Publicado em: 22/07/2019 às 13h16

Acessórios para auxílio da movimentação dentária com alinhadores

Marcio Almeida conta que, apesar de ser uma técnica moderna, o sistema requer do ortodontista um alto grau de conhecimento sobre a Ortodontia básica.

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O sistema de alinhadores transparentes se baseia em uma tecnologia digital tridimensional (3D), que possibilita a movimentação dos dentes pela troca sucessiva e periódica dos aparelhos, com a utilização de um software, e permite elaborar o setup e a sequência de movimentações dentárias necessárias para a correção desejada.

Apesar de ser uma técnica moderna e contemporânea que propicia conforto e estética aos pacientes que não desejam ser tratados pelo método convencional, o sistema requer do ortodontista um alto grau de conhecimento sobre a Ortodontia básica. Isto porque, com base nas orientações do ortodontista, elabora-se o sequenciamento da movimentação dos dentes, com a finalidade de atingir a simulação final desejada (staging process). Esse método digital permite que o ortodontista estude diferentes planejamentos para um mesmo paciente e decida a melhor opção terapêutica. Assim, o profissional deve avaliar detalhadamente cada movimento realizado até obter o resultado desejado.

Para conseguir alguns movimentos ortodônticos com os alinhadores, é necessário utilizar acessórios adicionais, no intuito de otimizar o alcance da posição final e desejada para os dentes. É importante lembrar que, assim como na Ortodontia convencional, alguns movimentos dentários necessitam de terapia auxiliar – e com os alinhadores a biomecânica com recursos adicionais não é diferente.

Portanto, algumas más-oclusões exigem tratamento associado com outras opções de métodos convencionais. A confecção de attachments colados ao esmalte dentário, o recorte nos alinhadores (precision cuts), a colagem de botões aos dentes ou aos alinhadores, a aplicação de elásticos intra e intermaxilares e a instalação de mini-implantes sã o elementos auxiliares eficientes que ajudam no controle de efeitos colaterais e promovem maior previsibilidade ao movimento dentário, contribuindo para a redução das limitações do sistema.

Os attachments são confeccionados com o intuito de aumentar a retenção dos alinhadores e facilitar certos movimentos, como rotação, intrusão, extrusão, mesiodistal e inclinação radicular. A forma, a posição e o momento para a confecção dos attachments variam de acordo com o tipo de movimento e sã o previamente definidos na elaboração do planejamento virtual. Desta forma, é possível melhor controle da rotação e inclinação de raiz (Figuras 1 a 6).

Figuras 1 a 6 – Paciente com nove anos de idade submetida a tratamento com Invisalign First para alinhamento dos incisivos superiores. Observe o planejamento virtual no programa ClinCheck preconizando att achments para o alinhamento correto dos incisivos. O alinhamento parcial foi obtido após dois meses de uso de alinhadores.

 

Os elásticos intermaxilares são frequentemente associados aos alinhadores para corrigir discrepâncias entre os dentes no sentido sagital (classe II ou classe III), Figuras 7 a 9; mordida cruzada posterior (Figuras 10 a 13); ou funcionar como controle de ancoragem. A vantagem de usar alinhadores é a possibilidade de empregar elásticos desde o início do tratamento até a obtenção da relação dentária desejada. As simulações do ClinCheck sã o planejadas para estimar a quantidade de movimentação obtida com o auxílio dos elásticos. Lembrando que os elásticos podem ser apoiados em botões colados nos dentes (Figura 8) ou no aparelho, recortes confeccionados pelo ortodontista ou solicitados durante a fase de ClinCheck, denominados precision cuts (Figura 9).

 

Figuras 7 a 9 – Paciente com má-oclusão de classe III tratado com elásticos de classe III ¼” leve desde o primeiro alinhador. Nos primeiros molares superiores foram colados botões na região cervical, enquanto na região cervical dos caninos inferiores adicionou-se aos alinhadores precision cuts para suporte dos elásticos. Observe o efeito conseguido após seis meses de tratamento com elásticos de classe III.

