Publicado em: 02/05/2019 às 15h26

Revolução digital: a tecnologia mostra novos caminhos

Ferramentas inovadoras reformulam processos em busca de melhores resultados, redução do tempo de tratamento e maior previsibilidade.

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A digitalização dos processos trouxe mudanças para a rotina clínica.  (Imagem: Shutterstock)

 

Não há dúvidas de que a revolução digital está realizando uma grande transformação no diagnóstico e tratamento de casos ortodônticos. Saber conciliar o uso da tecnologia com o conhecimento e a experiência é o que faz um profissional se destacar no mercado – e se tornará indispensável em curto prazo.

A seguir, o espanhol Iván Magalon e o brasileiro Flávio Vellini Ferreira falam sobre as mudanças na rotina clínica proporcionadas pela digitalização dos processos. Além de abordarem as vantagens e características das novas ferramentas, destacam como as inovações – por exemplo, os articuladores virtuais – estão sendo exploradas e introduzidas nos consultórios.

 

Iván Malagón

Especialista em Ortodontia, Ortopedia e Cirurgia Ortognática Maxilomandibular – Universidade do Sul do Mississipi, nos Estados Unidos; Diretor do programa de especialização em Ortodontia com Alinhadores – Universidade Alfonso X el Sabio, na Espanha; Professor da pós-graduação em Ortodontia – Universidade de Alcalá, na Espanha.

O bom diagnóstico é a base de um plano de tratamento correto. Independentemente da experiência e do olhar clínico do especialista, as novas tecnologias ajudam na precisão e a diminuir drasticamente a margem de erro.

O diagnóstico deve ser baseado na relação interdental existente, na posição cêntrica e excêntrica, na relação interoclusal com os tecidos de suporte (ligamento periodontal, osso alveolar e gengiva), bem como nas estruturas que compõem as articulações temporomandibulares (cápsulas, ligamentos, osso temporal, parietal e algumas partes do sistema nervoso e circulatório) – além de tudo o que o mau funcionamento dessas estruturas pode provocar no corpo, como dores articulares ou musculares no pescoço, lombar, quadris, joelhos etc. Por isso, não é possível chegar a um diagnóstico adequado sem atentar à posturologia mediante o uso de plataformas estabilométricas, cujos dados avaliam o resultado da má-oclusão no equilíbrio de todo o corpo humano.

De modo geral, costumo iniciar os planos de tratamento com uma tomografia axial computadorizada (TAC) e as vantagens oferecidas por esse exame na hora de montar os modelos digitais, obtidos por meio de scanner intraoral, que mostra a posição exata que deveria existir em relação à base do crânio. A partir daí, por meio de alguns softwares que eu mesmo desenvolvi, posso relacionar esses modelos com as estruturas ao seu redor no próprio paciente, em condições estáticas e dinâmicas, como se fosse um articulador virtual. Quando o profissional é capaz de realizar o setup ortodôntico, haverá economia de tempo – por exemplo, eu não preciso fazer várias alterações de ClinCheck (Invisalign) ou provas (Spark Aligners Ormco) e, mesmo assim, alcanço os objetivos do tratamento de maneira mais rápida, eficiente e precisa.

A partir do momento que o caso é montado digitalmente, com a certeza de que é absolutamente preciso em relação à situação real do paciente, não demora mais do que 45 minutos para o planejamento virtual ser feito. Já o restante do controle do tratamento pode ser realizado pela equipe ou por auxiliares. Então, no meu dia a dia, o uso de articuladores virtuais é essencial na condução dos meus casos. Uma vez que conheci e me adaptei a esse protocolo de trabalho, trato da mesma maneira todos os mais de 400 casos que tenho anualmente na minha clínica em Madri, na Espanha.

O sucesso do tratamento ortodôntico está relacionado a atingir os objetivos planejados (funcionais e estéticos) no menor tempo possível e garantir a estabilidade necessária para que o resultado permaneça. Sendo assim, as novas tecnologias têm contribuído muito nesse sentido: é possível ser mais exato, obter resultados melhores em menor tempo e de maneira mais confortável para o ortodontista e para o paciente. Além disso, com a nova era da Ortodontia Digital, se o planejamento do tratamento estiver correto e o paciente colaborar, é possível concluir casos complexos em uma média de quatro a seis visitas físicas na clínica e, se necessário, estabelecer um calendário de visitas virtuais para avaliar a previsibilidade do processo.

