Publicado em: 17/06/2019 às 10h40

As forças tecnológicas que irão direcionar o futuro da Ortodontia

Maurício Cardoso e Celestino Nóbrega discutem a influência da inteligência artificial na Odontologia.

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Ao longo do século 20, a economia e a tecnologia seguiram uma lógica dominante: o maior significa o melhor. No mundo todo, o objetivo era construir grandes empresas, redes de hospitais, cadeias de lojas e restaurantes, marcas com renome mundial e, particularmente, enormes conglomerados de mídia. Desta forma, as empresas dominantes tinham como objetivo obter vantagens da economia clássica do século 20: a produção em larga escala (Figura 1).

No século 21, a economia guiada pela tecnologia está caminhando para um sentido totalmente oposto: a produção customizada em pequena escala. Esta inversão está provocando alterações mais profundas do que se poderia imaginar e, em um futuro próximo, mudanças expressivas serão observadas. Na Odontologia, os especialistas em Ortodontia serão excluídos do mercado se tais mudanças não forem absorvidas.

Por mais maçante que isso possa parecer, é muito importante entender alguns conceitos, tais como:

• Artificial intelligence (inteligência artificial);
• Robótica;
• Impressão em 3D;
• Internet of things;
• Realidade aumentada;
​• Realidade virtual.


Nesta coluna, a inteligência artificial (IA) será o foco da discussão.

Figura 1

 

Inteligência artificial

Inteligência artificial (IA) é o combustível propelente que está levando tecnologias atuais a surfar ondas antes inimagináveis, permitindo a empresas inovadoras competir com empresas gigantes da economia tradicional do século anterior (Figura 2).

Figura 2


A humanidade está passando por algo histórico neste momento, fato que não ocorre nesta intensidade desde meados de 1900, quando uma onda de novas tecnologias mudou o comportamento e as relações de trabalho de forma perene, com os automóveis, a eletricidade e as telecomunicações.

Na nova economia baseada na tríade IA-Impressão em 3D-Robótica (Figuras 3 e 4), a IA é o piloto que está nos levando a uma viagem sem retorno. Empresas pequenas estão se tornando grandes pelo simples fato de não necessitarem de investimentos vultosos para uma eficiente startup. Atualmente, pode-se facilmente “alugar” todas as etapas inerentes à produção em larga escala, sem que seja necessário se descapitalizar e assumir grandes riscos.

Figura 3

 

Figura 4

 

De forma lógica, seguem alguns questionamentos que podem dar embasamento a esta linha de raciocínio:

1. Quantos automóveis possui a empresa Uber?

2. Quantos funcionários (motoristas) eles mantêm em relação trabalhista?

3. Quantos aparelhos de GPS a empresa Waze vende e se responsabiliza pela garantia e manutenção?

4. Quantos apartamentos em hotéis pertencem a empresas como AirBnB, Booking ou Hotel.com?

5. Qual o gasto anual que a empresa WhatsApp dispõe para prover as caríssimas redes de fibra ótica?


A resposta para todas as questões levantadas acima é: nenhum (Figura 5).

Figura 5


Empresas gigantescas caminham como paquidermes sonolentos, enquanto as empresas que utilizam apropriadamente da nova ordem calcada na IA se movem rapidamente, preocupando as empresas tradicionais.

A Procter & Gamble, uma empresa tradicional de renome mundial, certamente requer recursos financeiros estratosféricos para manter e desenvolver: a) linhas de produção em vários países do mundo; b) departamento de pesquisa e desenvolvimento para diversificar cada vez mais a linha de produtos; c) departamento de marketing global; d) sistemas de logística e distribuição; e) milhares de funcionários.

Ao mesmo tempo, a recém-criada empresa Dollar Shave Club – um clube de envio mensal de produtos masculinos para higiene pessoal –, muito conhecida nos Estados Unidos, tem experimentado lucros inimagináveis, indo na contramão do direcionamento proposto pela economia clássica do século 20 gerida pela Procter & Gamble. A Dollar Shave Club pode terceirizar muitas de suas necessidades, atingindo direta e rapidamente o mercado e focando em um segmento muito específico, por meio de recursos de baixo custo e muito eficazes da mídia social. Vale considerar ainda que estas empresas inovadoras podem rapidamente mudar de direção se assim for necessário.

