistas recém-graduados.

São trabalhos sob protocolos de não tão alta qualidade. Então, para o ortodontista novo fazer a diferença, ele vai ter que trazer coisas diferentes. Vai precisar ter tecnologia no consultório, abrir a mente e oferecer um diferencial de tratamento ao paciente, já que todos são tão parecidos.

Quando eu iniciei minha carreira na minha cidade, que é bem pequena, éramos três ortodontistas, então o paciente não tinha tanta opção. Hoje, somos 60! A decisão do paciente está mais baseada no atendimento do que no preço. Minha visão sobre os jovens ortodontistas está muito relacionada com uma frase: “os analfabetos do século 21 não vão ser as pessoas que não sabem ler nem escrever, mas sim as pessoas que não sabem reaprender, desaprender e voltar a aprender”. Na minha época, a distância entre uma mudança tecnológica e outra estava entre dez e 15 anos. Hoje, esse tempo não dura seis meses. Se o ortodontista não está constantemente mudando e vendo como a tecnologia está ajudando, vai ser muito complexo que o jovem profissional tenha a opção de competir com as velhas glórias da Ortodontia.