Publicado em: 17/06/2019 às 10h15

Lua de mel virtual

Como você imagina que estará no ano de 2064? Quais serão as atribuições de um ortodontista? Celestino Nóbrega debate o tema.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo

 

Diário de bordo: data estelar quinta-feira, 18 de abril de 2019. A comandante Dra. Mildred Nóbrega, permanentemente no comando; e demais tarefas sendo cumpridas pelo soldado raso Celestino Nóbrega, que estava programando pelo smartphone o dispositivo Roomba Robotic Vacuum (RRV) para execução da tarefa diária de aspiração do piso da sala de TV. Ordem do dia: seguindo a missão rotineira, Ana Maria Braga apresenta seu programa matinal. Pauta: japonês se casa com holograma.

 

Incrivelmente, toda a descrição acima, que se assemelha ao diário de bordo da nave interestelar Enterprise, comandada pelo capitão Kirk, se passou exatamente hoje de manhã, em minha casa, aqui em Long Island (Estados Unidos). Mas, poderia ter acontecido em qualquer lar deste planeta.

Nem mesmo o taciturno Dr. Spok, do alto de seu comportamento insensivelmente retilíneo, poderia imaginar que alguém se casaria com um holograma no ano de 2019 e que passaria a lua de mel deflorando uma virgem virtual. Se você não acredita, veja o vídeo aqui.

 

 

Voltando 45 anos no tempo, estamos em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, no ano de 1974. Minha irmã estava retornando da aula de datilografia e reclamando do jovem instrutor magricela, chato e exigente, que a fez repetir a linha a-s-d-f-g com exaustão em seu primeiro dia de aula. Certamente, as escolas de datilografia foram obrigadas a se reinventar, entendendo que o ensino de informática substituiria perfeitamente a lacuna deixada pela extinção das máquinas de escrever e, consequentemente, das datilógrafas profissionais.

Traçando um paralelo com a Ortodontia, façamos uma viagem de 90 anos: como era nossa especialidade em 1974 e como você imagina que estará no ano de 2064? Quais serão as atribuições de um ortodontista? A profissão será extinta, assim como a de instrutor de curso de datilografia? Vale a pena focarmos nossa atenção em um dos recursos tecnológicos que mais tem evoluído ultimamente: as tecnologias dedicadas à manufatura de adição, ou seja, a impressão em 3D.

A manufatura por adição se difere dos processos de fresagem já utilizados em reabilitação oral pelo simples fato de que conseguem excelentes resultados, não pela retirada, mas sim pela adição gradual de camadas de material a um determinado projeto. Desta maneira, o processo consegue produzir estruturas complexas considerando tanto a geometria externa quanto a interna.

Por exemplo, as empresas do setor aeroespacial têm se valido das tecnologias de impressão em 3D de forma rotineira, não somente otimizando seus processos, mas também alcançando um nível de qualidade sem precedentes. Para melhor compreensão deste assunto, inicialmente devemos entender que o gatilho que tornou a impressão em 3D viável foi o desenvolvimento dos softwares de desenho tridimensional: CAD (computer aided design) e CAM (computer aided manufacturing), ou seja, desenho e produção auxiliados por computadores. Muitos setores da Engenharia os utilizam há pelo menos três décadas, assim como várias especialidades médicas.


Em Odontologia, empresas como Sirona e Ivoclar se destacaram pela junção das pontas que tornaram viável a construção computadorizada de peças protéticas únicas ou múltiplas. Porém, embora utilizando sistemas CAM, elas adotam sistemas de impressão CAD de remoção (fresagem), e não de adição (impressão 3D).

Obviamente que os novos sistemas de real impressão de materiais protéticos restauradores tiveram grande destaque na última edição do mundialmente famoso IDS – International Dental Show, realizado na Alemanha. Várias empresas estão lançando mão da manufatura aditiva, permitindo a criação de peças protéticas e/ou ortodônticas a partir de materiais como plásticos, metais, polímeros, resinas e cerâmicas.

