Publicado em: 22/07/2019 às 13h35

Um olho na máquina e outro no paciente

Antes uma tendência, a inteligência artificial hoje é realidade nos principais mercados. Na área da Saúde, incluindo a Odontologia, esse conceito pode mudar os rumos do atendimento, dos tratamentos e do conhecimento.

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(Imagem: Shutterstock)

 

O que parecia ficção nas telas do cinema, atualmente já faz parte da nossa rotina. Porém, há um aspecto específico mostrado pelos filmes que retratam a inteligência artificial (IA) e que hoje aponta para uma direção diferente: a importância da intervenção humana nos avanços tecnológicos, principalmente na área da Saúde. As máquinas não estão aqui para substituir o homem. Pelo contrário, elas aprendem com nosso comportamento e é assim que se aprimoram. Por isso, cada vez mais, trabalham em conjunto com os profissionais.

De acordo com dados da consultoria Accenture, até 2026 as principais ferramentas criadas pela inteligência artificial para a área da Saúde irão gerar uma economia de US$ 150 bilhões para os cofres dos Estados Unidos. Em cinco anos, o mercado de IA terá crescido mais de dez vezes nos Estados Unidos.

A seguir, Fabio Mattoso, líder de Watson Health para IBM Brasil, fala sobre o papel da inteligência artificial e da machine learning no dia a dia dos profissionais de Saúde, mostrando as transformações esperadas pela Medicina, mas que certamente também chegarão à Odontologia. Já o ortodontista Alexander Macedo contextualiza como a IA tem atuado especificamente na Ortodontia e os caminhos que o futuro nos reserva. Confira.

 

Fabio Mattoso

 

Líder de Watson Health para IBM Brasil; Biomédico – Universidade de Santo Amaro; Especialista em Imagenologia e Biofísica; Autor de trabalhos em universidades brasileiras e aprimoramentos protocolares no Hospital Universitário de Miami (Estados Unidos) e no Hospital St. Luke’s, de Jacksonville (Estados Unidos).

 

O uso de inteligência artificial e machine learning no apoio a decisões médicas – seja na hora de escolher um tratamento ou, especificamente, em hospitais para alocação de recursos por gestores de maneira mais embasada – é a principal tendência na área da Saúde. Essas ferramentas têm o potencial de reduzir as tarefas burocráticas, administrativas e repetitivas, dando aos profissionais mais tempo para focar na relação médico-paciente.

Machine learning e outras tecnologias associadas à inteligência artificial permitem que sistemas aprendam a trabalhar com os dados disponíveis para gerar insights. Com o Watson Health, as soluções são capazes de trabalhar com um volume imenso de informações, correlacioná-las e apontar, para avaliação dos médicos, possíveis caminhos pertinentes a cada paciente. Essa análise tem como base os mais atualizados estudos e evidências, contando com a curadoria do Memorial Sloan Kett ering Cancer Center, instituição que é referência mundial no tratamento do câncer e que treina a solução Watson for Oncology.

Os benefícios do uso efetivo da inteligência artificial são muitos. As ferramentas oferecerão informações imprescindíveis, coletadas a partir da integração de dados científico, genômico, comportamental e socioeconômico da pessoa atendida, indo além do que ela lembra de contar na consulta. Como consequência, o médico poderá traçar planos de tratamento cada vez mais personalizados. A quebra de paradigma fará com que usemos essa miríade de dados para tratar casos de acordo com o que seria ideal para cada pessoa – e não mais de acordo com o que funciona para a maioria.

No entanto, o trabalho das máquinas não poderá substituir a função do profissional de Saúde. O papel do médico será, na verdade, fortalecido pela tecnologia, já que para se manter atualizado com as publicações mais recentes ele teria que estudar cerca de 167 horas por semana, algo em torno de 20 horas por dia.

Existem estatísticas mostrando que os médicos podem passar de 50% a 60% do dia realizando tarefas administrativas e burocráticas – demandas que serão bem menores com a inteligência artificial, que possibilita automatizar processos, facilitar o preenchimento dos prontuários eletrônicos, reduzir burocracias e tarefas repetitivas e analisar imagens radiológicas simples. Assim, os profissionais de Saúde podem dedicar mais tempo ao lado humano do tratamento.

Dentro dessa temática, uma das maiores discussões é a ética e a responsabilidade das empresas que promovem a inteligência artificial. Os princípios éticos para desenvolvimento de tecnologia são fundamentais para a IBM, que assinou um acordo com outras empresas do segmento para estabelecer as melhores práticas para a IA e discutir suas influências para a sociedade. O projeto tem o objetivo de garantir que as aplicações sejam benéficas para as pessoas e para a humanidade.