O planejamento correto feito a partir de um ponto de vista multidisciplinar é a base do tratamento ordenado e bem feito. O ortodontista é o arquiteto do sorriso, já que é o único capaz de criar a estrutura necessária para todo o sistema estomatognático funcionar adequadamente; ele redistribui os espaços para uma boa execução da Odontologia Estética; cria o espaço necessário para que um implante funcione bem com dentes adjacentes e antagonistas; e ainda é responsável por evitar que os tecidos periodontais sofram com cargas transmitidas pela má-oclusão. Portanto, a visão multidisciplinar, o trabalho em equipe e a flexibilidade de saber lidar com o tempo e os processos em ordem hierárquica são a base do sucesso da Odontologia moderna.


 

Flávio Vellini Ferreira

Doutor, livre-docente e professor associado – Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo; Membro fundador da Sociedade Paulista de Ortodontia (SPO); Membro fundador e presidente da Academia Paulista de Odontologia; Diretor presidente do Instituto Vellini.

O diagnóstico representa a fase clínica na qual dados variados são coletados e interpretados, sejam eles radiográficos ou fotográficos e que, após analisados detalhadamente, permitem avaliar a presença ou ausência de anormalidades craniofaciais. Sempre que necessário, é nossa responsabilidade, e uma função da mais alta relevância, conduzir a indicação do tratamento adequado à correção.

À medida que a Ciência progride, aumentam e se aperfeiçoam esses dados diagnósticos, permitindo ao profissional a escolha da melhor opção terapêutica para a solução do problema detectado. Embora os princípios ortodônticos básicos sejam universais, sua manipulação com recursos digitais simplifica e agiliza a vida do ortodontista, uma vez que se torna possível transferir para o computador tarefas mecânicas que demandam preciosas horas de trabalho, reservando ao especialista mais tempo para a solução de problemas complexos.

Escaneamento digital, modelos e fotografias em 3D, tomografias computadorizadas de feixe cônico e fresagem personalizada de acessórios são apenas algumas das inovações tecnológicas que têm impacto positivo na prática diária do ortodontista. Um exemplo é a integração da imagem tomográfica da região craniofacial, inclusive com evidência da topografia das raízes dentais, que permite realizar um setup virtual com a adequada angulação radicular (Figura 1).

Figura 1 – Setup virtual realizado individualmente levando-se em conta o posicionamento da coroa e das raízes dentais.

 

Por utilizarmos os referidos recursos, tanto em nossa clínica particular como na clínica-escola do Instituto Vellini, sentimo-nos autorizados para afirmar que o diagnóstico tridimensional no tratamento ortodôntico é um avanço irreversível na atividade cotidiana e deve ser empregado e difundido cada vez mais na Ortodontia contemporânea.

A introdução do articulador virtual é um ótimo exemplo da tecnologia como aliada do ortodontista. Essa ferramenta facilitou sobremaneira a confecção do plano de tratamento em razão da rapidez e da precisão do manuseio tridimensional, evitando, entre outros fatores, o trabalhoso sistema de montagem e o uso de instrumentos (articuladores) semiajustáveis do tipo Arcon.

A dinâmica da oclusão dental é um dos pilares básicos do diagnóstico e da terapia ortodôntica sendo que, nesse contexto, a determinação da relação central constitui um valioso ponto de partida para a compreensão e o estudo da interdigitação normal entre dentes superiores e inferiores. O exame clínico aliado à experiência profissional dita a necessidade da montagem em articulador do caso ortodôntico a ser tratado.

Por ser uma tecnologia bastante inovadora, estamos utilizando apenas em nossos cursos clínicos em conjunto com o Prof. Iván Malagón, que tem profunda experiência em seu manuseio. Pelo relevante papel na planificação do tratamento e por seu potencial de recursos digitais disponíveis, esse tipo de articulador promete um atendimento personalizado mais eficiente para o paciente (Figura 2).

Figura 2 – Uma das fases da montagem do caso clínico em articulador virtual.

 

 

Tanto na Medicina quanto na Odontologia, a interação profissional-paciente mudou consideravelmente devido aos novos recursos tecnológicos disponíveis e à utilização do termo de consentimento informado (TCI), que garante e respeita a autonomia do paciente na tomada de decisão durante os diversos estágios da terapia.

A revolução cibernética que bate às nossas portas, com a digitalização de vários procedimentos, tem mudado a rotina clínica, dando um suporte mais personalizado ao paciente, permitindo o compartilhamento de informações à distância e o acompanhamento de várias fases do tratamento. Acrescenta-se a esse fato a alternativa de correção das más-oclusões com alinhadores, para as quais foram desenvolvidos sistemas que combinam tecnologia de computador com processos de fabricação de aparelhos personalizados.