Graças às ações de marketing da empresa Tesla, que tem como estratégia principal focar diretamente no consumidor, empresas como a General Motors Company e outras gigantes da indústria automobilística norte-americanas estão fechando as portas (Figuras 6).

Figuras 6


Onde entraria então a inteligência artificial? Esta se baseia em um sistema que “aprende” sobre uma determinada base de dados. Todas as vezes em que se clica no campo “eu concordo”, os dados pessoais inerentes àquela navegação na internet serão compartilhados (comercializados) para outras empresas que têm como alvo o navegador. Sendo assim, com o consentimento, a IA irá cada vez mais colher dados sobre a personalidade do navegador.

As empresas que comercializam planos de saúde já estão utilizando este recurso para customizar os planos oferecidos. Qual a razão para os altos custos dos planos de saúde em um sistema convencional? A resposta para esta pergunta se encontra no fato das empresas colocarem todos os usuários na mesma “cesta”, como se todos estivessem expostos aos mesmos riscos, com os mesmos hábitos diários, costumes alimentares e predisposição para determinadas doenças.

Empresas norte-americanas como a Color, Agilent, Bio-Rad e muitas outras lançaram a possibilidade de total decodificação genética, ampliando as possibilidades de mudanças (Figura 7). Este exame custava ao consumidor comum por volta de US$ 1,2 milhão no final do século 20. Em 2011, o custo deste exame caiu para US$ 5 mil e atualmente a decodificação do genoma custa US$ 249. Em um futuro muito próximo, as operadoras de planos de saúde poderão exigir estas informações para admissão dos novos usuários. A previsão é de que no ano de 2025 todos os recém-nascidos norte-americanos já tenham estes dados disponibilizados até mesmo antes do nascimento.

Figura 7


Assim, planos de saúde customizados poderão ser oferecidos e as medicações serão elaboradas conforme necessidade específica. Neste contexto, o médico será um manipulador de dados, sem necessariamente ter que examinar o paciente presencialmente.

Os planos de saúde terão acesso aos dados autorizados pelos próprios navegadores, que inocentemente clicaram em um ícone da tela “eu concordo”, ao realizar uma compra pelo aplicativo da Amazon ou ao encomendar uma pizza. Estas empresas sabem o que os navegadores comem, se frequentam academia, se têm hábitos saudáveis, se ingerem bebidas alcoólicas e com que frequência etc. Isso tudo sem ao menos iniciar o sistema operacional do computador pessoal, mas simplesmente utilizando um smartphone para abrir determinados aplicativos. As empresas conhecem mais os navegadores da internet do que eles próprios!

Será que para a especialidade Ortodontia o caminho é diferente? Os ortodontistas trabalharão como taxistas ou serão operadores de Uber? Qual o melhor caminho a seguir (Figuras 8)?

Figuras 8


O melhor caminho, sem dúvida, é de ponderação e atitude. Ficam algumas perguntas que necessitam de ampla discussão, talvez de forma organizada e oficial, antes que seja tarde:

1. Os big data que suportam os planejamentos digitais são consistentes?

2. São oriundos de finalizações de casos gerados em ambiente virtual, ou são gerados por respostas clinicamente constatadas?

3. São resultados observados por clínicos gerais ou por ortodontistas?

4. Os algoritmos que fornecem base para o autoaprendizado destes sistemas de inteligência artificial aplicada podem ser manipulados?

5. O sistema poderia de certa forma priorizar o lucro da empresa em vez do usuário (que deveria, obviamente, ser um ortodontista)?

6. Os ortodontistas serão futuros motoristas de “Uber ortodôntico”?

7. O especialista em Ortodontia do futuro será um recrutador de operadores que executam um plano de tratamento por ele elaborado em ambiente de home office?


Enquanto você leitor faz a reflexão sobre esse texto, a roda financeira implacável continua girando a uma velocidade incrível, independentemente da opinião e indignação dos ortodontistas. Por enquanto, os ortodontistas são simples intermediários posicionados entre fabricantes e pacientes. Mas este jogo pode mudar, só depende de cada um de nós.

 

 
   

Coordenador:

Maurício Cardoso

Mestre e doutor em Ortodontia pela Unesp Araçatuba; Coordenador do curso de especialização em Ortodontia da SPO, São Paulo (SP); Professor dos programas de mestrado e doutorado da SLMandic, Campinas (SP).

 

 

Autor convidado:

Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.