 

Figuras 10 a 13 – Paciente com mordida cruzada posterior do lado direito tratado com elástico cruzado 1⁄8” leve desde o primeiro alinhador. No segundo pré-molar superior, foi colado botão na região cervical lingual, enquanto na região cervical vestibular do segundo pré-molar inferior adicionou-se botão para suporte do elástico.

 

Elásticos intra-arcos também podem ser usados para casos específicos, como no auxílio de movimentos verticais extrusivos de incisivos laterais superiores. Notoriamente, os incisivos laterais, por terem uma coroa clínica expulsiva (forma de semente de melancia), dificultam o movimento vertical – sendo uma limitação de todos os alinhadores. Assim, uma biomecânica conhecida como bootstrap pode ser empregada (Figuras 14 a 19).

 

Figuras 14 a 19 – Caso clínico utilizando a mecânica bootstrap sobre o incisivo lateral superior direito. Os botões são colados por vestibular e lingual na região cervical. Um elástico 1⁄8” leve é adaptado de um botão ao outro passando sobre a região interproximal mesial e distal do alinhador. A mecânica durou três meses, observa-se a melhora vertical do posicionamento do 12.


Se por um lado já é possível utilizar a plataforma digital para planejar o uso de attachments ou elásticos intermaxilares de classe II ou classe III, por outro, o que se observa é que ainda não conseguimos elaborar um plano de tratamento por meio de ClinChecks usando a associação de mini-implantes de forma previsível.

Ao associar recursos como os mini-implantes aos alinhadores, amplifica-se o leque de opções terapêuticas, principalmente para casos complexos nos quais a ancoragem é crítica. Além disso, tratar uma classe II ou classe III associando mini-implantes extra-alveolares aos alinhadores pode favorecer a obtenção de resultados mais precisos e mais rápidos, que dificilmente seriam alcançados com o uso isolado dos aligners (Figuras 20 a 23).

Figuras 20 a 23 – Paciente com má-oclusão de classe II tratado com elásticos de classe II ¼” leve e mini-implante em crista infrazigomática com elásticos adaptados em precision cuts até o IZC. Nos primeiros molares inferiores, foram colados botões na região cervical e adicionados precision cuts aos alinhadores para suporte dos elásticos de classe II e de IZC. Observe o efeito conseguido após seis meses de tratamento com associação de elásticos de classe II e mini-implante em IZC.


A associação de miniparafusos e alinhadores pode ser benéfica em situações de mordida aberta anterior. No caso clínico ilustrado pelas Figuras 24 a 26, a paciente apresenta mordida aberta anterior e relação de classe II. Foi instituída biomecânica de mini-implantes em crista infrazigomática (IZC) superior para servir de ancoragem para intrusão posterior (força vertical advinda de elástico 1⁄8” ao IZC) e, simultaneamente, a distalização de todo o arco (força advinda do elástico apoiado em IZC e precision cuts, Figura 25). Após quatro meses de mecânica, nota-se a melhora na relação sagital e vertical.

Figuras 24 a 26 – Paciente apresenta mordida aberta anterior e relação sagital de classe II. Foi instituída biomecânica de mini-implantes em IZC superior para servir de ancoragem para intrusão posterior (força vertical advinda de elástico 1⁄8” ao IZC) e, simultaneamente, distalização de todo o arco (força advinda do elástico apoiado em IZC e precision cuts). Após quatro meses de mecânica, nota-se a melhora na relação sagital e vertical do caso.


Conclui-se que a associação de recursos auxiliares aos alinhadores permite maior eficiência biomecânica, principalmente para o tratamento de casos desafiadores ou complexos.

 

 

 
   


Marcio Rodrigues de Almeida

Mestre, doutor e pós-doutor em Ortodontia – Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP); Minirresidência em Ortodontia – Universidade de Connecticut, EUA; Professor do curso de mestrado/doutorado em Ortodontia – Unopar, Londrina/PR.