Especificamente na Odontologia, a impressão em 3D é uma tecnologia que tomou grande impulso graças à possibilidade de escaneamento intraoral – procedimento hoje em dia clinicamente e economicamente viável, pois é amplamente oferecido por muitos centros de documentação radiológica a um preço acessível.

Fazendo um paralelo com a Odontologia, fica fácil perceber quantos fatores de erro podemos eliminar ao abandonarmos os processos tradicionais de moldagem, que compreendem desde a distorção dos materiais de moldagem (tida como “normal” pelos fabricantes e profissionais) até a estabilidade mecânica destes materiais nas moldeiras de estoque, os coeficientes decorrentes da expansão higroscópica dos gessos de preenchimento das moldagens e a deficiência na habilidade manual de determinado operador do processo etc.
 

 


Manufaturas aditivas e inteligência artificial

A inteligência artificial é resultado de uma rede computacional neural artificial paraconsistente (RNAP), composta por células neurais de aprendizagem que funcionam à base de algoritmos. Para entender, um algoritmo é algo como se fosse uma receita de bolo: uma simples lista de execução de tarefas sequencial. Porém, além de executar a receita de bolo com perfeição, o sistema neural detecta que a qualidade do produto pode melhorar caso os degustadores do bolo reclamem que tenha ficado muito doce ou que a massa não esteja com a consistência adequada.

O ortodontista treinado acessa a imagem STL (arquivos gerados pelo scanner intraoral) através de software CAD, por sua vez suportado por inteligência artificial, que imprime em equipamento CAM os alinhadores, guias de colagem, braquetes, aparelhos removíveis e, principalmente, as guias para execução deste ou daquele procedimento.

Ao invés de realizador manual de procedimentos, o ortodontista será nada mais do que um exímio manipulador de dados em 3D. O comandante poderá recrutar um sem número de soldados que executarão a tarefa ordenada, com margem de erro quase que inexistente. Não adianta nos revoltarmos. É um caminho sem volta.

Guardem bem o que estou afirmando: as ofertas de soluções para os pacientes portadores de más-oclusões serão totalmente customizadas e produzidas em baixa escala. Tanto os alinhadores transparentes como os braquetes já estão sendo produzidos em impressoras 3D no sistema in-office. Aguardem minha próxima apresentação em algum congresso no Brasil, pois vou mostrar o que temos elaborado em termos de prescrição 100% customizada de acordo com o setup final elaborado pelo ortodontista. Os Drs. Roth, Andrews, Bennet, Hilgers, Alexander e muitos outros que me perdoem. Sinto muito, acabaram-se as prescrições de braquetes.

Retomando o momento em que estávamos em Pindamonhangaba, em 1974: naquela época, não havia personal computers ou mesmo impressoras. O mimeógrafo era a solução tecnológica para a impressão de textos de forma rápida e barata. Além disso, o líquido solvente da tinta do estêncil (matriz) dava o maior “barato” na galera do diretório acadêmico, que passava as noites imprimindo as apostilas de Fisiologia.

Voltando ao ano de 2019: constatei que aquele instrutor de datilografia nervosinho e franzino de Pindamonhangaba, que atazanava a vida da minha irmã, teve que mudar de carreira, pois a partir dos anos 1980 as escolas de datilografia tiveram que se reinventar por motivos óbvios.

A título de curiosidade, o instrutor chato de datilografia, há muitos anos, mudou seu ramo de atividade e hoje consegue sacanear muito mais gente ao mesmo tempo: ele “investiu” na carreira de político, teve grande expressão nacional e agora aguarda o dia em que terá que imprimir suas polpas digitais embebidas em tinta nanquim sobre um cartão de papelão, pois está prestes a ser inquirido pela Operação Lava Jato. A destreza como professor de datilografia parece que finalmente lhe será útil, a não ser que tenha as impressões digitais escaneadas. Acredite se quiser, o fato é verídico.

 

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.