Vale ressaltar também que a IA não aprende sozinha: é alimentada por dados e seu aprendizado acontece de maneira supervisionada, com treinamento por meio de feedback positivo e negativo – isto é, de acordo com a resposta dada, o usuário pode apontar se está de acordo ou não e, assim, o sistema vai sendo aprimorado. A evolução da computação cognitiva caminha para se aproximar cada vez mais da forma como os humanos se comunicam, permitindo o diálogo em linguagem natural com as máquinas e o desenvolvimento de “sentidos” que ampliem a capacidade de compreender o ambiente em volta de acordo com o contexto. Espera-se ainda que a capacidade de raciocinar e gerar hipóteses dos sistemas inteligentes evolua para conseguir ajudar a resolver problemas humanos cada vez mais complexos, entre eles, os relacionados à área da Saúde.

 

Alexander Macedo

Especialista e mestre em Ortodontia e Ortopedia Facial; Pós-graduação na Universidade Johannes Gutenberg de Maiz (Alemanha); Professor de Ortodontia no Instituto Vellini.

 

A tecnologia tem um impacto importante no cotidiano, seja na comunicação, organização ou entretenimento, facilitando o desempenho nas funções diárias, além de despertar sensações e experiências muito interessantes.

Por ser apaixonado pela tecnologia, acompanho de perto sua evolução tanto no dia a dia profi ssional como pessoal. Uma passagem inesquecível foi ver pela primeira vez no congresso da Associação Americana de Odontologia (ADA), em 1996, os óculos virtuais que passavam filmes em 3D. Até o nome era inovador, iGlasses. Eles fi zeram sucesso no consultório, entretendo e acalmando pacientes durante as consultas. Percebi que a tecnologia poderia auxiliar profi ssionalmente, além de proporcionar uma experiência marcante aos clientes e me diferenciar no mercado. Isso também aconteceu no lançamento do iPhone, do iPad, da Alexa (a assistente virtual da Amazon) e, recentemente, do scanner intraoral iTero.

Ao acompanhar de perto a evolução tecnológica, fica mais rápido e intuitivo absorver e aplicar os benefícios no contexto pessoal e profi ssional. Esse interesse me despertou a curiosidade em conhecer e trabalhar com alinhadores removíveis, confeccionados a partir de modelos estereolitográficos usando a tecnologia CAD/CAM (Invisalign), ainda no ano de 2002, e depois adotei os braquetes linguais customizados, desenvolvidos pelo Dr. Wierchmann – conhecido nos Estados Unidos como iBrace e, posteriormente, como Incognito (3M Unitek).

A utilização da tecnologia 3D tem crescido rapidamente nos últimos anos na Odontologia, auxiliando os profissionais a alcançarem resultados cada vez mais precisos e, consequentemente, levando os pacientes a usufruírem desses benefícios. Porém, a inteligência artificial e a machine learning serão as ferramentas que apresentarão maior evolução em um futuro próximo. Ao contrário do que muitos pensam, a IA não está associada a filmes de ficção científica.

Ela já está presente no cotidiano, por exemplo, durante o contato com uma central de atendimento ou ao digitar em um chat pela homepage de uma empresa – isso mostra a nossa interação com robôs. É possível ir mais longe: através desta interação, estamos ensinando máquinas a executar melhor suas funções em uma linguagem natural, sem obter respostas padronizadas ou vozes robotizadas (eletrônicas).

A inteligência artifi cial pode ser descrita de maneira genérica como qualquer tarefa realizada por uma máquina ou programa que, de outra forma, exigiria um processo de pensamento humano, se realizado por um de nós. Os sistemas de IA geralmente exibem pelo menos alguns dos seguintes comportamentos associados à inteligência humana: raciocínio, planejamento, aprendizado, resolução de problemas, percepção e até criatividade e inteligência social.

A inteligência artificial na Odontologia pode ser empregada no diagnóstico de radiografi as, em programas de cefalometria e na simulação de tratamentos ortodônticos após a aquisição de imagens das arcadas através do escaneamento tridimensional, onde algoritmos sugerem opções de tratamento, utilizando informações de bancos de dados que são incorporados diariamente. Um bom exemplo é o software ClinCheck e a ferramenta Outcome Simulator, disponíveis no sistema Invisalign. Apesar do contínuo aprendizado da máquina, cabe ao ortodontista avaliar os resultados e interferir caso seja necessário, de acordo com a individualidade do caso e a experiência na resolução de problemas parecidos.

Se a palavra final ainda é do profissional responsável pelo tratamento, qual seria a vantagem de utilizar esta tecnologia? São inúmeras, entre elas, precisão no diagnóstico, avaliação de diferentes planos de tratamento, minimizar efeitos colaterais e diminuir o tempo no atendimento do paciente e do tratamento.

A utilização crescente e o desenvolvimento da IA causará um impacto cada vez maior na Odontologia clínica – e este é um caminho sem volta. O homem nunca será substituído totalmente, pelo contrário, a ascensão das máquinas permitirá desempenhar a profissão em um nível mais elevado em todos os aspectos, simplifi cando o trabalho e aumentando o tempo para interagir com o paciente. O futuro da Odontologia será muito interessante e podemos esperar que essas ferramentas se tornem comuns, colaborando para o atendimento de excelência.