Hoje, observamos cada vez mais o desenvolvimento de aplicativos que possibilitam ao ortodontista a aplicação de procedimentos digitais que facilitam a comunicação com os pacientes, como agendamento de consultas, acompanhamento da terapia via filmagem e fotografias, controle de assiduidade na utilização de dispositivos de correção, dentre muitas outras funções. Como disse Bill Gates, “essa revolução cibernética nos levará a lugares inimagináveis, visando beneficiar a todos” – tanto profissionais quanto pacientes.

Mas, muito além do aparato tecnológico, o ortodontista necessita ter tanto uma visão integral de sua especialidade como também da Odontologia para obter êxito na solução dos problemas clínicos. Isso porque, muitas vezes, as más-oclusões refletem uma disfunção de órgãos distantes, com repercussão no aparelho mastigador, como por exemplo em perturbações relativas ao sistema endócrino. Em outros casos, as disfunções oclusais estão relacionadas ao crescimento craniofacial, a problemas genéticos e ambientais, hábitos inadequados ou deletérios, dentre outros. Assim, a multiplicidade de fatores etiológicos que podem causar más-oclusões dentais exige do especialista um aprofundado estudo sistematizado que o conduzirá ao correto diagnóstico e um plano de tratamento bem estruturado.

Apesar das pesquisas no campo da inteligência artificial estarem ainda em fase inicial na Ortodontia Digital, há perspectiva de um futuro promissor na área dos recursos digitais e seu uso na integração multidisciplinar. Um passo importante será a criação de um banco de dados no qual poderão ser empregados algoritmos para possibilitar a melhor compreensão e fornecimento de informações fiéis das disfunções orgânicas variadas.

Em 2018, nossa família completou 102 anos ininterruptos na Odontologia, sendo mais da metade de todo esse tempo dedicado à Ortodontia. De nossa parte, assistimos a transformações marcantes na especialidade, como colagem de braquetes em substituição à cimentação de bandas, desenvolvimento do sistema Straight-Wire (arco reto ou contínuo de Andrews) e, ultimamente, a criação de alinhadores personalizados e transparentes, desenvolvidos por meio digital. Como na Medicina e em vários outros ramos da Ciência, a Ortodontia está adentrando a essa extraordinária fase de transformação contemporânea, que é a era cibernética, a qual acompanha de perto a evolução natural da humanidade. Essa revolução veio para ficar e nós, especialistas, temos que nos adequar a ela.

Hoje, a Ortodontia precisa dominar as novas tecnologias, liderar discussões sobre uso e implantação, criando uma verdadeira ligação entre a clínica ortodôntica e a Ciência da Computação, uma vez que essa conexão irá impactar de forma positiva a prática diária.

Pode-se afirmar que os recursos digitais estão mudando nosso comportamento e isso tem causado certa preocupação entre os profissionais da Saúde: muitos estão temerosos que serão substituídos pela máquina, já outros imaginam de maneira simplista que o microcomputador por si só dará as soluções clínicas necessárias ao caso em questão. Estes não imaginam que, embora necessitemos – e muito – dos computadores, eles só funcionam graças à competência e ao raciocínio humano. Afinal, somos nós que os programamos e acionamos. Parafraseando o Prof. Curtis Langlots, da Universidade de Stanford, e transferindo para a Ortodontia seus ensinamentos, é possível afirmar que “jamais a máquina substituirá o especialista, mas o especialista que a usar substituirá aqueles que não a usam”.

Todo esse progresso nos induz a imaginar para o futuro uma Ortodontia mais tridimensional, mais personalizada e abrangente em relação à saúde geral, proporcionando aos pacientes segurança e bem-estar na terapia. Em curto prazo, a análise genômica poderá facilitar e aprovar o diagnóstico ortodôntico, antecipando o surgimento de problemas (Figura 3).

Figura 3 – Imagens tridimensionais superpostas para acurado
diagnóstico e plano de tratamento ortodôntico.
(Imagens do Programa NemoStudio da Nemotec).
 

 

 
   


Coordenador de conteúdo:

Alexander Macedo

Especialista e mestre em Ortodontia e Ortopedia Facial; Pós-graduação na Universidade Johannes Gutenberg de Maiz (Alemanha); Professor de Ortodontia no Instituto Vellini.