Publicado em: 02/05/2019 às 15h11

O criador de porcos, o catador de jacas e o ortodontista digital

Celestino Nóbrega faz uma reflexão sobre os alinhadores estéticos: será que eles trazem os mesmos resultados que braquetes e fios?

  • Imprimir
  • Indique a um amigo
Vamos criar porcos ou plantar jacas? (Imagem: Shutterstock)

 

Era uma vez um criador de porcos, cujo vizinho possuía uma propriedade em que havia muitos pés de jaca. O criador de porcos prosperava a olhos vistos, enquanto o cata-jacas se afundava em dívidas das mais variadas, desde a conta no armazém do bairro até os impostos que ele pagava, como todos nós, sem entender bulhufas de como o sistema tributário os calculava.

A diferença entre o sucesso de um e o fracasso de outro não parecia estar no modelo de gestão, que era empregado por ambos de forma muito similar. Afinal de contas, os dois vizinhos trocavam muitas ideias, compartilhando tanto as que haviam dado certo para o suinocultor quanto as que redundaram em nada para o “jacacultor”.

O tempo passou e o criador de porcos resolveu, depois de muito prosperar, incursionar pelos meandros da exportação e alcançar novos patamares. Tomou essa decisão após contratar um consultor garbosamente vestido com terno risca-de-giz e camisa italiana de algodão egípcio adornada por gravata de crochê, mas que nunca tinha criado porcos e jamais havia entrado em um chiqueiro (pois o odor nauseabundo anulava o aroma de seu perfume Issey Miyake favorito) – porém, ele entendia muito bem dos mercados europeu e asiático e de crescimento sustentável baseados em algoritmos criados por big data banks etc.

Poucos anos se passaram e tudo degringolou enquanto o empresário observava os porcos alegremente chafurdando na lama, percebendo que também estava atolado, porém, em dívidas. Entrou em falência. Ficou mais quebrado do que arroz de terceira, mais perdido do que cebola em salada de frutas. E agora, o que fazer?

A explicação do consultor foi técnica e precisa: de acordo com a ABCS (Associação Brasileira dos Criadores de Suínos), obviamente presidida por um palmeirense, o volume das exportações estava em queda irreversível. Um dos motivos deste cenário é que a crise europeia provocou desvalorização do euro e tornou a carne suína da região mais barata para os russos, que são os principais importadores do Brasil.

Resumindo: o consultor entrou em seu Mini Cooper vermelho com teto branco, ajeitou os óculos escuros Balenciaga e acelerou forte a procura de um próximo empresário caipira que necessitasse de sua visão mercadológica e que assim fosse libertado das algemas da simplicidade que o impedissem de “crescer”.

Para sair da penúria, o criador de porcos resolveu trabalhar como motorista no sistema Uber. Aprendeu tudo rapidinho com o sobrinho, pois não tinha a menor ideia de como uma plataforma digital poderia unir as duas pontas: a necessidade do cliente e a disponibilidade do motorista. E com grandes vantagens sobre os motoristas de táxi de sua pequena cidade, que dirigiam carros velhos, sem ar condicionado e mais fedidos do que os chiqueiros de sua antiga chácara.

Sempre muito comunicativo, foi então que ao conduzir um casal de jovens veganos ficou sabendo que nos Estados Unidos a “carne de jaca” representava um case de muito sucesso. E no Brasil também: coxinhas de carne de jaca, quem diria?

Com os últimos recursos que tinha, comprou a chácara ao lado e empregou seu conhecimento na cultura de Artocarpus heterophyllus. Talvez coxinha de jaca ou feijoada com pertences de jaca não sejam assim tão similares aos quitutes originais. Os consumidores estariam se enganando em prol de uma corrente filosófica talvez passageira? Voltarão a cometer o impropério de comer carne de verdade? Para saber se a jaca substitui o lombinho de porco ou não, a prova pode ser tirada em um programa de TV do tipo Ana Maria Braga.

