Publicado em: 06/08/2019 às 11h46

Big Mac no Expresso do Oriente

Celestino Nóbrega debate os efeitos da globalização e suas consequências no consultório odontológico.

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(Imagem: Shutterstock).

 

Há muito tempo, em uma época distante e bem antes que o muro de Berlim viesse abaixo, minha esposa e eu peregrinamos por alguns países do Leste Europeu. Ainda não havia bagagens fancy com rodinhas do tipo Rimowa ou Tumi, não contávamos com smartphones e, pasme, não existia cartão de crédito internacional. O jeito era utilizarmos a tecnologia da época: mochilão nas costas, câmera fotográfica analógica e dinheiro em espécie. Detalhe: obviamente, ainda não havia ocorrido a unificação do bloco europeu e tínhamos que fazer câmbio entre as moedas utilizadas no último país visitado pelas do próximo. A saga para trocar xelim da Áustria por florins húngaros era um prenúncio do que estava por vir.

Às vezes eu fico pensando no quão fantástica é a capacidade de memória de um ser humano. Por exemplo, algumas vezes passamos por momentos aparentemente desprezíveis no instante em que acontecem, mas que ganham grande relevância com o passar do tempo. Por exemplo: um episódio de diarreia (ou piriri) é uma onomatopeia perfeita para definir este sulfuroso e sonoro estertor. Estes são acontecimentos simplesmente inesquecíveis. Se o escritor Nelson Rodrigues me pedisse para definir o termo inesquecível”, eu assim o definiria: piriri a bordo de um trem sem banheiro.

É possível esquecer-se de datas importantes, nomes de pessoas que você conheceu, de quanto seu cunhado deve a você, do nome do artilheiro do campeonato brasileiro de 1993, da marca do batom que sua esposa pediu para você comprar na Macy’s, mas jamais se esquecerá de todas as diarreias que marcaram sua vida. Inclusive, você provavelmente está se lembrando de pelo menos um episódio destes neste exato momento ou, talvez, até esteja lendo este texto no banheiro.

Filósofos e grandes efemérides da história mundial são unânimes ao concordar que nada pode ser mais repentino e veloz do que o piriri – nem mesmo a velocidade da luz ou a rapidez do pensamento. Realmente, quando “a coisa” vem não dá tempo de pensar nem de acender a luz do banheiro. Piriri é igual àquele parente chato: chega sem avisar e traz uma sensação de alívio e prazer quando vai embora. Inclusive, eu acho que piriri em certos casos está mais para pororó. Explico: dependendo do estado de estresse da vítima, a musculatura associada ao controle do esfíncter pode estar mais ou menos relaxada, determinando assim a sonoridade do fenômeno. Está aí um bom tema para tese de mestrado e doutorado.

Durante uma curiosa viagem desde Viena até Budapeste a bordo do Expresso do Oriente, nem mesmo Hercule Poirot poderia imaginar que o goulash que eu saboreei na noite anterior em Viena, em um botequinho nos arredores da Catedral de Saint Stephen, me traria complicações gastrointestinais. Lembro-me como se fosse hoje da forma como eu me contorcia para tentar segurar o que não pode ser segurado. Tipo geleia na mão direita de um bêbado canhoto com mal de Parkinson. O interessante é que a imagem do garçom que serviu o goulash nunca me saiu da mente. Ele ostentava um bigode muito bem nutrido, semelhante ao de Messier Poirot. Pura coincidência?


Assim sendo, após me aliviar na estação central de Budapeste, dirigimo-nos para o balcão de informações, onde fui advertido de que naquele país a língua inglesa era abominada. Ali se falava magiar (idioma local) e também russo. Soube posteriormente que o funcionário que limpou o banheiro ficou tão abalado que decidiu literalmente mudar de ares: aposentou-se precocemente e comprou uma casa de campo em Chernobyl.

Sem dinheiro, pois não havíamos feito o câmbio de moedas, fomos a pé até o hotel. Tomamos banho, eu primeiro e minha esposa depois, por motivos que você pode facilmente intuir. Imaginem o bom humor da minha esposa a esta altura do campeonato.


Agora sim, de banho tomado, bem agasalhados para enfrentar o frio oriundo do tenebroso inverno siberiano, eu sentia um grande vazio interior. No centro de Budapeste, a cinzenta noite de inverno sombrio contrastava com o amarelo e vermelho do logotipo que iluminava a fachada da nova loja da rede de fast-food McDonald’s, que naquele momento histórico do final dos anos 1980 abria a sua primeira unidade na cidade. Havia uma fila enorme e famílias inteiras compravam um McLanche Feliz para compartilhar entre todos.

A grande letra M e o palhaço colorido agora ornavam a mesma calçada onde, no início do século 20, Toulouse Lautrec, Sigmund Freud, Carl Jung e Gustav Klimt sorviam seus cálices de absinto. Algumas décadas depois, naquela noite histórica de Budapeste, o McDonald’s ostentava um enorme aviso que dizia: aceitamos dólares.
 

1. Os preços praticados no Brasil pelas empresas globais são pareados com outros países?

2. Nós ortodontistas somos consumidores diretos dos produtos que irão ser instalados em nossos pacientes?

3. Qual o motivo das empresas realizarem o marketing direcionado aos pacientes e não a nós?

4. Então, nós ortodontistas somos apenas vetores de venda de produtos multinacionais, tipo Amway, Avon, Tupperware, Mary Kay etc.? Ou seja, será que eles estão aplicando a estratégia multi level marketing e nos usam para vender seus produtos como se fôssemos vetores? Executamos o tratamento, arcamos com os riscos jurídicos profissionais, absorvemos as queixas dos pacientes, financiamos o tratamento aos pacientes e repassamos o pagamento às empresas. Excelente negócio para quem?

 


 


O marketing convence o paciente, que convence o ortodontista, que não convence a si próprio. Hoje, um dos vagões que compõem o Expresso do Oriente é ocupado por uma lanchonete do McDonald’s. E todos os vagões têm banheiro. Em Pindamonhangaba já tem McDonald’s, e o de Port Jefferson fechou.
 


Lembro da dona do empório da rua da minha casa em Pindamonhangaba, que era idolatrada pelas donas de casa do bairro do Campo Alegre por receber durante muitos anos homenagens da Avon, por ser excelente vendedora. Mas, a fama veio abaixo quando a mulherada descobriu que ela vendia os produtos a preço de custo para poder se gabar de ganhar a plaquinha dourada.

E o seu consultório, já tem plaquinha? Até a próxima dor de barriga.

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.