Publicado em: 14/06/2019 às 14h57

Sobrecontorno de coroas protéticas

Marco Bianchini ressalta a importância do conhecimento anatômico dos elementos dentais e das distâncias biológicas periodontais e peri-implantares.

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Uma citação muito interessante feita pelo autor Sachs, em 1985, afirmava que "nenhuma face do dente está tão afastada do periodonto de modo à não ter influência na saúde periodontal". O mesmo podemos dizer dos implantes que tenhamos colocado na melhor posição protética final. Se a coroa definitiva deste implante for feita com uma forma inadequada, poderemos ter problemas peri-implantares, que vão desde uma mucosite leve até uma peri-implantite muito severa.

Assim, tratando-se de dentes naturais, mesmo que tenhamos recuperado adequadamente o espaço biológico, no caso de invasões que necessitaram de um aumento de coroa clínica, a restauração definitiva que será realizada deve obedecer a todos os princípios de forma e contorno interproximal adequado. O sobrecontorno de coroas ou restaurações aumenta o acúmulo de biofilme, dificulta a higienização por parte do paciente e comprime as papilas gengivais. O excesso de material restaurador desloca a papila gengival, tornando os tecidos gengivais inflamados e com perda de tônus. Observe na Figura 1 restaurações com sobrecontorno nos dentes 11 e 21.

Figura 1 – Restaurações protéticas com sobrecontorno nos elementos 11 e 21. Observar a modificação do padrão gengival normal.


Nos implantes osseointegrados, este fenômeno ocorre de uma maneira muito parecida, pois impacções alimentares indesejadas, ocasionadas por coroas implantossuportadas com formato deficiente, geram um maior acúmulo de biofilme e consequentes mucosites ou peri-implantites. Atualmente, mesmo com os avanços da tecnologia CAD/CAM, se o manuseio do computador não for adequado, teremos os mesmos problemas que temos com uma moldagem convencional. Ou seja, formatos deficientes de coroas que não mimetizam adequadamente o dente natural que um dia ali existiu.

As impacções alimentares mencionadas anteriormente têm uma relação direta com os contornos das restaurações e os pontos de contato proximais. Uma restauração definitiva, realizada após um aumento de coroa clínica ou sobre um implante, deve reproduzir adequadamente os pontos de contato proximais, evitando acúmulo de biofilme e possíveis impacções alimentares. Tanto a ausência de ponto de contato como o excesso dele pode desencadear respostas inflamatórias indesejáveis.

A resposta inflamatória resultante de restaurações deficientes ocorre através de ulceração e sangramento sulcular, hiperplasia gengival, descolamento do epitélio juncional e formação de bolsas. Radiograficamente, podemos observar a dissolução da lamina dura nos dentes naturais e a perda óssea peri-implantar nos casos de implantes. O restabelecimento da integridade marginal com contatos interproximais adequados e espaços de ameias apropriados facilitarão a higiene bucal, evitarão o acúmulo de placa e criarão condições de saúde bucal.

Apesar de estarmos falando de um assunto bastante básico, ainda é muito comum encontrarmos restaurações deficientes sobre implantes que foram muito bem posicionados ou sobre dentes que tiveram as suas distâncias biológicas recuperadas por cirurgias periodontais. Do mesmo modo que muitos protesistas reclamam muito da posição que os cirurgiões-dentistas colocam os implantes, ou das cirurgias periodontais que porventura tenham aumentado muito o tamanho dos dentes naturais, também os cirurgiões-dentistas reclamam dos protesistas quando estes confeccionam restaurações deficientes, com contornos inadequados, que dificultam a manutenção por parte dos pacientes e do próprio implantodontista ou periodontista.

O conhecimento anatômico dos elementos dentais e das distâncias biológicas periodontais e peri-implantares certamente irão diminuir a incidência de sobrecontornos nas restaurações finais. Ainda assim, os problemas podem continuar aparecendo e uma boa saída para este tipo de situação seria o uso de restaurações provisórias por mais tempo, a fim de se observar o comportamento das mesmas junto aos tecidos gengivais. Embora esta conduta possa prolongar a finalização dos casos, ela pode evitar falhas precoces que terão forte influência na saúde periodontal e peri-implantar.

 

“Tu ordenaste os teus mandamentos, para que fielmente os observássemos. Quem dera que os meus caminhos fossem dirigidos a observar os teus mandamentos. Então eu não ficaria envergonhado, obedecendo a todos os teus mandamentos.” (Salmos 119:4-6)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br