Os alinhadores estéticos trazem os mesmos resultados que braquetes e fios? Sim ou não? Corrente filosófica? A prova pode ser tirada através de pesquisa científica, que logicamente demanda certo tempo até que conclusões sejam consistentes para que nós ortodontistas tomemos nossas decisões. Mas enquanto isso não ocorre, vamos dirigir táxis ao invés de Uber? O que fazer? Eu, particularmente, penso que o momento exige ponderação e atitudes. Para não ser dispersivo no que diz respeito à transição de nossa especialidade ao universo digital, que abrange uma série de tecnologias, vou me concentrar nos alinhadores estéticos.

Todos nós temos observado o incrível movimento de pequenas, médias e grandes empresas de prestação de serviços e manufaturas em Ortodontia que se juntaram para surfar nesta onda fascinante. Aqui nos Estados Unidos há movimentos de ambas as partes, empresas de manufatura e ortodontistas. Por um lado, há um séquito de ortodontistas que empregam rotineiramente os alinhadores estéticos em seus pacientes há quase 20 anos, que se veem aprisionados em um sistema que “linkou” plataformas digitais de planejamento, travando-as a scanners específicos. Um colega me definiu muito bem a situação, em um rápido comentário: o sistema veio como uma brilhante solução e se tornou um verdadeiro monstro, alimentado diariamente por nós ortodontistas.

Há um grande grupo de profissionais descontentes com as estratégias que desbravaram um caminho que se fortalece no “by pass” sobre os profissionais, criando maneiras para que o próprio paciente envie moldagens feitas em casa ou que tenham os dentes escaneados em centros específicos, diga-se de passagem, muito “chiques”.

De outro lado, muitas empresas perceberam esta revoada de consumidores e decidiram entrar de maneira forte e incisiva neste mercado. Grandes empresas compraram pequenas e assim a cruel roda financeira continua girando a uma velocidade incrível, independentemente da minha e da sua opinião como ortodontistas. Hoje, somos simples vetores posicionados entre fabricantes e pacientes.

Ficam algumas perguntas que deveríamos discutir em algum momento, talvez de forma organizada e oficial, antes que seja tarde:

• Os big data que suportam os planejamentos digitais são consistentes?

• São oriundos de finalizações de casos gerados em ambiente virtual ou são gerados por respostas clinicamente constatadas? Para facilitar, não vou nem mesmo tocar no fato de que a maior parte dos sistemas de hoje levam em consideração apenas as imagens escaneadas de coroas dentais. Parece-me que retrocedemos ao menos um século no que diz respeito ao diagnóstico. No entanto, esta é uma deficiência que pode ser facilmente eliminada;

• São resultados observados por clínicos gerais ou por ortodontistas? Esta pergunta é importante, pois os sistemas de alinhadores estão disponíveis para ambos os tipos de profissional, e os níveis de exigência no que diz respeito à qualidade de finalização são distintos. Ou ainda, no futuro os planejamentos serão baseados na opinião dos pacientes que se autotrataram?

• Os algoritmos que fornecem base para o autoaprendizado destes sistemas de inteligência artificial aplicada podem ser manipulados? Por exemplo, o sistema pode entender que, além de ter por objetivo a qualidade de tratamento, a empresa que emprega os dados necessita de lucros crescentes, gerando situações em que o custo operacional seja maior para o profissional. Por exemplo, gerando mais alinhadores do que o necessário, ou mesmo incorporando custos adicionais no processo;

• Seremos no futuro motoristas de “Uber ortodôntico”? Lembrando que a próxima geração de frotas de transporte de passageiros não precisará mais de motoristas. A empresa automobilística Tesla aposta firmemente nesta tecnologia que dispensa motoristas;

• Será o ortodontista do futuro um recrutador de operadores que executem o plano de tratamento por ele elaborado em ambiente de home office

 
Aqui fica a pergunta final: vamos criar porcos ou plantar jacas?

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.